Por Hyader Epaminondas

Em “Narciso”, o diretor Jeferson De revisita temas presentes em seu primeiro curta-metragem e os amplia em um longa que investiga afeto, identidade e as complexas formas de família que surgem dentro do sistema de acolhimento institucional.

Ambientado no universo das casas de passagem, espaços concebidos para estadias breves, mas que frequentemente se prolongam por anos, o filme observa a vida de uma criança que cresce em um lugar intermediário entre o abandono e a promessa de pertencimento. A narrativa evidencia as limitações estruturais e emocionais desses ambientes, onde a ideia de lar permanece sempre provisória e onde o tempo da infância passa enquanto se aguarda por uma família que talvez nunca chegue.

Essa primeira camada da história é conduzida por Ju Colombo, que interpreta Carmen, o verdadeiro pilar da casa, e é ela quem, de forma subjetiva, apresenta todos os elementos que vão ser dissertados em cena. É a atriz quem sustenta o grau de atuação do longa, transitando durante todo o tempo entre uma fragilidade sensível e uma solidez afetiva ao lidar com as rejeições enfrentadas por seus filhos de coração. Sua presença dá equilíbrio emocional ao filme e ancora a narrativa nas tensões entre cuidado e vulnerabilidade.

Ao tratar dessas instituições, o longa também toca em um tema sensível no Brasil: o sistema de adoção. A obra não poupa esforço ao apresentar as desigualdades que atravessam esse processo, colocando, logo na abertura, a devolução de uma criança pelos pais adotivos. Crianças negras costumam ser preteridas nas filas de adoção, enquanto as mais velhas frequentemente envelhecem dentro das instituições sem serem escolhidas, e a espera por um novo lar se torna um evento traumatizante, incapaz de ser simbolizado, transformando-se em uma experiência existencial marcada por frustrações, expectativas e pequenas rupturas emocionais.

A narrativa incorpora elementos de realismo mágico ao introduzir uma “lâmpada mágica” capaz de realizar desejos no formato de uma bola de basquete, e é com esse dispositivo fantástico, que quica sem parar em um som grave enquanto produz um eco agudo, que o filme explora a subjetividade da infância e a maneira como imaginação e realidade se misturam quando a fantasia surge como mecanismo de sobrevivência emocional. Uma bola arremessada em uma cesta improvisada de basquete marca o surgimento desse elemento mágico, transformando um gesto cotidiano em portal para o imaginário.

A presença do gênio interpretado por Seu Jorge inevitavelmente evoca o personagem vivido por Shaquille O’Neal em “Kazaam”, nos anos 90, mas o filme adiciona uma camada simbólica particular ao contexto brasileiro: o personagem estabelece uma referência direta a Oxóssi para transmitir uma lição ao nosso protagonista. Essa aproximação amplia o sentido da figura mágica: o gênio deixa de ser apenas um mediador de desejos para se tornar também uma presença espiritual que guia, observa e protege o protagonista em um diálogo com a cosmologia afro-brasileira.

Jeferson De, aqui, mostra seu trabalho mais maduro de sua filmografia. Ele utiliza o subconsciente coletivo e a falta de repertório de letramento racial para propor uma ressignificação da fantasia tradicional ao deslocá-la para um imaginário marcado por referências culturais negras.

Quando o filme entra em sua segunda fase, a fotografia passa a operar em tons mais monocromáticos, criando uma atmosfera que contrasta, de propósito, com a linguagem apresentada anteriormente. Aqui, ele quer colocar as coisas no preto e no branco, em um comentário sobre o próprio campo das representações. Ao reduzir a paleta visual, o diretor evidencia simbolicamente a pobreza de referências e a limitação de modelos de identificação historicamente disponíveis para personagens negros dentro do entretenimento.

A personagem Josefa ganha vida através da atuação de Teka Romualdo no papel de empregada da família de comercial de margarina, propositalmente questionando diretamente o consumo de produtos culturais e a maneira como esses conteúdos projetam padrões de sucesso profundamente marcados pelo eurocentrismo. A fala rompe momentaneamente a fluidez da narrativa para introduzir uma reflexão crítica sobre o imaginário coletivo e sobre como a indústria cultural construiu, durante décadas, um repertório de imagens no qual personagens negros aparecem quase sempre em posições periféricas.

Todo esse arco revela como os modelos de sucesso oferecidos pelo entretenimento atuam na formação psíquica das crianças. Ao consumir narrativas em que heróis, protagonistas e símbolos de poder são majoritariamente brancos, personagens negros crescem diante de um espelho cultural que raramente os reflete. O filme retorna à questão central da história: a dificuldade do protagonista em construir uma imagem positiva de si mesmo dentro de um sistema simbólico que constantemente o desloca para a rejeição.

O espelho de Narciso e a construção de si em um mundo que não reflete

Ao ser inspirado no mito de Narciso, personagem que se apaixona pela própria imagem, o filme atualiza essa referência clássica para discutir amor-próprio e percepção de si em um contexto contemporâneo marcado por desigualdades raciais e sociais.

Se, no mito original, a tragédia nasce do fascínio pela própria aparência, aqui o conflito se desloca para a dificuldade de reconhecer a si mesmo em um mundo que constantemente devolve imagens distorcidas de quem se é. Ao desejar ser visto branco pelos brancos e negro pelos negros, o protagonista expressa uma tensão profunda entre pertencimento e aceitação, revelando como o olhar social interfere diretamente na construção da subjetividade.

O Narciso de Arthur Ferreira é um garoto que conheceu cedo demais a dor da rejeição. Sem conseguir elaborar esse sofrimento, passa a negar aspectos de sua própria identidade e, nesse processo, acaba afastando aqueles que tentam se aproximar.

Ao acompanhar esse percurso, o longa também reflete sobre a infância como território de formação simbólica. A criança, ainda em processo de compreender o mundo, tenta organizar suas experiências por meio de imagens, histórias e fantasias que ajudam a dar sentido ao que é difícil de nomear.

Ao longo de seus 90 minutos, “Narciso” articula essas camadas sociais, simbólicas e afetivas para construir uma narrativa que oscila entre o lúdico e o melancólico, com um desfecho otimista que faz toda a história fazer sentido.

Jeferson De propõe uma reflexão sobre pertencimento, identidade racial e os impactos psicológicos da rejeição na infância, ao mesmo tempo em que questiona quais imagens de si uma criança é capaz de construir quando cresce em um ambiente onde o acolhimento raramente chega.