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Fé, poder e política: A tríade do ‘Conclave’
“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, sendo essa é a tríade da Igreja, Berger escolheu uma abordagem distinta.
Por Sheila Sousa
Lançado em um período de transformações políticas no mundo e da possibilidade de a Igreja ter um novo representante, o diretor Edward Berger mostra como o poder pode corromper, mesmo dentro da instituição, em um filme que fala mais sobre a natureza humana do que sobre religião.
Acompanhamos o cardeal Thomas Lawrence, interpretado por Ralph Fiennes, assumir a responsabilidade de organizar o novo conclave após a morte de seu amigo, o Papa, Sumo Pontífice da Igreja Católica. Mesmo cansado de suas responsabilidades, mas fiel às suas obrigações como decano, Lawrence inicia o complexo trabalho de reunir mais de cem cardeais de diferentes partes do mundo para uma longa cerimônia que elegerá o novo líder da Igreja e definirá os rumos da instituição. A tarefa, que poderia parecer simples — bastando a maioria dos votos para um dos membros e a tradicional fumaça branca saindo da chaminé —, se complica diante de homens dominados por ambições e desejos, principalmente o de poder.
Somos então apresentados aos favoritos: o progressista cardeal Bellini, interpretado por Stanley Tucci; o ultraconservador cardeal Tedesco, vivido por Sergio Castellitto; o até então ponderado cardeal Tremblay, interpretado por John Lithgow; o também conservador e homofóbico cardeal Adeyemi, papel de Lucian Msamati; e, em alguns momentos, o reservado e gentil cardeal Benítez, vivido por Carlos Diehz, cuja presença só foi autorizada porque o antigo Papa o nomeou cardeal em uma carta. Até então, ele era completamente desconhecido por todos os outros, incluindo Lawrence.
Além dos concorrentes, temos as representações femininas, que se tornam peças-chave no jogo de poder, como a irmã Agnes, interpretada por Isabella Rossellini, responsável pelas freiras do Vaticano, e uma misteriosa religiosa que surge apenas para desestabilizar o cardeal Adeyemi e intensificar ainda mais os conflitos por controle, respeito e influência.
Durante o processo de seleção, os cardeais precisam ficar isolados do mundo, sem nenhum contato externo, evitando assim uma “contaminação” de informações sobre os concorrentes. No entanto, essa estratégia se mostra pouco eficaz, pois eles carregam consigo segredos que pretendem revelar sobre seus oponentes, tornando a disputa pelo cargo de Papa ainda mais imprevisível.
Quando Lawrence se vê envolto em uma série de reviravoltas e descobre — quase em uma investigação ao estilo Sherlock Holmes — as verdadeiras intenções de seus companheiros, ele começa a questionar sua própria fé e a postura da Igreja ao tentar encobrir quem realmente são seus representantes. É nesse ponto que nos deparamos com os sentimentos mais humanos: o medo e a incerteza.“Conclave” é, de longe, um dos filmes de maior repercussão no Oscar 2025, muito por tocar em questões já amplamente debatidas pela mídia, como escândalos envolvendo membros da Igreja, a ascensão de diretrizes conservadoras e a possibilidade de um novo conclave ainda este ano, já que o Papa Francisco enfrenta graves problemas de saúde. Além disso, o filme consegue conectar a humanidade e os dilemas do cardeal Lawrence ao colocá-lo diante de uma reviravolta que supera expectativas.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.