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‘I Am Ready, Warden’: A pena de morte realmente traz conforto às vítimas?
Curta documental explora as repercussões da pena de morte de um assassino no processo de cura de uma de suas vítimas.
Por Rodrigo Dutra
O cinema muitas vezes funciona como uma máquina de empatia: nos coloca no lugar de uma outra pessoa, vendo a vida através das experiências dela, entendendo melhor contextos e vivências diferentes dos nossos. Dentro dessa capacidade, existe também o perigo das narrativas tendenciosas, do sensacionalismo e da forma como o foco em certas partes e a omissão de outras pode nos levar a conclusões equivocadas.
Com isso em mente, ‘I Am Ready, Warden’ (Estou Pronto, Guarda) — indicado ao Oscar na categoria de Melhor Curta-Metragem Documental — acaba sendo um filme extremamente difícil de se executar. Dirigido por Smriti Mundhra, o documentário acompanha os últimos dias de John Henry Ramirez, condenado à morte no Texas por homicídio.
O tema da pena de morte por si só já seria espinhoso e geraria discussões intermináveis, mas Mundhra decide aumentar a aposta: o filme acompanha não só Ramirez, o assassino no corredor da morte, como também Aaron Castro, o filho da sua vítima, aguardando a sua execução.
Essa narrativa, que transita de vítima a condenado, dá espaço para dois pontos de vista de uma mesma história se desenrolarem na nossa frente. Ramirez, que tinha 19 anos quando cometeu o crime, espera por sua execução há 14 anos. Ele tem um filho e busca redenção através da religião e do perdão. Enquanto isso, Aaron aguarda pacientemente que “a justiça seja servida” e o assassino de seu pai cumpra sua sentença.
A condução paciente da diretora Smriti Mundhra não parece em momento nenhum buscar alguma espécie de redenção a John Henry Ramirez, mas sim nos apresentar todo o contexto a fim de responder a pergunta: a pena de morte traz algum conforto às vítimas?
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O documentário abre com um vídeo de Ramirez se despedindo seis dias antes da sua execução e logo contextualiza o crime que o levou ao corredor da morte. A montagem gera uma sensação dissonante no telespectador: a dor de ver uma pessoa se despedir da vida e, em seguida, a indignação com um crime tão assustador.
John Henry Ramirez esfaqueou Pablo Castro 29 vezes para roubar $1,25. Não foi um crime tão simples e o contraste entre a morte violenta de Pablo Castro e a burocracia da execução de Ramirez ditam o tom do curta. Ainda que a condenação tenha acontecido e Ramirez já esteja preso, a espera e os recursos para reverter a decisão e mantê-lo vivo, adiam cada vez mais o seu destino.
Em dado momento, Mark Gonzales, procurador da cidade de Corpus Christi, no estado do Texas, responsável pelo caso, decide adiar a execução. Suas próprias crenças sobre o processo da pena de morte influenciam a decisão. O procurador chega a dizer que “nossa instituição não deveria estar envolvida no assassinato de cidadãos texanos”, dizendo com todas as palavras que a pena de morte é também um assassinato. Desde 1974, o estado do Texas já executou cerca de 587 prisioneiros condenados à morte.
A decisão de Gonzales em ser contra a pena de morte de Ramirez é uma parte interessante da trama do documentário. A princípio, a sua fala sobre não se envolver em assassinatos soa estranha para os que são a favor da forma de punição. A pena de morte de Ramirez se dá justamente por estar envolvido em um assassinato, mas levanta a questão que resolver violência com mais violência talvez não seja o caminho ideal para curar a dor das vítimas.
Apesar da tentativa de Gonzales em cancelar a pena, a execução de Ramirez se torna inevitável.
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O filme faz um ótimo trabalho ao apresentar a dificuldade das decisões para cada um dos seus personagens. A pena de morte é um daqueles temas que todo mundo tem uma opinião sobre. Muitos a favor, a fim de buscar algum senso de justiça e fechamento, outros acreditam na redenção e que mais violência não resolve nada.
Em uma das primeiras cenas, Jan Trujillo, integrante da Segunda Igreja Batista do Texas, relata seus primeiros contatos com John Ramirez: “O que você diz para alguém que esfaqueou outra pessoa 29 vezes?”.
Apesar do começo receoso, Jan e Ramirez construíram uma relação de amizade e Jan veio a se tornar sua madrinha, conduzindo estudos da bíblia e aproximando Ramirez cada vez mais da religião.
Jan, que já trabalhava em contato com presidiárias e foi convidada para conhecer Ramirez, teve sua expectativa quebrada: “Eu sempre fui a favor da pena de morte, mas me levou conhecê-lo como um ser humano para entender… que ele não é mais aquela pessoa”. Ela revela um lado mais sensível de Ramirez e chega a ler um poema que ele escreveu.
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Entretanto, nessa decisão de mostrar cada vez mais os diferentes pontos de vista e trazer um pouco mais de contexto sobre Ramirez, o filme acaba escanteando o filho da vítima da narrativa. Jan, Gonzales, Israel — filho de Ramirez — e os próprios relatos de Ramirez, acabam tendo mais voz na trama.
Aaron Castro, filho da vítima e principal afetado na história, recebe pouquíssimos momentos para contar o próprio lado nos primeiros dois terços do curta. E sempre que aparece, soa vingativo. É como se o filme fosse contra os sentimentos fortes que o filho da vítima tem para com o assassino de seu pai.
Quando a equipe do documentário mostra áudios e relatos gravados por Ramirez, ele se mostra impassível com suas justificativas e reflexões. Ramirez a todo momento deixa claro que suas ações foram horrendas e que não existe nada que mude isso. Mas até essa clareza e entendimento enfurece o filho de Pablo, que não quer nem ouvir a voz de Ramirez.
E talvez esse sentimento seja a abordagem ideal para uma história com um tema tão divisivo. Muito diferente de uma passada de pano, a decisão de contextualizar Ramirez serve para demonstrar que existe uma conexão entre vítima e condenado, para o bem e para o mal.
Pouco antes de ser executado, Ramirez pôde ligar para Israel, seu filho. Em uma cena dura de assistir, vemos pai e filho se despedindo. Israel tem pouco mais da idade que Aaron tinha quando perdeu o pai, sem a chance da despedida, e a sobreposição dos dois destinos revela a complexidade desse contraste.
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Na última parte do filme, vemos quase duas décadas de espera chegar ao fim. Em uma cena intimista, com a câmera sobre os ombros de Aaron Castro, vemos ele ouvir o que havia esperado desde a perda do pai. Pelo celular, Aaron é informado da execução de Ramirez. Independente de qual seja a sua resposta, a da diretora, ou de qualquer outra pessoa sobre pena de morte, o filme nos apresenta a imagem estática da reação de Aaron Castro após receber a notícia que o assassino de seu pai foi executado.
Nas câmeras de Mundhra, a justiça não é servida com nenhum tipo de celebração ou sensação de fechamento, mas sim com o vazio. Em certo momento, Aaron recobra a fala e diz: “mais uma vida foi tirada hoje…”
Ao invés do alívio que tanto esperava, ele não sente nada. O vazio que Ramirez fez na sua vida quando tirou seu pai não foi preenchido com a execução e só se intensificou com a conclusão de sua sentença.
Ainda que esse capítulo tenha se fechado, o ciclo de violência não acabou. Da mesma maneira que Aaron foi vítima das ações de Ramirez contra seu pai, Israel — filho de Ramirez —, também sofre as consequências de uma dor que ele nada tem a ver. E Aaron, que era uma vítima, se sente agora tão responsável quanto Ramirez foi na morte de Pablo.
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O filme termina com um perdão: após passar a vida toda fugindo de qualquer contato com o assassino de seu pai, Aaron ouve um pedido de desculpas gravado antes de sua execução e decide perdoá-lo.
‘I Am Ready, Warden’ não é perfeito – e em diversos momentos parece explorar momentos de extrema dor e vulnerabilidade de ambos os lados -, mas apresenta uma história crua e complexa sobre humanidade e moralidade.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.