Por Kaio Phelipe

Natural de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, Fred Nicácio, médico, comunicador, apresentador e criador de conteúdo digital, conquistou ainda mais fama em território nacional ao participar do BBB 23, se tornando um dos participantes mais emblemáticos da edição. Preto, gay e frequentador do IFÁ, culto tradicional Iorubá, o doutor mostra nas redes sociais que é um corpo pautado na pluralidade de identidades e de afetos.

Com o objetivo de expandir sua audiência e ampliar sua voz tanto no digital, quanto no artístico, Fred aborda temas ligados à saúde e bem-estar, representatividade racial, religião, pautas do universo LGBTQIAP+, entre outros temas relevantes. Ele, que já atuou por mais de dez anos no SUS, busca estabelecer seu nome como autoridade no quesito bem-estar e saúde, ao mesmo tempo em que procura desafiar mudanças no imaginário coletivo sobre o que é ser médico no Brasil. Com sua autenticidade e conhecimento, o médico se destaca ao usar sua potente voz em prol de seus pares.

Confira abaixo a entrevista completa:

O que é o Fundo Positivo?

Eu sou embaixador do Fundo Positivo, que é um fundo internacional, mas com fundação nacional, que existe para arrecadar verba com empresas e investir em ONGs que trabalham com a diversidade ao redor do Brasil, com grande foco na vivência de pessoas vivendo com HIV.  Inicialmente, foi criado com o intuito de colaborar com ONGs que trabalham com HIV, mas depois o foco foi expandido.

Em 2023, fui convidado pelo presidente do Fundo Positivo a vir me tornar embaixador e, honrosamente, aceitei. Eu já acompanhava o trabalho que faziam e sempre achei muito incrível. Isso deixa a nossa relação ainda mais interessante. 

Quando surgiu seu interesse pelo ativismo?

Me considero um ativista de tudo o que me atravessa enquanto homem preto e gay. Não tenho como deixar de falar sobre isso estando em um lugar onde sei que as pessoas vão me ouvir. Preto não tem privilégio, preto tem conquista, né? Então, diante de tudo o que conquistei, para mim é impossível deixar de falar sobre os meus pares. 

Meu ativismo se iniciou logo quando comecei a ter consciência e isso aconteceu bem antes da fama. A magnitude das coisas vai tomando tamanho de acordo com a nossa visibilidade na mídia. Hoje, uma fala minha ecoa muito mais do que a mesma fala feita por mim há dez anos. O impacto mudou, mas a essência continua a mesma.

Faço movimentos e manifestações a partir das vivências que eu vivo ou vivi, e a partir da experiência do outro. Sou ativista por empatia. Por exemplo, não sou uma pessoa vivendo com HIV, mas sou embaixador de uma organização que trabalha diretamente com essa causa.

Foto: Divulgação

Como foi apresentar Queer Eye: Brasil?

Foi foda, foi muito foda. É um trabalho que tenho muito orgulho de ter feito. Foi o que me chancelou como apresentador. A Netflix é a maior rede de streaming do mundo. Temos mais de 190 países no mundo e eu pude trabalhar com a maior empresa de streaming. A Netflix me tirou do consultório.

Eu usava meu perfil no Instagram para mostrar o que me atravessava enquanto homem preto, médico e gay. E também mostrava a minha rotina, minha alimentação, meus treinos. Antes eu treinava bem mais, agora treino muito menos. O Instagram era mais divertido, né? Eu era uma figura conhecida por atendimentos no SUS e isso acabou se tornando a forma como as pessoas me conheciam. Fui no Encontro com Fátima Bernardes duas vezes para falar sobre isso. A Netflix transformou o doutor Fred do consultório no doutor Fred do audiovisual.

Apresentar Queer Eye foi o que marcou essa mudança e sempre vai ser especial para mim. Sempre entendi que eu queria muito trabalhar com audiovisual, mas como isso seria possível se eu estudei medicina? 

Além do mais, Queer Eye é um título muito forte, é uma franquia que o mundo inteiro conhece e assiste. São cinco pessoas LGBTQIAP+ falando sobre amor. E o programa aqui no Brasil foi lançado em uma época de ódio, na pandemia, com um governo de extrema direita. Então foi um desafio gravar, foi um desafio lançar e foi um desafio sobreviver a uma época contrária a tudo que a gente estava falando. No elenco brasileiro, houve algo muito inovador: não era somente homens gays, teve homem trans também e até então não havia nenhuma outra formação do programa com homens trans.

É muito louco você pensar que, em um país como o Brasil, a cada cinco apresentadores apenas um é preto. Esse fato também é para ser questionado. A minha presença no programa é celebrada pelos meus, mas ela tem que levantar esse questionamento. Se não for dessa forma, a gente acaba entrando em um lugar de acomodação. A presença de uma pessoa negra serve como totem, então não é para ter somente um.

Como foi receber o convite para participar do BBB?

Queer Eye tinha acabado de ser lançado com a Netflix, em agosto de 2022. Em outubro o nosso contrato se encerrou e fizemos uma reunião para ver se seria viável uma segunda temporada. Decidiram por não dar continuidade. Essa reunião aconteceu na parte da manhã. É até louco falar sobre isso, porque recebi o convite para o Big Brother no mesmo dia, na parte da noite. Lembro desse dia com muita nitidez.

O convite chegou através do agente com quem eu trabalhava e quando ele me perguntou se eu toparia entrar no reality, respondi que precisava conversar com o Fábio, meu esposo. Estamos há dez anos juntos. Na época, tínhamos sete anos de relacionamento. É um programa que mexe não só com o participante, mas também com a família de quem está lá dentro. 

Conversei com o Fábio e a gente entendeu que era uma puta oportunidade, um convite incrível e que muita gente gostaria de estar nesse lugar. Recebi o convite para entrar como Camarote. Muita gente gostaria de ter essa oportunidade e ela bateu na minha porta. 

Ao contrário do que as pessoas pensam, eu não assistia ao programa. O que as pessoas às vezes viam era eu comentando sobre episódios que aconteciam dentro da casa, recortes que envolviam questões ligadas à raça ou comunidade LGBTQIAP+. Por exemplo, eu comentava vários trechos da Thelminha, uma mulher preta e médica. Eu costumava pegar recortes do programa para produzir conteúdo pro Instagram na época da pandemia. Nessa época, eu estava atuando como médico nos hospitais de campanha. Então era muito legal ver uma médica na televisão. Em 2021, quando vi uma cena de racismo recreativo acontecendo com o participante João Luiz Pedrosa, foi um caso que também comentei. Dessa forma, dava a entender que eu acompanhava o programa.

Foto: Divulgação

Nunca planejei entrar no BBB, nunca fui atrás disso. Mas quando a oportunidade bateu na minha porta, meu esposo e eu entendemos que seria uma grande oportunidade de expansão de carreira, já que eu tinha gravado com a Netflix, estava no meio do audiovisual e me sentindo muito bem comigo mesmo.

O audiovisual é um lugar que pode ser ocupado por um médico. Parece estranho, mas a gente vê o doutor Drauzio Varella fazendo isso há décadas e ninguém questiona. Eu também quero mudar a configuração do que as pessoas no Brasil pensam sobre um médico. Por que essa imagem precisa remeter a um homem branco e hetero? Por que não pode ser um homem negro, gay e de dread? Reconfigurar o imaginário coletivo também estava dentro do meu objetivo quando aceitei o convite. A expansão da carreira faz parte do efeito BBB, que é um programa de alcance imensurável, uma coisa de louco.

Entrei e saí do reality três vezes. Entrei com todo mundo e saí em um paredão falso. Depois, voltei pra casa e saí em um paredão real. Duas pessoas foram expulsas da edição por importunação sexual a uma mulher estrangeira. Então a produção do programa foi obrigada a fazer repescagem e aí fui escolhido pelo público e entrei na casa mais uma vez.

Lembro de uma cena de um senhor de 60 e poucos anos, branco, com cabelo calvo e bigode, correndo atrás de mim para pedir uma foto. Ele me contou que a família tinha aprendido coisas que ninguém nunca tinha parado pra explicar. Ele e a família me viam falando sobre racialidade, racismo religioso, amor, relacionamento aberto. Fui vendo impactos como esse que só poderiam acontecer através do BBB. Então foi uma grande oportunidade estar lá.

A representatividade é um incômodo?

Não. Na verdade, é uma grande honra. Me sinto honrado quando uma pessoa me diz que eu a represento, quando uma pessoa preta ou indígena fala que eu a represento, quando uma mãe me diz que deseja que o seu filho pareça comigo. É uma honra ser uma referência. Quando alguém me fala algo sobre isso, me arrepio inteiro e me faz ter certeza que estou seguindo pelo caminho certo. Me faz ter um norte e estar em contato com tantas histórias.

Me lembrei de uma história agora: uma senhora estava com câncer terminal e ela e a irmã adoravam me ver na televisão. Essa mulher adoentada faleceu durante o BBB e dizia que gostava muito, muito, muito de mim. Antes de falecer, a irmã dela me mandou áudio pelo Instagram e eu ouvi, pedindo para mandar um beijo para a irmã, que a alegria delas era me ver na TV e me mandou algumas fotos. Gravei o áudio, agradeci e ela me falou que a sua grande parceira de vida havia morrido. Depois tive a oportunidade de assistir a uma peça teatral produzida pela sobrinha dessa senhora. 

São histórias como essa que me fazem pensar nos lugares aonde minha voz chega. É espantoso, mas também é maravilhoso. O que pesa não é a representatividade, mas sim a perversidade de algumas pessoas em cima disso. A capacidade que algumas pessoas possuem para desvalorizar esse lugar tão importante e monetizar esse trabalho de uma maneira errada. O que é triste não é a representatividade, mas como algumas pessoas usam isso como moeda de troca.

Como você lida com o hate e com o meme?

Eu acho os memes super engraçados. Meme é muito legal. Quando saí do BBB, naquele primeiro bate-papo que a gente faz, na minha época era com a Vivian Amorim e com a Patrícia Ramos, eu tive uma surpresa com os memes e dei muita risada. Achei graça de tudo e eram coisas legais e interessantes.

O hate é inerente à pessoa pública. Não vai ter como ninguém fugir disso e eu acho que alguns veículos o disseminam. Por exemplo, a gente está falando sobre coisas super legais e profundas, mas sempre existe a possibilidade do que eu falo ser tirado de contexto. Já aconteceu inúmeras vezes comigo. Aconteceu recentemente, inclusive. Eu estava falando de coisas legais e colocaram uma chamada sensacionalista, uma coisa vazia, que não combina comigo. Essa parte é muito chata e desanimadora. E acaba provocando o hate. Quem consome esse tipo de material geralmente não vê o vídeo ou não lê a entrevista completa. É uma pessoa que, na maioria das vezes, não tem maturidade intelectual ou emocional para entender o que estou falando. Então ela joga hate, um hate que é induzido.

Existe o hate vindo de pessoas que realmente descordam de mim e está tudo bem. Mas a maioria vem de pessoas que estão com a cabeça adoecida. Eu, como médico, falo isso sem nenhum tabu. São pessoas doentes, viciadas na dopamina que é gerada ao escrever uma ofensa. Isso é reflexo da própria frustração.

Foto: Divulgação

O que significa o Carnaval para você?

No último Carnaval, desfilei em três escolas de samba. No sábado, desfilei em SP com a Mocidade Alegre. No domingo, fui para o RJ e desfilei em duas escolas no mesmo dia. Desfilei na Unidos de Padre Miguel, que abriu os desfiles do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí, e depois desfilei na Mangueira, no mesmo dia. Toda essa correria foi documentada e fiz uma websérie que está no meu perfil do Instagram e se chama Carnaval do Fredão. Fui documentando cada passo desde os ensaios técnicos, as fantasias, a preparação, o desfile e registrei imagens exclusivas. Foi um desafio, mas foi muito emocionante.

Sempre fui ligado ao Carnaval. Meu pai é músico de samba, então é uma cultura muito presente na minha família. Quando tinha reunião na casa de algum parente, tinha sempre alguém cantando ou tocando algum instrumento. O samba e o samba-enredo sempre foram muito presentes. 

Eu curtia mais o Carnaval de rua, ainda não conhecia tanto o Carnaval da Sapucaí. No RJ tem dois carnavais. O de rua, com os bloquinhos, as bandinhas, os trios, as praias. E o da Sapucaí, que é outro tipo de festa, um espetáculo maravilhoso.

Carnaval é a maior festa preta do mundo, a maior festa popular do mundo. E quem diz isso não sou eu, todo mundo sabe. A maior festa popular do mundo é o Carnaval e é uma festa preta. Embora pessoas pretas como eu morram a cada 23 minutos, embora todo o genocídio contra nós, continuamos entregando a maior festa do mundo. Uma festa ativa, colorida, musicalizada, ritmada, com sorriso, brilho e beleza. A gente entrega tudo, embora nos aniquilem. Os meus ancestrais sambavam para celebrar, isso que é o Carnaval.

A autoestima de um homem negro incomoda?

É um incômodo enorme, gigante. Parece que você tem o dobro do tamanho e eu já não sou pequeno. Quando percebo que estou incomodando, aí que eu incomodo mais. E não é de propósito, mas é que eu continuo existido. É só isso.

Pensa nessa cena: um homem preto de dread entrando em um hospital onde todos os outros médicos são brancos. Eu entro em silêncio, com a minha pastinha, de jaleco e o dread batendo. Não preciso falar nada, mas estou incomodando muita gente ali. A minha presença é incômoda em diversos espaços. 

Quando começo a falar é ainda pior. As pessoas brancas estão acostumadas a verem pessoas pretas em lugares de subserviência. Isso não é novidade para ninguém, já está muito batido. Mesmo quando pessoas pretas estão em lugares de poder, as pessoas brancas esperam que elas sejam gratas por aquele lugar. Eu não sou grato a ninguém, só a mim mesmo. Quem conquistou esse lugar fui eu. Ninguém me deu. Ao contrário, tentaram fazer com que eu não chegasse. 

Quando eu era moleque, ouvia do meu pai que, para eu ser considerado, seria preciso ser três vezes melhor. Então, quando estou em alguns espaços, preciso entender que o meu currículo é três vezes melhor que o da maioria. Isso incomoda os outros porque não é um segredo para ninguém. E eu faço questão de falar sobre.

Tem um monte de pessoas brancas que só fazem sucesso porque é branco. São pessoas ruins no que fazem e encontram várias portas abertas. Tem pessoas brancas que são ruins de fato e ganham matéria no Fantástico. A pessoa pratica uma violência, dá um chilique, toma um remédio e depois vai falar no Fantástico. Enquanto pessoas pretas passam por situações de racismo religioso dentro do maior reality do mundo e ninguém faz nenhuma notinha sobre isso. Os privilégios são nítidos.

A minha presença no Big Brother também se deu para escancarar esse tipo de violência. A autoestima de um homem preto passa por esse lugar de opressão. Em um programa de extrema pressão como é o BBB, a tendência é que as pessoas pretas se sintam acuadas, exatamente como aconteceu em todas as edições anteriores à minha. Daí chega um homem preto que rompe com o silêncio e gera muito incômodo. Não é sobre aparência física, é sobre o tamanho do lugar que ocupo para além do meu corpo. 

Qual medida é fundamental para que a gente avance contra o racismo religioso?

Mais juízes pretos. Enquanto houver juiz branco julgando casos de racismo religioso, a solução que vão encontrar será apenas distribuir cesta básica. Pessoas pretas julgando isso como crime racial, com detenção de 6 meses a 2 anos de cadeia, é o que mudaria esse cenário. Quando um juiz branco pega um caso de racismo basta que o réu consiga um atestado, com um médico também branco, dizendo que o criminoso só cometeu a violência porque toma remédio. Essa é uma estratégia antiga da branquitude nos Estados Unidos, eles chamam de Karen, um código entre pessoas pretas para indicar uma mulher branca que culpabiliza homens pretos sem eles terem feito nada. E esses homens são espancados e enforcados porque é uma diversão incriminá-los.

Como foi cursar a faculdade de medicina?

Não era um sonho nem um objetivo. Então era para acontecer. Nasci em 1987 e sempre estudei em colégio público. Quando nasci, não tinha nem a constituição do SUS, que foi em 1988. A educação pública na minha época era muito precária. Nós éramos avaliados por bimestre e tinha bimestre que eu não tinha aula de química, por exemplo.

Quando eu tinha 17 anos e estava na época de prestar vestibular, eu tinha um déficit absurdo. Quando fiz pré-vestibular, ainda não sabia o que queria fazer. Daí cismei que cursaria publicidade para trabalhar com televisão. Achava que através da publicidade conseguiria chegar na TV. Mas eu era de Campos dos Goytacazes, interior do RJ, e meu pai não me deixava sair de lá. Pensei em cursar odontologia, psicologia, direito… Eu tinha um colega que estudava fisioterapia e ele falou para eu cursar também, já que falava sobre o corpo humano e eu sempre fui muito ligado a essa parte.

Lá fui eu prestar vestibular e, baseado unicamente nessa informação do meu amigo, fui tentar fisioterapia. Passei e me apaixonei pela profissão, fui trabalhar na área hospitalar, com UTI. Comecei a entender o que é uma equipe multidisciplinar. Como fisioterapeuta, trabalhava com enfermeira, médico, nutricionista, fonoaudiólogo. Interagia com várias profissões e achava o máximo.

Ao contrário do que as pessoas pensam, não estudei medicina por status. Estudei porque admirava a profissão. Houve uma situação, inclusive muito discutida e polemizada durante a minha participação no BBB, em relação a uma enfermeira.

A situação foi a seguinte: eu estava em um cenário de intubação. O médico fica em cima, o fisioterapeuta fica do lado esquerdo e a enfermeira do lado direito. Em uma das intubações, vi um médico muito gentil. Ele falou para a paciente que ela dormiria um pouquinho e que não lembraria de muita coisa quando acordasse, explicou o procedimento e disse que ficaria tudo bem. O semblante daquele médico acalmou a paciente, que era uma senhora. Achei aquilo tão digno, tão maravilhoso, achei o médico tão legal. Quando saí da intubação, fui para o meu caderno evoluir o paciente, descrever o que aconteceu. Cada profissional tem um caderno desse: o médico, a enfermeira, o fisioterapeuta. Eu estava escrevendo com a enfermeira e comentei que o médico parecia muito empolgado com o procedimento e falei que um dia também gostaria de intubar alguém. A enfermeira, que era uma mulher branca, olhou para mim me medindo e disse que eu estava doido, que intubação é coisa de médico.

Como tive o privilégio de nascer em um lar racializado e tive letramento desde cedo – depois de muito tempo que fui saber que isso é um privilégio e que é uma coisa rara no Brasil –, identifiquei na hora que aquele comentário era racismo. Ela disse aquilo porque eu sou preto. Se eu fosse branco, ela não teria falado. Guardei esse fato para mim e fui tocando a vida.

Comecei a fazer pré-vestibular outra vez. Trabalhava como fisioterapeuta durante o dia e fazia o pré-vestibular na parte da noite e, quando eu estava de plantão a noite, fazia o pré-vestibular durante o dia. Um ano e meio depois, passei no vestibular, em 2013. Há 12 anos, olha que loucura! Aí corta pra 2019, fui dar plantão nesse mesmo hospital, agora como médico, e encontrei a mesma enfermeira lá. Não precisei falar nada. Toda vez que conto essa história lembro da loucura que foi isso.

Quais serão seus próximos passos?

Pretendo trabalhar como apresentador. Continuo galgando esse lugar e estou a todo vapor. Não é porque me tornei uma pessoa pública e que agora vivo disso que está sendo uma coisa fácil. Continuo sendo uma pessoa preta nesses lugares de poder. Continuo sendo tratado como uma pessoa preta e continuo sendo pago como uma pessoa preta. Continuo construindo e movimentando esse lugar.