Por Lilianna Bernartt

A franquia de “Extermínio” (28 Days Later) nunca foi apenas sobre infectados ou zumbis, mas sobre o colapso dos pactos civilizatórios.

Dentro dessa proposta, cada capítulo direciona o foco: o primeiro filma o choque; o segundo, o fracasso institucional. A franquia é retomada com o terceiro filme, que propõe uma fábula melancólica sobre herança, infância e memória.

Dentro desse quadro, “Extermínio: O Templo dos Ossos” ocupa um lugar peculiar a partir do momento em que, ao mesmo tempo em que chega como um capítulo transitório, ele toma o tempo para si. O filme analisa o que resta de humanidade pós-colapso e qual sua efetiva necessidade em continuar a existir, deslocando o terror dos infectados para comunidades humanas organizadas pela violência, pelo culto e por uma fé distorcida, traçando um paralelo inevitável com a atualidade.

O apocalipse aqui não é o vírus, é a necessidade humana de criar sistemas de crença para justificar o poder, mesmo quando toda transcendência já se esvaziou.

Spike é o personagem que concentra essa proposta. O menino retorna, agora como um dos dedos da gangue de Sir Jimmy Crystal (Jack O’Connell), e tenta sair de um sistema de repetição, de ritual, de violência codificada.

Seus traumas não se resolvem, simplesmente porque não existe progressão através da repetição.

Nesse sentido, a figura de Sir Jimmy encarna esse outro polo: a necessidade humana de reorganizar o caos por meio do espetáculo, da performance e da violência ritualizada. O filme sugere que o fanatismo não desaparece após o fim do mundo, apenas muda de figurino.

Mas nem tudo está perdido, quem sabe. Esse é o tipo de frase que Dr. Kelson (Ralph Fiennes) diria. O personagem surge como o eixo ético mais complexo do filme: ele não é herói, líder ou salvador. É algo mais incômodo, alguém que se recusa a abandonar princípios mesmo quando parecem obsoletos.

Enquanto o mundo se reorganiza por meio da violência, de hierarquias, cultos e mitologias, o médico vivido por Ralph Fiennes se ancora em uma tríade ética: observar, cuidar, coexistir. O infectado deixa de ser apenas ameaça ou obstáculo narrativo e passa a ocupar um espaço ambíguo, quase relacional. O médico não tenta “curar” o infectado no sentido clássico, nem exterminá-lo para restaurar uma ordem impossível. Ele escuta, observa, estabelece troca. O que está em jogo não é somente a óbvia possibilidade de reversão da infecção, mas a preservação de um gesto humano elementar: a empatia e o reconhecimento do outro como par.

Assim, o filme sugere que, após décadas de colapso, o humano não se define mais por projetos coletivos ou crenças transcendentes, mas sim por pequenas decisões éticas tomadas no isolamento.

Cinematograficamente, essa ideia se reflete na própria estrutura do filme. A narrativa é rarefeita, fragmentada, avessa a arcos clássicos; não há progressão dramática, e o clímax emocional é a exceção.

Nia DaCosta entende esse contraste e o potencializa ao encenar o vazio, o excesso e a brutalidade como espetáculo consciente, apenas para esvaziar tudo de sentido logo em seguida.

Visualmente, a mise-en-scène reforça essa ideia de esgotamento. A cineasta filma o vazio como método: planos longos, movimentos erráticos e cortes abruptos que impedem qualquer sensação de estabilidade emocional.

O filme alterna blocos de intensidade, cenas de violência, ritual ou delírio, com momentos de deriva quase contemplativa, criando um ritmo irregular que impede o espectador de se acomodar.

A fotografia chega com um olhar menos experimental e mais cinematográfico, no sentido clássico de amplitude e composição, paisagens, horizontes, deslocamentos em exterior, mas quebra essa aparente normatividade com escolhas de movimento que reintroduzem instabilidade e ameaça.

Outro ponto fundamental da trama é a trilha sonora, utilizada como veículo de catarse, de transformação da violência e do caos em espetáculo. Aplausos para a cena icônica de Fiennes ao som de Iron Maiden (“The Number of the Beast”), que surge como um pacote palpável e de fácil identificação.

Duran Duran e Radiohead também aparecem nesse âmbito de performatividade.

Engraçado como, apesar de o filme não oferecer respostas nem conforto, ainda assim termina tensionando com força a própria ideia de continuidade, como se a esperança ainda residisse no futuro, no que está por vir.

Nesse sentido, ainda que o filme recuse sua função intermediária, ele a cumpre com êxito, deixando no espectador a sensação de que a esperança está no que ainda virá. E, quanto a isso, sem qualquer spoiler, o que está por vir promete entregar tudo e mais um pouco. Resta agora a resiliência da espera e a fé no futuro. Sacaram?