Eleazar Carrias: a literatura como um gesto de resistência, rigor e sensibilidade
Eleazar Carrias discute literatura, mercado editorial e poesia como forma de resistência ética e sensível.
Por Kaio Phelipe
Autor de Máquina e Regras de fuga, o poeta paraense Eleazar Carrias revisita o início de sua relação com a escrita ainda na adolescência, quando a troca de cartas e o impacto da poesia de Carlos Drummond de Andrade despertaram nele o prazer e a consciência do gesto literário. Em entrevista exclusiva, Eleazar percorre sua trajetória no mercado editorial e comenta o reconhecimento como semifinalista do Prêmio Oceanos, revelando-se um autor atento ao rigor formal, à importância da leitura crítica e à construção paciente de uma obra coesa.
Eleazar reflete também sobre as barreiras estruturais para se fazer literatura no Brasil, especialmente para autores fora do eixo Rio–São Paulo, e discute como território, política, identidade e ética atravessam sua escrita. Entre a defesa de uma poesia do mínimo, inspirada em Manuel de Barros, e a urgência de não se calar diante de violências como o genocídio em Gaza, o poeta afirma a literatura como gesto de resistência e sensibilidade.
Quando começou a escrever?
Tive a consciência de que estava escrevendo alguma coisa literária durante a adolescência. Tenho observado que essa é uma resposta comum à maioria dos escritores brasileiros contemporâneos.
A minha experiência com a escrita é marcada pelas correspondências que eu fazia com amigas. Ou seja, tive uma rede social antes de existir rede social. Eu tinha onze correspondentes — eram dez meninas e um rapaz —, e a gente trocava cartas, longas cartas. Acho que foi aí que comecei realmente a ter prazer na escrita.
Eu devia ter quinze ou dezesseis anos, e foi mais ou menos nessa época que também entrei em contato com a poesia de Carlos Drummond de Andrade. Foi o primeiro choque poético que tive. Fiquei impactado quando entendi que era possível fazer poesia com uma linguagem tão comum.
Então percebi que poderia me expressar e comecei a rabiscar alguns versos. Fiz um primeiro livro manuscrito, com poemas horríveis.
Comecei a escrever literariamente na adolescência, por volta de 1994. No meu primeiro livro, Quatro gavetas, há um poema em que falo desses rabiscos de 1994.
Ainda tenho muitas dessas cartas. De todos esses contatos que eu tinha por escrito, três sobreviveram e são minhas amigas até hoje.
Dá até para fazer uma análise, trabalhar o Eleazar daquela época. Guardo essas cartas porque, de vez em quando, volto a elas para me conhecer melhor, para rever quem eu fui.
Fui criado em uma família evangélica ultraconservadora. Infelizmente, sou o primeiro da família ligado às artes, o primeiro que se assumiu gay e o primeiro a passar no vestibular.
Como foi seu primeiro contato com o mercado editorial?
Meu primeiro livro, Quatro gavetas, foi resultado de um prêmio da Secretaria de Cultura do Pará. Não tive, logo de cara, nenhuma experiência com editoras. O prêmio saiu em 2008, e o livro foi publicado em 2009.
Depois de muito tempo, em 2017, tive o primeiro contato com o mercado editorial profissional, com a editora E-Galáxia. Procurei o editor por e-mail e lancei Regras de fuga, que está na Amazon até hoje. Foi uma experiência muito agradável. A E-Galáxia tem uma equipe muito competente e, para mim, foi tranquilo. Não achei difícil nem muito burocrático.
A editora trabalhava exclusivamente com livros digitais; hoje, faz impressão por demanda. Foi muito bom porque foi a primeira vez que a minha poesia teve um pequeno alcance nacional. Pedi ao editor que deixasse o livro para download gratuito na primeira semana, e isso colocou o livro em primeiro lugar na categoria poesia entre os mais baixados da Amazon, o que deu certa visibilidade. Esse formato me ajudou bastante.
Depois, tive a experiência com o livro físico. Juntando minha trajetória com a E-Galáxia à minha primeira experiência com uma editora física de alcance nacional, a Urutau, posso dizer que esse encontro foi decisivo. Apesar de ser uma editora independente, a Urutau cresceu bastante e tem uma postura muito ativa na divulgação dos livros. Ela se envolve, divulga campanhas de pré-venda, compartilha quando é marcada nas redes sociais e demonstra interesse pelo trabalho do autor. Acho isso fundamental.
Tenho visto casos de editoras que concentram esforços apenas na pré-venda e depois se afastam, assim como há autores que também não fazem a própria parte na divulgação. No meu caso, a experiência com o mercado editorial independente foi essencial para ampliar meu público e conquistar mais leitores.
Admiro muito quem publica livros, especialmente quem se arrisca na autopublicação. Ainda assim, em termos estratégicos, acredito que a presença de um selo editorial faz diferença. Mesmo uma editora pequena oferece respaldo, circulação e uma estrutura que contribuem para a visibilidade do trabalho do poeta.
Atualmente, tenho dois livros publicados pela Urutau. O primeiro foi Máquina, lançado em 2021. Com o bom retorno desse livro, propus à editora a publicação de Regras de fuga, que eu havia lançado originalmente em 2017 em formato digital.
Como foi ser semifinalista do Prêmio Oceanos?
Para mim, foi uma surpresa muito boa, mas não digo que não esperava. Eu esperava, tanto é que inscrevi o livro no concurso. Esperava pelo menos ficar entre os semifinalistas, que foi o que aconteceu, porque tinha certeza de que havia feito um livro muito bom.
Demorei anos para escrever Máquina, e depois contratei a Micheliny Verunschk para fazer uma leitura crítica, e isso fez toda a diferença.
Quando outros escritores me pedem alguma sugestão na hora de definir a versão do livro que vai ser publicada, uma das dicas que dou é que contratem uma leitura crítica. Às vezes, você tem um amigo que entende de literatura e pode fazer isso de graça. Mas, se puder, é importante pagar alguém para fazer esse trabalho.
Acredito que, sem a leitura da Micheliny, Máquina não teria sido semifinalista do Oceanos. Depois da leitura crítica, cortei um terço do que havia escrito. Isso exige humildade do autor, porque a gente se apega ao que cria. De repente, um crítico diz que tal coisa não tem nada a ver com o restante do livro. Quase um terço ficou de fora para que o livro tivesse coesão, para que eu construísse uma obra em que os poemas dialogassem.
Qual é a maior barreira para fazer literatura no Brasil?
Essa pergunta é muito boa e complexa. As barreiras são múltiplas, mas acredito que a maior, hoje, principalmente para autores independentes, seja a financeira.
Se eu não tiver condições de bancar a divulgação do livro, de viajar para feiras e eventos, de investir em marketing, pagar anúncios no Instagram, enviar exemplares pelos Correios, meu livro vai sendo esquecido.
Não se trata de sair pagando para ser lido, mas ter algum dinheiro para gastar com divulgação aumenta a chance de ser lido. Se você tem muitas vendas, também vai gastar mais com envios.
Se eu fosse rico, não precisaria priorizar o outro trabalho que me sustenta. Eu iria às feiras literárias. Nunca fui à Flip, por exemplo. Até hoje não tive dinheiro para passagem, hospedagem e tudo mais.
Sou anticapitalista, mas reconheço que o mundo é capitalista, o mercado editorial é capitalista. A Flip é um evento literário e capitalista. Se eu não tiver recursos, não vou à Flip, não vou à Festa Literária de Ouro Preto, nem mesmo à Feira Literária Pan-Amazônica, que acontece aqui em Belém.
Tenho um bom alcance nas redes sociais, mas fora delas sou pouco conhecido.
Viver no Norte do país atravessa a sua literatura?
Com certeza. Assim como quem escreve no Morro do Carrapato é atravessado pelo seu contexto urbano e social.
Não existe literatura universal no sentido abstrato. Toda literatura fala a partir de um lugar. O problema é que, fora do eixo Rio–São Paulo, isso costuma ser lido como regionalismo.
Eu moro no Pará e nunca morei em outro lugar, mas não acho que faço literatura paraense. Faço literatura. Defendo a identidade amazônica, mas não quero que minha escrita seja lida como regionalista.
Toda literatura é regional porque nasce de uma região, mas, se é verdadeira, pode ser lida em qualquer lugar do mundo.
Você tem falado muito sobre o genocídio em Gaza. Qual a importância disso na literatura?
A importância de escritores falarem sobre o genocídio em Gaza se justifica pela própria impotência da palavra literária. Justamente porque a palavra não transforma a realidade sozinha, não podemos nos calar.
A única arma que tenho é a escrita. Preciso fazer dela um grito de revolta, algo que ajude mais pessoas a perceber que o que está acontecendo é inaceitável.
Estou organizando uma antologia sobre Gaza. Ela não terá efeito direto sobre o curso do genocídio, mas deixará registrado que, no Brasil, houve escritores que não se calaram. Ficar calado é ser conivente. Somos impotentes, mas não coniventes.
Lembro do Manuel de Barros e da poesia do mínimo. Num mundo de projetos megalomaníacos e trilionários, talvez o nosso gesto seja o contrário: mostrar beleza e revolta nos pequenos gestos. O mínimo que posso fazer é escrever um poema e organizar uma antologia. Esse mínimo pode ser visto no futuro como um gesto ético.
Literatura LGBTQIAPN+ é ativismo?
Pode ser, se a autora ou o autor quiser, ou se o leitor assim entender. Toda literatura é atravessada pela política.
Sou um autor gay, mas não classifico minha literatura como literatura LGBTQIAPN+. Ainda não sei se é importante insistir nessa categoria.
É importante falar das nossas vivências, porque não há literatura honesta fora da própria experiência. Mas não acho necessário criar um rótulo. Sou escritor e sou gay. Minha homossexualidade aparece no que escrevo como tudo o mais que me constitui.
Quais são seus próximos projetos?
Espero concluir meu próximo livro em, no máximo, dois anos. Em 2026 ainda não vai dar, mas ele já tem um título provisório: Terra vasta — ou talvez Terravasta.
Em Máquina, trabalhei a relação com as tecnologias e as máquinas de morte. Agora estou focado na relação com a Terra, tanto como organismo vivo quanto como casa do ser humano, com todas as contradições dessa relação.



