A vitória de Joe Biden ainda pode enfrentar reveses. Trump declarou, mesmo antes do pleito, que reivindicaria na justiça o resultado das urnas, porém, caso confirmada a vitória do democrata, isso traz mudanças no xadrez global e em especial para a política interna brasileira?

É natural que as esquerdas latino-americanas não depositem absolutamente qualquer esperança na gestão de Joe Biden. Entretanto, não podemos afirmar que não há distância entre os cenários possíveis, ainda que Biden seja ao longo de toda sua trajetória um devoto do neoliberalismo. A diferença substancial entre eles é por Trump ser um radical, enquanto a aposta dos democratas foi no discurso moderado. Nesse sentido, a política externa tende ao pragmatismo, o que impacta diretamente nas relações com o governo brasileiro.

O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) nunca escondeu sua total subserviência a Trump, investindo em uma amizade jamais correspondida (beirando amor platônico), se alinhou à bilateralidade, abrindo mão de sua posição estratégica em negociações multilaterais, acompanhando a diretriz central de Mike Pompeo. O único resultado dessa investida do Itamaraty foi uma avalanche de falsas propagandas, nenhum acordo significativo partiu daí. Em boa medida, as relações com o Estados Unidos mantêm a tendência de quase um século de diplomacia.

Biden, por outro lado, se mostrou preocupado com o aquecimento global e com a preservação da Amazônia. Em campanha, subiu o tom contra a política ambiental em curso no Brasil, o que gerou desconforto e medo em Jair Bolsonaro. No entanto, questões cruciais para o meio ambiente, como a defesa intransigente dos direitos dos povos indígenas e a reforma agrária jamais serão pontos abordados por uma possível pressão externa vinda do Norte.

Na gestão Biden, a ingerência nos assuntos internos latino americanos obedecerá (como sempre) os interesses estadunidenses. O que realmente muda nesse cenário é a ausência momentânea do discurso de ódio. Trump acabou se convertendo em elemento decisivo para ascensão da extrema direita em escala global, não por acaso Bolsonaro fez questão de assumir o título de “Trump dos trópicos”. Obcecado pelo poder e sem nenhum compromisso com o país, o presidente brasileiro precisará arcar com o custo político de também moderar o discurso caso queira se aproximar de Joe Biden. Se a tendência de reivindicações sociais for crescente, as sementes de ódio plantadas pela extrema direita não terão a chancela imediata de Washington e esse é o epicentro da questão.

Não podemos deixar de associar as atrocidades que acontecem no Brasil com as falas desumanas de Bolsonaro. O dia do fogo, que cobriu parte do país de fumaça, as mais de 160 mil mortes causadas pela Covid-19, os assassinatos políticos contra candidatos de esquerda, indígenas e lideranças de movimentos sociais, entre diversos outros exemplos deixam claro que o discurso precede a ação. Perder a imagem de Trump como referencial discursivo, é per si algo que merece atenção.

Para as minorias (numéricas ou representadas) é de suma importância que o presidente americano não endosse declarações violentas que alimentam as ações da ala radical da direita brasileira. Se não podemos esperar retaliações contundentes vindas de Washington contra Bolsonaro, ao menos temos a certeza que o isolamento ideológico que o governo brasileiro irá sofrer, causará um profundo efeito psicossocial que pode desestruturar a força eleitoral da família Bolsonaro. O que precisa ficar nítido é que esse efeito na memória coletiva brasileira não é algo superficial, como boa parte da esquerda parece acreditar.

Sabemos que a manutenção da hegemonia das ideias faz parte da estrutura do sistema, precisamente por isso o controle narrativo ocupa espaço central na política. Ter como liderança global alguém racista, machista, homofóbico e xenofóbico não é novidade para o ocidente, mas quando tais preconceitos se tornam, explicitamente, a base do conjunto ideário de um certo movimento político, o único destino possível é a barbárie.

Biden está longe de ser um porto seguro. Para o Brasil, qualquer mudança estrutural depende do enfraquecimento do bolsonarismo, que tem parte de sua força simbólica no alinhamento ideológico com o atual presidente dos Estados Unidos. Não corroborar com as teses ecocidas e genocidas de Bolsonaro abre espaço para o fortalecimento das pautas direta e constantemente atacadas pela extrema direita. Contudo, Joe Biden e Kamala Harris não são lideranças ligadas à classe trabalhadora, existe sim uma crescente esquerda dentro do Partido Democrata que pode exercer pressão para que Biden não siga os passos de seus antecessores. Porém, ao fim e ao cabo, o fator decisivo desse horizonte de expectativa é o fortalecimento e a organização das esquerdas e dos movimentos sociais, inclusive nos Estados Unidos.

A resistência contra o conteúdo programático da extrema direita pode ser sentida em diversas nações, como o resultado das eleições da Bolívia e Argentina, a aprovação da nova constituição do Chile, os protestos incessantes na Colômbia e Equador, e agora a derrota eleitoral de Trump nos Estados Unidos. No Brasil, o efeito imediato tende a ser o revigoramento das forças de esquerda para estabelecer oposição mais contundente contra a necropolítica do Planalto. Esse panorama é reflexo de lutas empreendidas por partidos e movimentos sociais de todo o continente americano e o resultado eleitoral de Biden faz parte desse contexto, mas não encerra a necessidade de uma contínua luta contra as opressões.

É certo que as marcas da gestão Trump ainda serão sentidas por bastante tempo. Os sentimentos e preconceitos mais vis foram o meio de transporte eficaz para que o radicalismo da direita se instalasse em diversos países. A reconstrução de qualquer apelo por democracia ou poder popular perpassa, necessariamente, pela reorganização das esquerdas americanas e não existe outro caminho a não ser o contato direto com a população. Chega o momento em que o trabalho de base, a conexão com as camadas mais vulneráveis da sociedade precisa ser aprofundada. Isso não é apenas uma estratégia pragmática, mas um imperativo de nossos tempos.

Joe Biden não é um fim em si mesmo, mas pressiona o recrudescimento do maior perigo que se apresenta ao continente americano nesse momento, a aliança cíclica entre neoliberalismo e fascismo. Não podemos esquecer que a luta pela derrocada de Trump não cria um alinhamento automático com a agenda neoliberal de Biden. É a síntese da imortalidade da Hidra, corta-se uma cabeça e outra nasce em seu lugar, mas o curto lapso temporal entre a decapitação e a regeneração pode ser a janela de oportunidade para enfraquecer o monstro.

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