Giro Cine Ninja Europa: Festival de Cinema Brasileiro de Paris aposta na força da música, comédia e memória
Evento reúne grandes nomes do cinema nacional e aposta em narrativas populares e musicais
Por Fernanda Merizio
Após cartografar alguns dos principais espaços de circulação do cinema brasileiro na França e conversar com o crítico Victor Guimarães sobre os regimes de leitura que atravessam esses circuitos, o Giro Cine Ninja na Europa chega agora à 28ª edição do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, que acontece de 7 a 14 de abril, no Cinéma L’Arlequin.
Em um contexto em que a presença do cinema brasileiro na França se distribui por espaços bastante distintos, o festival ocupa um lugar singular: o de um espaço duradouro de encontro e de consagração do cinema nacional com a participação de um público amplo. Criado há quase três décadas, o festival nasceu do desejo de fazer circular imagens do Brasil para além de seus clichês mais recorrentes. Em entrevista ao Ciné Ninja, a diretora Kátia Adler, uma das criadoras do projeto, lembra que o impulso inicial veio justamente de um incômodo com a forma como o país aparecia no exterior:
“Eu estava cansada de ouvir quantas mortes tinham no carnaval e de como o Brasil era violento. […] O Brasil tem problemas muito graves, claro, mas também tem uma resistência cultural incrível. E o audiovisual tem uma força de vida muito importante. Então eu queria trazer os filmes para compartilhar outras visões do Brasil com o público francês.”
Chegar à 28ª edição não é apenas um feito de longevidade, mas também a continuidade de um trabalho cultural construído em meio a oscilações constantes de financiamento e apoio institucional. Como diz Kátia:
“Trabalhar com cultura é uma montanha-russa. […] Mesmo vinte e oito anos depois, a gente continua com problemas inquietantes de aporte financeiro. Os anos de governo Bolsonaro foram muito difíceis. E a continuidade do festival é fruto de muita vontade e parceria de todos os lados — seja dos diretores e produtores dos filmes, seja dos atores, seja da equipe do festival.”
Os homenageados desta edição são Taís Araújo e Lázaro Ramos. Em vez de tributar apenas uma figura isolada, o festival escolhe um casal cuja presença pública atravessa televisão, cinema e engajamento social. Como parte da homenagem, a programação recupera filmes como “Medida Provisória”, de Lázaro Ramos, “Filhas do Vento”, de Joel Zito Araújo, “Madame Satã”, de Karim Aïnouz, “Tudo que Aprendemos Juntos”, de Sérgio Machado, e “Pixinguinha, Um Homem Carinhoso”, de Denise Saraceni e Allan Fiterman. Segundo Kátia, a escolha passa justamente por esse lugar de referência simbólica e afetiva:
“A ideia não é um ou outro, mas o casal. No Brasil eles são exemplos em tudo, tanto na carreira profissional, no audiovisual, como também de engajamento político e social.”
A ideia de panorama continua presente, mas, nesta edição, ela ganha um desenho mais específico. Se os filmes de prestígio seguem ocupando um lugar importante na programação — como “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, e “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro —, a programação deste ano parece girar com especial força em torno de duas linhas: a música e a comédia.
No campo dos documentários, a competição documental se organiza em torno da memória musical e artística brasileira. A programação conta com “Da Lata 30 anos”, de Paulo Severo; “A Noite de Alaíde”, de Liliane Mutti; “Ritas”, de Oswaldo Santana e Karen Harley; “Milton Bituca Nascimento”, de Flávia Moraes; e “3 Obás de Xangô”, de Sérgio Machado. Há também títulos como “Oní Sáà Wúre Lavagem da Sapucaí”, de Saullo Farias Vasconcelos, e “O Retorno”, de César Meneghetti e Mario Gianni, que ampliam esse campo para temas ligados à ancestralidade, ao ritual e ao território.
A forte presença da música sugere também uma maneira particular de narrar o Brasil através de canções, de corpos e de trajetórias artísticas que marcaram a história cultural brasileira. Além de acompanhar figuras centrais da cultura brasileira, esses filmes reconstituem paisagens sonoras e repertórios que seguem vivos no imaginário do país.
A outra linha marcante desta edição é a comédia, assumida de forma bastante consciente pela curadoria. Kátia Adler comenta: “A presença de títulos como “Minha Mãe é Uma Peça 3” e “Minha Melhor Amiga”, de Susana Garcia; “Agentes Muito Especiais”, de Pedro Antonio; e “Velhos Bandidos”, de Cláudio Torres — além do tributo a Paulo Gustavo — reforça a importância da comédia na tradição audiovisual brasileira, tanto por sua força popular quanto por sua capacidade de mobilizar identificação, performance e memória coletiva”.
“Há, portanto, algo de bastante revelador nesta 28ª edição. O festival segue funcionando como uma importante vitrine do cinema brasileiro em Paris e, neste ano, parece insistir numa imagem de um Brasil que canta, ri, lembra e se reinventa também através de suas formas populares”, conclui.




