Uma lenda por trás dos holofotes convivendo com gênios da música popular brasileira de várias gerações, o sambista, compositor, poeta, escritor e jornalista, Hermínio Bello de Carvalho, segue produzindo aos 88 anos de idade. Ele está prestes a lançar um álbum com novas músicas autorais e a presença de artistas renomados, assim como um livro de crônicas que já está no forno. Nesta entrevista, Hermínio adianta que nesse trabalho, além de grandes músicos, haverá também a declamação de um poema pela atriz Fernanda Montenegro, sua grande amiga.

Logo ao chegar no seu prédio, na zona sul carioca, desconfiamos: Pixinguinha, era o nome. Alguma história estava no ar, e não deu outra. Parceiro de longa data do falecido rei do saxofone brasileiro, explicou que convenceu os condôminos, junto a Paulinho da Viola, então seu vizinho à época, a mudar o nome do edifício. Essa foi uma das muitas histórias que nos contou, assim como a do anel desenhado e dado por Cartola, que pediu para Dona Zica [esposa] entregar ao amigo de longa data e afilhado de casamento após sua morte.

Nesta entrevista à Mídia NINJA, ele fala sobre a importância da nossa memória cultural, o valor que a arte tem para um povo, a invisibilidade dada pelos grandes meios de comunicação à música de qualidade e traz relatos sobre o seu convívio com grandes artistas, como a sua revelação de Clementina de Jesus. A política ao lado do samba, críticas ao governo passado e expectativas em relação ao atual também são alguns dos temas abordados ao longo da conversa.

Segundo ele, é preciso prestar atenção, pois nosso povo é muito criativo e em todo o país têm talentos natos da música popular brasileira.

Foto: Marcelo Costa Braga

Numa das suas entrevistas, você disse que um bom lastro temporal para fazer uma análise histórica é pelo menos o distanciamento de 10 anos. Como você vê as duas últimas décadas do samba carioca?

Hermínio Bello de Carvalho – Não sou autoridade para falar nesse assunto porque tenho amigos e parceiros antigos do samba. Mas nos dez últimos anos surgiram muito poucos grandes sambas, porque houve um massacre da música pop e uma espécie de descaso com os sambistas que me dá certa tristeza. O mercado sempre mudou e é muito vasto, e a televisão é um agente que não presta muito serviço à nossa cultura. As novelas da Globo são sensacionais, mas a música de qualidade está muito ausente da televisão brasileira. Gosto muito daquele programa Samba da Gamboa, do Diogo Nogueira, onde aparecem ótimos sambistas que não conhecia. Faltam programas como esse, que se dediquem à criação da música popular.

Quando comecei com o Rosas de Ouro [musical de 1965] houve um boom maravilhoso. O projeto estimulou o surgimento da Clementina, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro, uma porção de gente. Começou um movimento tão bonito em torno do Teatro Opinião, que você conseguia ver e ouvir músicos e sambistas maravilhosos, como Padeirinho, que não se ouvia falar. O grupo Opinião foi muito responsável pela divulgação, e desde a década de 60 esse boom não se repetiu.

Foto: Marcelo Costa Braga

Você atribui isso a uma conjuntura cultural ou de mercado especificamente?

Hermínio Bello de Carvalho – Nunca parei para pensar muito nisso, mas veja que quando a Clementina surgiu foi aquele escândalo: uma mulher negra com 63 anos de idade virar uma grande estrela e um mito da música brasileira. Isso veio a se passar muitos anos depois com a Dona Ivone Lara, um samba mais chegado a essa veia do Cartola, que era um gênio e um caso à parte.

Mas não tem relação com essa invisibilidade da TV, que você já citou? Existiam também programas de auditório, shows mais baratos, etc. Quais mecanismos precisam ser estimulados para potencializar esse tipo de música?

Hermínio Bello de Carvalho – Tem que criar espaços com uma assiduidade de apresentações que garantam ao público revelar essas pessoas. O Albino Pinheiro, por exemplo, com o Seis e Meia com excelentes shows a preços acessíveis. Ele me falou uma vez: a pessoa sai do trabalho, não tem para onde ir, vai se enfurnar nos ônibus, trem e metrô suados e cansados? Ele tinha sido nomeado diretor do Teatro João Caetano e falava em pegar esse pessoal para escutar música popular brasileira. Nasceu da cabeça dele essa experiência, que eu participei e formatei a marca artística. Depois o Projeto Pixinguinha nada mais é que o Seis e Meia numa escala nacional. A ideia do Albino era trabalhar com a formação de novas plateias de música de qualidade. O Pixinguinha ampliou isso, ou seja, criou a possibilidade de projetos subsidiados para o expectador e não  para o empresariado. As pessoas que não tinham dinheiro para entrar num teatro, pagavam lá na hora e tinha espaço para elas.

Foto: Marcelo Costa Braga

Necessariamente uma política pública de atribuição do Estado?

Hermínio Bello de Carvalho – Claro. Assistir ao Seis e Meia era praticamente o preço de um maço de cigarro. Então a percepção de primeiro criar um espaço permanente, que permita ao longo do tempo que ele se torne um bem de consumo. E o Pixinguinha foi na mesmíssima linha, peguei o roteiro e apliquei mas com a minha parte artística. O objetivo era criar a possibilidade de novas plateias para a música brasileira através de ingressos subsidiados ao expectador. Era para criar um hábito de consumo da música brasileira.

Você está se referindo à perspectiva também educacional, pedagógica e cultural?

Hermínio Bello de Carvalho – Sem dúvida. O projeto Seis e Meia virou um padrão, um tipo de espetáculo utilizado em todo o Brasil. Me lembro quando levaram a Suely Costa e ninguém que estava fora do meio sabia quem ela era, uma pessoa maravilhosa. A qualidade dos espetáculos, que ficavam lotados, era uma forma de respeitar o público. Nós temos muito bons artistas, que nem sempre têm condições ou nomes para serem vistos. Isso só é possível através de projetos subsidiados para o expectador.

Isso necessariamente esbarra em poder. Nos últimos anos tivemos no Ministério da Cultura o Gil, muito elogiado pela classe artística, assim como Juca Ferreira, mas depois surgiram muitas críticas. Há expectativa de retomada agora?

Hermínio Bello de Carvalho – Primeiro temos que avaliar o próprio ministério, que foi criado no governo Sarney e depois enterrado pelo Collor. O reduziu a uma secretaria após a falta de apoio que teve da classe artística nas eleições. O Lula botou o projeto para cima, mas veio o Bolsonaro e colocou novamente para debaixo do tapete. O Ministério da Cultura é muito frágil, fica à mercê e sabor desses caras. A primeira coisa que o Bolsonaro fez foi terminar com ele, porque não teve apoio da classe artística e fodeu com o órgão. É um horror, mas eles têm medo da cultura e ela amedronta mesmo. A cultura tem um poder imenso, através dela você consegue mover montanhas. Até o momento não tenho empatia com os novos nomes apresentados, mas acho que todos temos direito de testar: a nova ministra da Cultura, Margareth Menezes, por exemplo, é uma delas. Vamos deixar rolar, talvez essas pessoas façam um bom trabalho.

Foto: Marcelo Costa Braga

Como você vê a relação do samba com a política? Tivemos o Candeia, incisivo quanto às suas reivindicações, e a nova geração também se posicionou muito em relação ao último governo…

Hermínio Bello de Carvalho – O músico tem certa simpatia por isso. Afinal de contas, o Bolsonaro e o Collor nada têm a ver com a cultura brasileira. Então o artista também se sente desprestigiado. Quando houve esse surto do Projeto Pixinguinha foi uma coisa maluca, deu um respeito muito grande à nossa cultura e chancelou o ministério com uma dimensão que não se esperava. Gostaria de ter a companhia de um amigo para me levar às rodas de samba no subúrbio, porque quando vemos o que acontece na Rua do Ouvidor, por exemplo, em torno da Folha Seca, é lindo. Recentemente tinha a Áurea Martins cantando com um pianista, olha o requinte: isso é apostar realmente na cultura. Mostrar que existe um consumidor e enche.

Fale sobre os seus projetos atuais, tem livro no forno prestes a sair?

Hermínio Bello de Carvalho – O Sesc [Serviço Social do Comércio] está patrocinando a publicação de um livro de crônicas, que deve sair em breve, e um disco bastante legal com músicas minhas novas. Tem a participação do Paulinho da Viola e outros gênios, além da participação especial da Fernanda Montenegro, que é muito minha amiga e declama uma poesia maravilhosamente bem. Acho que consegui fazer um disco decente: o Lucas Porto faz a produção e a parte executiva é do Helton Altman.

Foto: Marcelo Costa Braga

A sua casa respira arte, vemos livros, poesias, pinturas, fotos, memórias culturais, e você sempre mexeu com a música. O que te encanta tanto na arte?

Hermínio Bello de Carvalho – Aqui é onde eu trabalho e me cerco das coisas que me dão prazer e alimentam o meu espírito. Passou muita gente bacana por aqui, e quando morava na Glória ia Lupicínio Rodrigues, Pixinguinha, Ismael Silva, Clementina, etc. Nesse apartamento, Caetano, Chico, dentre muitos outros. Ficava gente na rua esperando as celebridades na época da Sombrás [Associação de Músicos, Arranjadores e Regentes]. Era um movimento em defesa da música brasileira, então elegemos o Tom Jobim como presidente e me elegeram como vice.

Era muito pautada no direito autoral, né? Você disse em entrevista que via a internet com otimismo, como a vê hoje em relação aos direitos das autorias dos artistas?

Hermínio Bello de Carvalho – Não sei muito bem, mas pensei nisso hoje. Me sirvo muito da internet, até porque ela coloca coisas que noutros lugares você não encontraria como, por exemplo, muitos programas sobre música que fiz: com Paulinho da Viola, Cartola, Nara Leão e um monte de gente que você nem imagina. Democratizou muito o acesso, a TVE fez muita coisa que a TV Globo não faz e, infelizmente, com o governo que estava não tem mais.

O programa do Rolando Boldrin cumpria esse papel, mas infelizmente ele se foi recentemente…

Hermínio Bello de Carvalho – Exatamente, ele me levou lá algumas vezes, assim como meu parceiro Vidal Assis. Ele era um grande informador e uma pessoa de uma delicadeza imensa, seus programas eram impecáveis. Fiquei muito triste com a morte dele, e foram várias seguidas: Gal, Erasmo, Moraes Moreira, etc.

Foto: Marcelo Costa Braga

Você acabou não falando mais sobre a necessidade de se lutar pelo direito autoral…

Hermínio Bello de Carvalho – Até surgir o Ecad [Escritório Central de Arrecadação e Distribuição], o direito autoral era mal e porcamente distribuído aos compositores. Era algo na base do lápis, não uma coisa técnica de quantificar quais músicas tocavam mais e com qual intensidade. Houve realmente uma arrumação, que talvez ainda não seja ideal, mas já é muito diferente. O direito autoral é essencial, porque tem gente que não faz show e não tem a volta da bilheteria. Como vive um compositor como esse, que não canta e só tem a música para apresentar? Quando e se ele grava, nem sempre a administração nacional é correta. Não quer dizer que estão roubando, mas é muito imprecisa. Trabalho muito hoje com a internet e talvez nem a TVE tenha os programas que fazia com a Aracy de Almeida, Jards Macalé, João Bosco, Aldir Blanc, etc. Registrei muita coisa que no circuito convencional não havia interesse de mostrar. A internet tem essas coisas, mas não sei até quando, porque tem programas que já foram tirados do ar.

Não tem uma política institucional de memória…

Hermínio Bello de Carvalho – Não só isso, e tem gente que vive à custa desse material. Às vezes aparece o nome do cara, ele grava de forma precária ou razoável e você compra dele. Se eu quiser um programa que fiz, preciso comprar, é uma coisa meio contraditória. É preciso trabalhar a memória brasileira. Outro dia me lembrei muito do Sidney Miller, coloquei no meu Facebook um trabalho dele comigo e muitas pessoas não o conhecem. Morreu há muitos anos e sua música quase não é mais tocada, mas fui procurar na internet e encontrei um programa da Joyce Morena e do Alfredo Del-Penho com um especial sobre as músicas dele. Olha que coisa bonita, a televisão não faz isso mas tem quem faça. Essa atuação alternativa era muito importante e precisa ser melhor estudada. A Globo não se interessa nessas coisas.

Aparece muito lá o sertanejo universitário, artistas mais consagrados e alguns hits do momento focando mais no lado comercial da coisa.

Hermínio Bello de Carvalho – Mas é uma concessão pública, deveria haver quase que uma obrigatoriedade de colocar coisa de qualidade lá. Por outro lado, qual é o critério do que é bom ou ruim? Fiz um levantamento recente sobre a Édith Piaf, uma cantora maravilhosa, vi vídeos dela e divulguei. É um trabalho que faço não direcionado só para as coisas que faço, pelo contrário, boto muita coisa dos outros.

Foto: Marcelo Costa Braga

E as suas histórias com as grandes personalidades da MPB?

Hermínio Bello de Carvalho – A vida de um artista é também a arte de prestar atenção, quando me perguntam como conheci a Clementina fico puto da vida. Como vou descobrir uma pessoa aos 62 anos que nunca tinha sido fotografada num jornal, e que conheci cantando num bar e fiquei maravilhado? Ela já estava ali, as pessoas que não estavam prestando atenção. Você está viciado de tal forma em barulho e muita parafernália, que um cara maravilhoso canta e não percebemos sua grandeza. Na sequência da Clementina veio a Áurea Martins, que estava confinada na noite, inclusive levei a Elizeth [Cardoso] para vê-la, até levá-la a um programa que tinha na TVE e vi a sua grandeza. Surgiu muita gente boa nessa onda, como o Pedrinho Miranda e Alfredo Del-Penho, que estavam até às 4h da manhã cantando até chegar nesses projetos. Olha quanta gente maravilhosa existe no Brasil. É preciso ter um olhar atento e exercer a arte de prestar atenção. Você acha que Clementina tornou-se um mito à toa? Uma personalidade maravilhosa! Quando fez 100 anos fiz um levantamento com depoimentos sobre ela: Nelson Rodrigues, Toninho Santos, gente de toda espécie. Ela não era só adorada por sambistas, era uma artista suprema. Lembro de como o Aldir Blanc gostava dela, o grande sucesso dela foi um samba que o Caetano acolheu, Um marinheiro só. Ela tinha no repertório pessoas maravilhosas, grandes compositores e revelou muita gente. Comecei a gravá-la sem instrumento na minha casa. Não só samba, curimbas, lundus, uma diversidade da cultura negra que estava ali represada. Tinha a África dentro dela, lembro dela deslumbrada ao escutar pela primeira vez a sua própria voz gravada. Tínhamos uma Clementina no Brasil e não sabíamos, e hoje ela é internacionalmente conhecida. O Ary Vasconcelos escreveu uma coisa maravilhosa sobre ela.

Foto: Marcelo Costa Braga

Tem muita gente boa fazendo muita coisa boa por aí sem visibilidade e reconhecimento. Os saudosistas dizem que agora só tem porcaria, mas não têm dimensão do que ocorre fora da televisão e dos meios comerciais.

Hermínio Bello de Carvalho – O Cartola e a Zica moravam de favor na sede da Associação das Escolas de  Samba, e o Zicartola foi pensado para eles ganharem um dinheirinho. Aos sábados, o pessoal dava um dinheiro e a Zica cozinhava maravilhosamente uma feijoada na Rua Carioca. Era fascinante, tinha uns sambistas maravilhosos, os músicos resolveram que o Cartola tinha que ficar rico, não  era possível um gênio como ele passando dificuldade. Viveu muitos anos lavando carro à noite, então alugaram esse sobrado e as coisas mais deslumbrantes aconteceram ali: Cartola, Clementina, Padeirinho, Nelson Sargento, Ismael Silva, etc. Se comia e bebia muito bem, era barato, e havia a MPB nunca ouvida antes. O Zicartola foi muito importante, fez com que essas pessoas ficassem conhecidas, o Padeirinho sobretudo, que era um gênio. Foi um centro muito importante no Rio e as pessoas começaram a ter um espaço para expor suas músicas. Mas, ao mesmo tempo, o Cartola e a Zica não nasceram para ganhar dinheiro, os pratos já saíam com prejuízo da cozinha, eles não tinham noção comercial. Sempre paguei o que consumi lá, mas às vezes chegavam quatro pessoas e vinha uma tonelada de comida e até levavam para casa. Então foi um desastre, e o Cartola com a sua grandeza, quando acabou ficou indignado, inclusive fui fiador no empréstimo para pagar suas dívidas. Cartola foi uma das pessoas mais íntegras que conheci, tenho privilégio de dizer que foi meu amigo, parceiro e afilhado de casamento. Infelizmente não teve mais tempo para aproveitar aqui.

A entrevista foi realizada há três meses, antes do aniversário de 88 anos do entrevistado.

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