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Entre Hollywood e o Brasil: As batalhas de Demi Moore e Fernanda Torres
Uma disputa acirrada entre talento, narrativa e representatividade marca a corrida pelo Oscar de Melhor Atriz.
Por Isabella Breve
Eis um fato: O Oscar não premia apenas atuações. Premia narrativas. E, em 2025, duas mulheres dominam essa arte dentro e fora das telas. De um lado, Demi Moore ressurge como uma força em Hollywood, provando que o tempo e os rótulos da indústria não a definem. Do outro, Fernanda Torres representa o talento latino que, após décadas de mestria no Brasil, ganha os holofotes internacionais. Com performances arrebatadoras em ‘A Substância’ (2024) e ‘Ainda Estou Aqui’ (2024), elas não apenas disputam a estatueta, mas reescrevem suas próprias narrativas na história do cinema.
Demi Moore: Do ostracismo à consagração
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Há notáveis semelhanças entre a trajetória de Demi Moore em Hollywood e a de Elizabeth Sparkle, personagem que ela interpreta em ‘A Substância’, filme dirigido pela australiana Coralie Fargeat. Assim como sua personagem, Moore é uma atriz consagrada, mas, com o passar dos anos, enfrentou o declínio na indústria devido ao etarismo e aos padrões de beleza.
Desde a infância, Demi enfrentou desafios que moldaram sua trajetória. Em casa, lidou com a dependência química da mãe e, aos 15 anos, foi vítima de um episódio traumático ao ser vendida para se prostituir pela própria matriarca. Pouco depois, iniciou sua carreira como modelo e, com o tempo, migrou para as telas do cinema. Durante os anos 80 e 90, tornou-se uma das estrelas mais icônicas de Hollywood, vivendo sua “Era de Ouro” com ‘Ghost – Do Outro Lado da Vida’ (1990), seguido por ‘Questão de Honra’ (1992), ‘Proposta Indecente’ (1993) e ‘Disclosure’ (1994). Nos anos 90, alcançou o status de atriz mais bem paga do mundo ao protagonizar ‘Striptease’ (1996), mas o mesmo filme que consolidou seu poder também gerou polêmicas, atraindo críticas tanto de homens quanto de mulheres por seu papel.
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Na vida pessoal, Moore enfrentou a dependência química, mas conseguiu passar por um processo de recuperação. Em 1987, casou-se com o ator Bruce Willis, com quem teve três filhas, mas o relacionamento chegou ao fim em 2000. Anos depois, em 2003, iniciou um romance com Ashton Kutcher, que gerou polêmica devido à diferença de idade – na época, ele tinha 26 anos e ela, 41. Durante esse casamento, Moore enfrentou uma recaída na dependência química, o que afetou sua relação com as filhas. Após o divórcio, revelou que viveu um relacionamento tóxico com Ashton.
Do outro lado da moeda, a atriz enfrentava uma pressão constante para manter a aparência jovem e “perfeita”. Em sua autobiografia ‘Inside Out’, ela revelou as inseguranças e os desafios que enfrentou em relação ao envelhecimento e como isso afetou sua saúde mental. Em entrevista ao The Guardian no ano passado, Moore contou que chegou a passar por períodos de privação alimentar e longas horas de atividade física. “Foi o que fiz comigo mesma, foi o que passei a valorizar sobre mim. Realmente, foi uma violência. Como podemos ser violentos conosco, o quão brutais podemos ser?”, refletiu.
Com sua performance em ‘A Substância’, a atriz marca seu retorno a Hollywood, ao mesmo tempo em que constrói uma narrativa poderosa em torno de sua campanha nesta temporada de premiações. Não apenas revisita sua trajetória cinematográfica, mas se posiciona como uma figura que desafia as normas da indústria, buscando redefinir sua imagem e conquistar um novo reconhecimento. Sem dúvida, trata-se de uma mensagem impactante.
Fernanda Torres: A força do cinema brasileiro na corrida pelo Oscar
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Do outro lado do Atlântico, Fernanda Torres, com uma sólida trajetória no cinema brasileiro, conquista agora o cenário internacional com ‘Ainda Estou Aqui’, uma adaptação dirigida por Walter Salles que revisita os horrores da Ditadura Militar Brasileira pela ótica da Família Paiva, que teve o patriarca, Rubens Paiva, sequestrado e posteriormente morto pelo regime. ‘Ainda Estou Aqui’, portanto, não apenas leva o cinema brasileiro para o resto do mundo, mas também se configura como uma produção de memória, que, ao denunciar os horrores dos Anos de Chumbo, nos salienta: “é preciso lembrar para que não se repita”.
Fernanda é filha de Fernanda Montenegro e Fernando Torres, dois gigantes da dramaturgia brasileira, cujos passos seriam seguidos pela filha. A atriz iniciou sua carreira no teatro e, posteriormente, migrou para a televisão. Foi nos anos 1990 que ela consolidou seu nome, tornando-se uma das grandes figuras da comédia brasileira.
No início dos anos 2000, Torres estrelou a sitcom brasileira ‘Os Normais’ (2001-2003) ao lado de Luiz Fernando Guimarães. Em 2011, a atriz brilhou novamente em ‘Tapas & Beijos’ (2011-2015), ao lado de Andréa Beltrão. A comédia acompanhava a amizade entre duas mulheres e a rotina de uma loja de noivas, um papel pelo qual Fernanda é lembrada até hoje.
Em certo momento, Torres fez a transição para o drama, com o primeiro grande trabalho que a colocou no radar de diretores e críticos: ‘Eu Sei Que Vou Te Amar’ (1986), dirigido por Arnaldo Jabor. Aos 20 anos, Torres recebeu a Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes pelo filme, tornando-se a primeira atriz brasileira a conquistar o prêmio.
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O primeiro trabalho de Fernanda com Walter Salles foi em ‘Terra Estrangeira’ (1995). Anos depois, a parceria entre ambos se retoma em ‘Ainda Estou Aqui’. Walter também foi responsável por dirigir ‘Central do Brasil’ (1998), estrelado por Fernanda Montenegro, mãe de Torres, que garantiu uma indicação ao Oscar nas categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz para Montenegro em 1999. No entanto, o filme perdeu em ambas as categorias, com os prêmios indo para ‘A Vida é Bela’ (1997) e Gwyneth Paltrow, por sua atuação em ‘Shakespeare Apaixonado’ (1998).
Vinte anos se passaram desde que Fernanda Montenegro esteve nos palcos do Oscar, marcando presença no cenário internacional, assim como a filha faz agora. No entanto, o cenário mudou. O Oscar daquela época era uma premiação distinta da que vemos hoje. Atualmente, há uma tentativa de “internacionalização” dos votantes, o que pode gerar bons resultados para artistas fora de Hollywood. Esse movimento foi o que possibilitou a vitória de Torres no Globo de Ouro 2025 por sua atuação em ‘Ainda Estou Aqui’, e é o que pode tornar sua vitória no Oscar uma realidade. Contudo, nada é tão simples.
As campanhas e a construção de narrativas
A corrida pelo Oscar 2025 ganha contornos distintos à medida que a identidade de cada atriz se torna parte de sua estratégia. Demi Moore, ressurge como a “renascida de Hollywood”, enquanto Fernanda Torres se torna um ícone do cinema latino. Essas representações podem ter um impacto direto nas decisões da Academia, moldadas ainda mais pelos bastidores das premiações e pelos festivais.
‘Ainda Estou Aqui’, porém, por se tratar de uma produção internacional, precisou de uma campanha ainda mais intensa em comparação às produções norte-americanas. O filme estreou nos Estados Unidos no início de 2025 e, desde então, a Sony Pictures conduziu uma estratégia cuidadosa para apresentá-lo ao público internacional e, principalmente, aos votantes da Academia, garantindo que a obra ganhasse visibilidade na temporada de premiações.
Exibições, rodas de conversa, presença em eventos e cobertura midiática são elementos essenciais durante a campanha na temporada de premiações. ‘Ainda Estou Aqui’, por exemplo, foi exibido no cinema da Academia e contou com diversos bate-papos ao redor do mundo com Walter Salles, Fernanda Torres e Selton Mello. A estratégia foi levar a história de Eunice Paiva para além das fronteiras brasileiras, estabelecendo paralelos com o cenário político e econômico do país e destacando os simbolismos presentes no filme.
‘A Substância’, apesar de pertencer ao circuito norte-americano, ainda enfrentou um desafio particular: ser um body horror. Historicamente, o Oscar tende a rejeitar o gênero, raramente o contemplando entre os indicados. No caso do filme, portanto, a missão foi convencer a Academia de que uma produção de horror não apenas merecia, mas deveria estar entre os principais concorrentes da premiação.
O discurso de Demi Moore tem sido amplamente abraçado mundo afora. Em uma indústria que, nos últimos anos, tem intensificado debates sobre representatividade dentro e fora das telas, bem como sobre as diversas formas de violência que impulsionaram o movimento #MeToo, Moore se posiciona como um reflexo das pautas que vêm sendo discutidas pelas mulheres no cinema.
Fernanda Torres x Demi Moore: quem levará o Oscar?
Ainda assim, a trajetória de Fernanda na temporada de premiações mostra que ela não deve ser subestimada. As vitórias em festivais internacionais e a recepção calorosa da crítica indicam que a atriz conquistou mais do que apenas visibilidade – ela consolidou sua presença como uma concorrente de peso. No entanto, a barreira linguística e a resistência histórica da Academia em premiar atuações em filmes não falados em inglês permanecem fatores determinantes.
Enquanto isso, Moore se beneficia não apenas de sua performance em ‘A Substância’, mas da narrativa disseminada ao longo da campanha. Seu retorno triunfal a Hollywood e sua conexão com as discussões contemporâneas da indústria fazem dela a escolha mais segura para a estatueta. Porém, se há algo que a história do Oscar já mostrou, é que surpresas sempre podem acontecer.
A vitória de Moore representaria a força de sua “volta por cima” e, também, a história de milhares de outras mulheres em Hollywood. Afinal, a problemática não é individual. Esse também seria o primeiro Oscar da carreira da atriz, uma artista que foi considerada “velha demais” para a indústria que a cerca e incapaz de ganhar prêmios.
Por outro lado, a vitória de Fernanda representaria o resultado de anos de esforço do cinema brasileiro para ser reconhecido internacionalmente e, principalmente, pelo próprio público brasileiro, que muitas vezes desdenha suas produções em favor de outras nacionalidades. Sem mencionar o simbolismo por trás da indicação de sua mãe há 20 anos. Seria, igualmente, o reconhecimento de uma artista que, assim como seus pais, fez muito pelo cinema brasileiro – que resgatou o espírito de empolgação dos brasileiros e fez com que a arte fosse comemorada com a mesma paixão que o futebol no país.
Independentemente do resultado, a presença de Fernanda Torres na disputa já é uma vitória para o cinema latino-americano. Sua indicação simboliza um avanço na valorização de produções fora do eixo hollywoodiano e reafirma que histórias como a de ‘Ainda Estou Aqui’ merecem ser contadas e reconhecidas.
Se Demi Moore representa a resistência e a reinvenção dentro da própria indústria que a descartou, Fernanda carrega consigo o peso de toda uma cinematografia que há décadas busca um espaço de prestígio global. O Oscar, muitas vezes, é mais do que um prêmio – é uma declaração sobre o que a Academia deseja celebrar. E, seja qual for o desfecho, essa temporada já mostrou que o mundo está mais atento do que nunca ao talento e à força do cinema além das fronteiras de Hollywood.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.