IDLIBRA: o melhor ‘beat’ em linha reta
Entre o gesto individual e a construção coletiva, Idlibra se firma como uma artista que não apenas ocupa a cena, mas participa ativamente de sua configuração.
Por Isaac Urano
‘O Recife’ tem sido carregado de uma aura sui generis: o debate efervescente de uma produção cultural forte e expoente à brasileira, no dorso da memória e de afetos. Mas o Recife não seria ‘só’ isso, não é? Existem tantas linguagens acontecendo nessa atmosfera enevoada de cultura — o pensamento vanguardista é quase intrínseco. Movimentar uma cena potente, independente e rica só seria possível com “o melhor beat em linha reta”: o som de Idlibra.

Atuando como DJ há cerca de uma década, Idlibra iniciou seu percurso por volta de 2015, inserida no ‘frevo’ da cena eletrônica recifense, marcada pela mistura de gêneros e pela liberdade de experimentação. Antes disso, já havia transitado pela música em bandas de colégio e igreja, mas foi no encontro com a performance e com o ambiente das festas que encontrou um novo eixo de criação. Em paralelo à atuação artística, desenvolve um trabalho consistente na produção cultural: é curadora da festa JORRA! e integra a construção do palco Kamikaze, no Festival Coquetel Molotov, consolidando-se também como uma agente ativa na articulação da cena e na circulação dos artistas que a compõem.
Essa dupla atuação, entre o gesto individual e a construção coletiva, atravessa diretamente sua forma de pensar a música. Seus sets revelam uma pesquisa estética marcada por doses de simetria e densidade, enquanto sua ação curatorial evidencia um compromisso com a criação de espaços possíveis, onde diferentes corpos e sonoridades possam existir. É nesse trânsito entre criação e estrutura que Idlibra se firma como uma artista que não apenas ocupa a cena, mas participa ativamente de sua configuração.

U: Quem é Idlibra? Como tua trajetória foi se construindo até aqui? Quais caminhos essa artista percorreu?
I: IDLIBRA é o nome que eu dei ao meu projeto musical como DJ, no qual tenho atuado pelos últimos dez anos. Tudo começou nas minhas experiências na cena independente eletrônica de Recife, por volta de 2015/2016. Recife sempre teve essa característica de mistura, de cruzar linguagens, gêneros e referências, e isso me encantou muito. Antes disso, eu já tinha tido contato com a música na adolescência, com bandas de colégio e igreja, mas foi mais tarde, estudando performance e corpo, e também trabalhando nas festas, que fui encontrando um novo caminho dentro da música. Foi nesse processo — entre pista, pesquisa e prática — que a Idlibra foi se construindo, muito atravessada por esse ambiente da cena independente e por essa liberdade de experimentação que Recife proporciona.
U: Além da música, tu também atua na produção cultural, que é esse lugar de articulação, de fazer uma cena se movimentar. Como isso entra na tua vida? O que muda quando tu está não só como artista, mas também pensando estrutura, circulação e espaço para outras pessoas?
I: Hoje eu atuo como curadora da festa JORRA!, junto da produtora golarrola, e também faço parte da construção do palco Kamikaze, no Festival Coquetel Molotov, aqui em Recife, que surgiu há cerca de cinco anos. O Kamikaze era um grande sonho meu e, junto com Ana e toda a equipe do festival, a gente conseguiu construir um espaço que hoje virou um símbolo da experiência do Coquetel. É um trabalho diário, que atravessa o ano inteiro. Existe muito cuidado na construção da grade eletrônica do festival, pensando não só na música em si, mas nas conexões, nas narrativas, no que aquele espaço pode provocar. Então, quando eu estou nesse lugar de produção, muda completamente a escala. Eu deixo de pensar só na minha expressão individual e passo a pensar em estrutura, em circulação, em como criar possibilidades para outras pessoas também ocuparem esses espaços.
É um trabalho de articulação mesmo, de construção coletiva.

U: Tu já passou por palcos muito diferentes, inclusive o Lollapalooza — e foi tudo! Mas como foi essa experiência pra ti? O que atravessa um artista quando sai de circuitos mais independentes e ocupa um palco desse tamanho?
I: Eu entendo que esses grandes palcos são uma oportunidade de juntar as suas melhores cartas. É como se você condensasse tudo aquilo que te marca, tudo que é expressivamente você, naquele momento específico. Normalmente são sets mais curtos, então existe uma intensidade maior também, uma necessidade de criar uma experiência muito direta, mas, ao mesmo tempo, tridimensional. Eu gosto muito de pensar no que dá pra fazer com todas as possibilidades ali — som, energia, construção de clima — e como transformar aquele tempo em algo que realmente atravesse as pessoas.
U: Quero entender um pouco sobre teu processo criativo. O que costuma estar no teu “moodboard” quando tu está criando? Referências musicais, visuais, afetivas… o que tem te atravessado ultimamente?
I: Eu acho que existe sempre um excesso de simetria, de matemática e de minimalismo em tudo que eu faço. Isso é uma coisa que sempre me atravessou, uma espécie de obsessão mesmo. Ao mesmo tempo, eu tento captar um universo sonoro que também é visual, que vem muito das minhas pesquisas na música — coisas como madeira, densidade, eletricidade.
Esses elementos vão se traduzindo em imagens, em sensações, em direções criativas. E aí essas figuras mais diretas vão surgindo em cada oportunidade, dependendo do contexto, como aconteceu, por exemplo, no Lollapalooza. É um processo que mistura muita percepção sensorial com construção estética, e que vai se adaptando a cada situação.

U: E, olhando para o caminho que tua carreira está tomando, o que podemos esperar nesse horizonte? Quais os próximos passos?
I: Eu sinto que venho me aproximando cada vez mais de Recife na minha pesquisa, e isso tem sido muito importante pra mim. Eu já explorei muitas referências diferentes ao longo do tempo, mas, desde que comecei a produzir som, fui entendendo melhor a carga referencial que eu carrego do meu próprio lugar. Só que isso, antes, aparecia de forma mais pontual, mais intrínseca dentro dos ritmos de club com os quais eu sempre trabalhei.
Agora eu quero investigar isso de forma mais direta.
Existe um desejo de aprofundar essa relação com o território, com as sonoridades, com as influências que vêm de Recife — e isso está muito presente no que eu imagino para o meu primeiro álbum.
É orgânico; a pista é cheia de instinto e, ainda assim, extremamente equilibrada. É evidente que são essas primeiras experiências que dão luz a uma pista que se maximaliza em direção aos grandes palcos; nesse espectro, atravessa um processo criativo que mistura referências sensoriais e uma investigação formal que nasce da práxis de uma produtora que lê a cena — entender o tabuleiro é saber virá-lo a seu favor. Idlibra evidencia uma prática que se alimenta tanto do ambiente quanto das relações que constrói nele. Seu discurso aponta para uma escuta atenta, que não se limita ao som.
O que se desenha a partir daqui é um aprofundamento dessa relação com o território, com Recife, agora assumido de forma mais consciente como eixo de pesquisa para seus próximos trabalhos. Se antes essas referências apareciam de maneira mais diluída, hoje se tornam matéria central na investigação de um percurso cada vez mais elaborado e signo de autenticidade. Esse primeiro álbum não deve ser entendido apenas como um novo projeto, mas como uma intersecção de tudo o que há de potente e sofisticado, de tudo aquilo que vem sendo cultivado há tanto tempo — é uma conexão ‘idlibriana’, e todo mundo está dentro dela.



