Se você não faz parte da pequena parcela privilegiada da comunidade LGBT provavelmente esses dias têm sido ainda mais duros. É sabido por todes que a comunidade LGBT – principalmente as pessoas transvestigênereS (transexuais, travestis, não bináries) – vivem desde sempre um processo de marginalização e apartheid social por conta dos estigmas e preconceitos que a sociedade criou sobre nós. Sempre nos negaram proteção, afeto, cuidados básicos, direitos…. A trajetória do nosso movimento é marcada por lutas inacabáveis e pela necessidade de resiliência para não sucumbirmos ao ódio. Fome, falta de moradia e violência doméstica são realidades que sempre existiram na vida de quase todas as pessoas LGBT.

Esses desafios estruturais são denunciados há anos por vozes que marcaram o nosso movimento e nunca houve uma preocupação do estado ou da sociedade em resolver as mazelas que a nossa comunidade enfrenta. Muito pelo contrário: o estado e sociedade a cada dia nos empurram mais e mais para as margens; para o encarceramento; para prostituição compulsória e violenta. Não nos enxergam enquanto humanas ou dignas de exercer a cidadania plena.

Agora estamos diante de umas das maiores crises sanitárias do mundo e quase todas as pessoas enfrentam dificuldades, mas para aqueles que sempre estiveram vulneráveis, a crise tem um impacto gigantesco! Enquanto uma parcela burguesa da população está incomodada por ter que lidar com os próprios demônios ou com o tédio de ficar presa em casa, grande parte da comunidade LGBT não tem um lar pra se isolar. As travestis e transexuais são obrigadas a ocupar as esquinas para não morrerem de fome (como sempre foi) já que a auxílio emergencial não foi pensado com especificidades. Se nem as pessoas cis estão conseguindo receber o benefício vocês já imaginaram a dificuldade das pessoas trans?

Falta comida, água, saneamento, produtos de higiene pessoal e políticas públicas que supram a necessidade histórica desse movimento. Agora na crise os quadros de miséria, depressão e sofrimento emergiram e não temos políticas ou espaços público preparados para atender e minimizar as demandas das pessoas LGBT. A crise do novo coronavírus jogou na cara da sociedade a violência, a pobreza e a vulnerabilidade que nós sempre denunciamos. Ela tem mostrado a toda sociedade que precisamos repensar imediatamente nossas formas de consumo, de sociabilização e esse sistema econômico tão desigual que gera pobreza e sofrimento a uma parcela imensa. O vírus é democrático mas a forma como vamos enfrentá-lo não é!

A crise nos chama para uma construção de mundo mais empática, responsável, ecossocialista e menos desigual economicamente. Precisamos desacelerar, enxergar o outro como humanos e nos revoltar contra as estruturas de dominação que só exploram a classe trabalhadora e marginaliza aqueles que não consegue usar como mão de obra. Que toda a dor, perda e medo sirvam para repensarmos nossas convicções, crenças e nos unirmos para que haja trabalho, serviço de saúde e direitos básicos para as gerações futuras. As crises despertam em nós o senso de sociedade, seja quando estamos controlando as pessoas por estarem nas ruas, seja por nos chocarmos com o número de mortos e com a falta de leito pra todos ou ainda quando percebemos que não dá mais para simplesmente ignorarmos as pessoas pois nelas pode estar a doença.

Por isso, te convido a conhecer a campanha #fortaleçaumapessoatrans. Reunimos os coletivos que estão precisando de ajuda, pra ajudar a quem precisa. Acesse o site www.fortalecaumapessoatrans.com.br e contribua – com dinheiro, com produtos, com divulgação, com o que você puder. A empatia e a solidariedade vão fazer muito mais pelas pessoas do que a velha política nesse momento!

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

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