Pelo Estudante NINJA, Artur Nicoceli 

O Brasil é o país que mais mata pessoas transexuais, segundo dados da ONG Transgender Europe (TGEU). Mesmo assim existem jovens como, A. Saboya, que tem a perspectiva de romper as barreiras de uma sociedade cisgênero e ocupar lugares ainda não alcançados por pessoas trans. Aos 26 anos, ela é a única mulher trans estudante da Universidade de São Paulo (USP), do curso de Formação de Atores (Técnico em Teatro – Eixo Tecnológico: Produção Artística e Cultural e Design) da EAD/ECA/USP. “Na minha turma tinha Manfrin que é não-binarie também e eu. Manfrin trancou o curso esse semestre e provavelmente voltará no ano que vem. Fora a gente, eu só ouvi falar da Marina”.

Marina Matheus é a primeira atriz trans da Netflix Brasil. Ela faz a personagem, Ariel, na série 3%, aparecendo na segunda temporada como uma das principais ativistas responsáveis pela manifestação da sociedade mais pobre da série contra a alta classe – Maralto.

Saboya é estudante do terceiro termo do curso, ela acredita que arte vem se desconstruindo, mas ao mesmo tempo, ainda continua reforçando estereótipos e deixando as pessoas trans de fora de espaços culturais, desde a produção artística até os meios da interpretação. “Nesses últimos anos sinto que isso vem sido questionado fortemente por umas manas incríveis, o que vem abrindo uma brecha – ainda muito pequena, quase uma esmola – para que essas pessoas trans se apropriem da arte também”.

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Ao mesmo tempo que a artista compreende que existam controvérsias entre o movimento feminista radical e o movimento trans, no seu curso, ela encontra uma ligação interseccional das pessoas trans com o pensamento do feminismo negro. Ainda assim, dentro da USP algumas pessoas ainda não compreenderam o processo de transição de Saboya e continuam chamando no masculino, e já ouviu pessoas trans serem taxadas como “aquela da fala violenta” e “brigona”. Ainda assim, ela fala naturalmente sobre a represália dos estudantes “Como tudo ainda é muito recente, vou aos poucos tentando lidar com isso da maneira mais saudável possível”.

Ela ainda ressalta que existe dentro das universidades uma exotificação das pessoas trans. Esse processo consiste quando os estudantes tratam uma travesti, por exemplo, como um animal de zoológico, de acordo com Saboya, ou seja, como se a presença de aluem não fosse, de qualquer forma, comum. Na conversa com o Mídia Ninja, ela ainda cita a Renata Carvalho, como uma fonte de informação sobre a presença dessas pessoas tem que ser naturalizada na sociedade.

A jovem nos conta um pouco sobre seu processo de transição. Ela sempre teve uma identificação mais próxima com figuras femininas ao seu redor, desde a infância, fosse assistindo televisão ou olhando familiares e colegas. Quando ela se tornou mais velha, por meio do seu trabalho artístico, foi perdendo o sentido ocupar o lugar de “homem” ou do masculino, que até então ela estava. “Enfim, acontece que o teatro foi também me ajudando a entender e a me questionar o que eu era, e o que me segurava neste ser “masculino” que era identificade, uma vez que eu me imaginava e intuía muito mais prazer e alegria de vida assumindo uma não-binariedade ou uma desconstrução desse meu gênero que me foi dado quando nasci”, diz.

“Então olhando as manas ao meu redo e acompanhando o processo de minha amiga, dramaturga, Ave Terrena, fui percebendo que este meu lado “feminino” que eu sempre tendia a esconder dentro de mim, era parte da minha essência, e que eu queria agora deixar isso ser visível para todos e todas”, finaliza. Mesmo o processo de transição de Saboya sendo recente, ela reafirma muitas vezes durante a conversa que existe um problema de preconceito ocasionado pela indústria da beleza. “Nós não fomos educadas para acharmos pessoas trans bonitas. E isso precisa mudar urgente”. Esse processo faz com que muitos e muitas jovens trans façam procedimentos cirúrgicos para se parecerem como o padrão aceito pela sociedade. Saboya comenta que mesmo as pessoas fazendo processos cirúrgicos, uma pessoa trans nunca será a Anitta.

A jovem idealiza um governo que atue na inclusão de pessoas trans na sociedade, criando medidas que reparem socialmente as violências que elas vêm sofrendo. “Um governo que pense para além da transfobia, pense também no machismo e na misoginia, precisamos de um governo que encare as dívidas históricas que temos”. Mesmo com a violência social que as pessoas trans sofrem diariamente, ela se imagina como a Marina, conseguindo encontrar possibilidades de trabalho, ocupando os espaços que não pertencem somente a pessoas cisgênero. Ela comenta sobre ser frustrante assistir alguma peça e perceber que todos os atores são brancos, magros e cisgêneros. “Isso precisa mudar, chega de trabalhar na sombra e na margem da sociedade”, ela ressalta.

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Saboya estará em cartaz com a peça “Matéria e poesia”, dirigido por Isabel Setti, em que é abordada a obra de Manoel de Barros. Nela trabalha a figura da Antoninha-me-leva é uma prostituta de Corumbá que pra não morrer de fome recebia 3 ou 4 comitivas de homens por dia em sua casa. A peça estréia em julho, do dia 2 ao dia 7 (ter a domingo) na sala 25 da EAD/CAC, sempre às 21h. Na sexta e no sábado haverá também uma sessão extra às 19h. Ingressos gratuitos com retirada 1hr na bilheteria da EAD.

O outro trabalho que está participando é o “Frutas&TRANS-gressão – Histórias para Tangerinas e cavalas-marinhos”, junto com a colega Manfrin. A peça consiste em uma performance sobre uma figura que não é homem, nem mulher e que debate a realidade de um corpo transitório, assim como as questões de identidade de gênero. A peça entrará em cartaz no Teatro de Container no 27 de agosto e 3 de setembro, e também na EAD/USP dias 14, 15, 21 e 22 de setembro.