Por Artur Nicoceli | Estudante NINJA

Julho é um mês de festividades e comemorações. Écelebrada a revolução constitucionalista de 1932 no dia 09, à liberdade de pensamento no dia 14, e o dia internacional da mulher negra latina americana e caribenha. A marca internacional foi definida em 1992 no primeiro encontro de mulheres afro-latino-americanas e afro-caribenhas. No Brasil, essa data também é o dia nacional de Tereza de Benguela (25 de julho). Ela é um símbolo de luta negra, pois se tornou líder do Quilombo do Piolho após a morte de seu marido, a mesma resistiu à escravidão por 20 anos, quando em 1770 o lugar que liderava foi destruído, logo em seguida Tereza foi aprisionada e morta.

O Brasil matou 23 mil jovens negros por ano segundo o Mapa de violência e são registrados em média uma taxa de homicídios de 40,2 mortes para 100 mil habitantes negros. 71,5% das pessoas que foram assassinadas nos últimos anos eram pretas ou pardas. Existe um crime cometido anualmente pelo governo que é não tentar solucionar os motivos para o genocídioconstante da população negra.

Todavia, as políticas públicas estão sendo implantadas para que o índice de vulnerabilidade, criminalização e violência seja diminuído exponencialmente, em 2012 à política de lei de cotas passou a ser articulado dentro das universidades públicas, entre 2014 e 2016 o Comitê da América Latina e do Caribe (CLADEM), a Comunicação em Sexualidade ECOS e o Instituto da Mulher Negra trouxeram para debate as políticas educacionais no Brasil para a questão de gênero e raça dentro dos espaços educacionais, mesmo assim alguns setores conservadores resistem à implantação e qualquer política inclusiva.

A pesquisadora em direitos humanos e formada em políticas públicas, Jéssica Tavares Cerqueira, afirma que a dificuldade de pessoas negras acessarem o sistema de educação precede a precariedade da vida das pessoas negras e do ensino público que, normalmente eles acessam. “Isso se deve ao fato de que, historicamente esse direito de conseguir diploma no ensino superior nos foi negado, então nós temos apenas quatro gerações em nossas famílias que viveram em liberdade, e que mesmo não escravizados, não tinham o direito à educação garantida, porque suas vidas eram voltadas para a sobrevivência, como conseguir moradia e emprego. E infelizmente, ainda hoje nós não superamos essa realidade totalmente”.

Ela afirma que existe uma necessidade de reparação histórica de acesso à educação que as cotas se propõem a ser, mas não cumprem totalmente a obrigatoriedade, todavia ela reserva um mínimo espaço à intelectualidade para o povo negro. “Existe a construção racista brasileira, de que a educação do negro é voltada para escolarização profissionalizante, fabril, isso para os homens negros, que foram estereotipados como fortes, incansáveis, bons de serviços físicos, por que para as mulheres negras resta o (combo) do racismo e do machismo”.

Estudante Leticia Lua | Foto: Victoria Alves

A estudante Letícia Lua (18), está no segundo ano da escola Antonio Manuel Alves de Lima e afirma que as políticas educacionais fizeram-na desistir, muitas vezes de estudar, principalmente pelas instituições que ela passou. Ela afirma que os salários baixíssimos dos funcionários públicos e os professores desgastados são elementos que afetam diretamente a qualidade da educação. “Não temos estrutura na educação brasileira”. Lua também afirma que o avanço da proposta do “escola sem partido” divulgado em 2004 pelo advogado Miguel Nagib que têm a perspectiva de romper o que os movimentos conservadores definem como: doutrinação ideológica, afeta diretamente o seu ensino. “Essa situação só vai piorar para muitas mulheres negras, o “escola sem partido” exclui o debate de gênero, e de raça. As pessoas não terão conhecimento sobre sua identidade e os ignorantes vão usá-lo para afetar essas pessoas, pela falta de conhecimento”.

Mesmo com toda truculência institucional, ela se imagina estudando em alguma Universidade Federal fazendo economia e lutando pelo direito de outras pessoas entrarem na universidade. “Espero o dia, em que os professores, estudantes e a sociedade, juntem-se, e vão à luta, pelo direito a educação pública e de qualidade, direito a amar, direito a viver. E espero que consigam”.

Já a estudante de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo, Bruna Aniez (20), relata que o Brasil está evoluindo a passos lentos, mas está se desenvolvendo. No entanto, ela enfatiza que para uma mudança necessária não se sabe quanto tempo irá demorar. “Me sentia um peixe fora d’água. Ser a única negra em uma escola de gente rica era estranho, parecia que eu estava no lugar errado ou fazendo algo de errado (quando na verdade não). A realidade só bateu na minha porta quando eu me formei e isso foi o mais absurdo. Eu me culpava por estar em um lugar de brancos, quando, na verdade, não deveria existir lugar de branco (ou de negro)”.

Ela também espera que a população negra, principalmente as mulheres tenham mais oportunidades, colocando-as em escolas de alto padrão, e assim aumentando o índice de pretas e pardas nas instituições de ensino. “Quero ver minha filha estudando com pessoas negras. Quero ter uma chefe negra. Quero ser uma chefe. Espero que o futuro seja melhor pra nos, mulheres, negras e negros, e que os anos de sofrimento se reduzam a história e não a realidade”.

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