“Ice Out” no Grammy: quando a cultura pop se politiza e ocupa espaços urgentes
De Billie Eilish a Lady Gaga, as artistas mulheres foram peças centrais na denúncia das políticas migratórias de Donald Trump durante a principal cerimônia da música global.
Em tempos em que se posicionar politicamente pode significar, para uma artista, a perda de contratos, ataques nas redes sociais ou uma queda expressiva no número de seguidores, os eventos internacionais vêm se transformando em palcos fundamentais para que figuras culturais projetem suas vozes. A última edição do Grammy Awards confirmou essa tendência por meio do movimento conhecido como “Ice Out”.
Durante a cerimônia, diversos artistas aproveitaram a visibilidade para expressar críticas às políticas migratórias dos Estados Unidos, associadas à gestão de Donald Trump, e às ações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE). O lema, presente em discursos, gestos simbólicos e acessórios, funcionou como uma consigna coletiva em uma das transmissões mais assistidas do ano.
Entre as artistas que se posicionaram, destacou-se Billie Eilish, que, ao receber o prêmio de Canção do Ano, afirmou que “ninguém é ilegal” e questionou as práticas de detenção de migrantes. Olivia Dean, premiada como Artista Revelação, mencionou sua história familiar e defendeu a contribuição das comunidades migrantes para a sociedade norte-americana. Na mesma linha, Kehlani utilizou seu discurso para denunciar publicamente o ICE e convocar a indústria musical a adotar uma postura ativa diante das injustiças. Becky G, por sua vez, realizou um protesto silencioso e ao mesmo tempo potente: posou diante das câmeras exibindo suas unhas decoradas com a frase “FUCK ICE”, em alusão direta à agência governamental.



A cantora de jazz Samara Joy também se juntou ao protesto no tapete vermelho, onde usou um broche com a consigna “ICE Out”. A essas manifestações somou-se a participação de Lady Gaga, convidada para apresentar um dos prêmios, que aproveitou sua fala para demonstrar solidariedade às pessoas migrantes e reforçar a responsabilidade social da arte diante da criminalização e da violência institucional.
As manifestações geraram reações divididas. Enquanto parte do público e da crítica valorizou o uso do palco para dar visibilidade a questões sociais, outros setores passaram a criticar a chamada “politização” da cerimônia.
A edição de 2026 do Grammy reafirma uma tendência: apesar das tentativas de esvaziar politicamente os grandes palcos internacionais diante do avanço da extrema-direita, a cultura pop ocupa hoje um papel cada vez mais relevante no debate público global. E Trump não vai curtir esta publicação.



