Filipe Matzembacher e Marcio Reolon discutem desejo e poder em Ato noturno
Ato noturno, novo longa de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, inscreve-se no território do
thriller erótico para narrar uma história atravessada por desejo e ambição.
Reconhecidos por construir filmes que exploram a intimidade como espaço de conflito, Filipe e Marcio voltam seu olhar para personagens que vivem na fronteira entre o que podem mostrar e o que precisam ocultar. O filme propõe uma experiência sensorial marcada pela tensão, pela noite e por corpos em estado de alerta.
A narrativa acompanha Matias, jovem ator em início de carreira que vê, na entrada para uma companhia teatral e na possibilidade de uma série de televisão, a chance de transformação profissional. Dividindo apartamento com Fábio, também ator, ele se move em um ambiente onde convivem expectativa, competição e frustração. É nesse cenário que Matias conhece Rafael, um político em ascensão que construiu sua imagem pública sobre a necessidade de invisibilidade de sua vida sexual e afetiva.
O encontro entre os dois inaugura uma relação movida por atração e risco, que se intensifica à medida que passam a compartilhar encontros marcados pelo segredo e pela exposição. A intimidade deixa de ser apenas refúgio e se transforma em território instável, onde prazer e perigo caminham juntos. Segundo os diretores, o projeto nasce justamente da fricção entre essas forças.
“Esse projeto surgiu muito dessa concepção do conflito entre desejo e ambição. Quando a gente começou a compreender que o filme ia surgir através desses dois universos se chocando, tudo começou a apontar para essa ideia de suspense erótico, de que essas duas pulsões iam entrar em conflito e esses personagens teriam que lidar com isso”, comenta Marcio Reolon.
Para os diretores, colocar o desejo no centro da narrativa é também um gesto político.

“A gente tem vivido em uma onda conservadora, uma onda que rechaça o desejo, rechaça o erótico. Achamos muito importante, e entendemos como um ato político, colocar o desejo no centro da discussão e pensar sobre isso através do cinema. Temos observado que até mesmo dentro de algumas esferas políticas as pessoas ficam receosas de lidar com o desejo”, diz Filipe Matzembacher.
Ainda que o filme dialogue com o universo da política institucional, os diretores observam que a oposição principal não se dá exatamente entre política e desejo, mas entre desejo e uma lógica de sucesso excludente.
“Talvez o que esteja em lados opostos seja o desejo e o sucesso neoliberal, seja no campo político ou no campo da atuação. Esses personagens acham que, se abdicarem de quem eles são e do desejo deles, vão poder pertencer a esses núcleos de poder.”

Ambientado em Porto Alegre, Ato noturno faz da cidade um espaço pulsante, composto por ruas, palcos, quartos e corredores que funcionam como extensões do estado interior dos protagonistas. Para a dupla, há uma relação afetiva direta com esse território.
“Porto Alegre é a cidade onde a gente nasceu e cresceu. Em Ato noturno, a gente entende Porto Alegre como uma extensão desse palco onde os personagens habitam o tempo todo. Pensando nessa ideia do cinema noir, ela é quase uma femme fatale para esses personagens. Ela seduz e traz perigo para eles.”
Após circular por festivais internacionais, como o Festival de Berlim, e estrear no Brasil no Festival do Rio — onde recebeu os prêmios de melhor ator, roteiro, fotografia e o Prêmio Félix de melhor filme queer —, o longa agora pode ser visto no circuito comercial. A expectativa de Marcio e Filipe é de encontro com o público brasileiro.
“O nosso filme é um filme brasileiro, pensado no Brasil e para o público brasileiro. Poder estar nas salas, democratizando ainda mais o acesso ao nosso filme, é muito impactante. A gente quer muito que as pessoas vão ao cinema, assistam, falem sobre o filme, comentem o que acharam. O cinema também se faz muito através do debate.”



