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Por Eduardo Sá

A livraria Folha Seca comemorou na última sexta-feira (20/01) os seus 25 anos de existência com um evento cultural repleto de atrações musicais e a presença de diversos artistas, intelectuais e políticos. A atividade ocorreu no feriado de São Sebastião, padroeiro da cidade, na Rua do Ouvidor, na sua sede no centro do Rio de Janeiro. A programação iniciou com um show da cantora Áurea Martins e do pianista Cristóvão Bastos, e muitos músicos animaram a tarde com uma roda de samba ao longo do dia.

A Livraria e Edições Folha Seca é especializada em história da cidade do Rio de Janeiro, música e futebol. Seu nome é uma homenagem ao chute inventado pelo jogador de futebol Didi, meio campo do Botafogo e da seleção brasileira, que foi bicampeão do mundo. Mas também tem um acervo de publicações mais ligadas à política, de uma maneira geral anti fascistas e em defesa da democracia. Além das muitas tardes de autógrafos já realizadas, promove também atividades musicais, debates e discussões sobre temas em evidência na cidade. A livraria já recebeu diversas homenagens de personalidades cariocas e dos poderes públicos.

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De acordo com o carioca e flamenguista Rodrigo Ferrari, de 55 anos, conhecido carinhosamente por todos como Digão, tudo começou quando ele ainda era estudante de história na UFRJ e foi trabalhar numa livraria famosa da cidade, a Dazibao. De lá para cá sua paixão aumentou, largou os estudos por conta do trabalho e assumiu a livraria que acabou fechando no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, também no Centro do Rio. Lá já havia um convívio com militantes da esquerda e se tornou o embrião da Folha Seca, em 1997. Logo depois, há dezenove anos, mudou-se para a importante rua cultural carioca, Rua do Ouvidor, onde livrarias e editoras famosas no século passado já foram estabelecidas.

Graças ao seu público fiel e interessado, conseguiu resistir durante a pandemia. Mesmo sem ter um site de vendas ou serviço de entrega, após ter fechado as portas por conta do alto índice de contágio da covid-19 fez rifas e vendas antecipadas lhe garantindo o pagamento das despesas e a manutenção do seu trabalho. Isso não só pela qualidade editorial do seu acervo, mas também pela efervescência cultural promovida no local e a identificação política dos seus frequentadores. Desde o golpe que destituiu a ex-presidenta Dilma Rousseff, a livraria se tornou um ambiente de encontro da esquerda carioca.

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“Desde sempre criei uma sinergia grande entre os assuntos que a gente vende e as coisas que a gente cultiva. Como tenho muitos amigos músicos, sempre fiz muita coisa ligada ao choro e ao samba, então acabamos ligando a questão da livraria com os eventos quando viemos para cá. Somos especializados em temas cariocas, mas desde o golpe que a parte de política, que sempre nos dedicamos porque faz parte da história da cidade, tomou bastante espaço na vitrine. Esses encontros são iniciativas políticas”, afirmou.

Apesar de o mercado do livro estar bastante difícil e ter piorado com a pandemia, acrescenta Digão, a Folha Seca tem certa especialidade e consegue se encaixar por conta também do tempo no ramo. É desafiadora a competição, porque muitas editoras utilizam plataformas para vender livros pela metade do preço, por exemplo, mas ao agregar valor e promover a mobilização cultural a livraria se mantém de pé firme e forte. Ele tem esperança de melhorar o mercado com o retorno de um governo de esquerda no país. “Sem arminha na cabeça já está muito melhor. Espero que tenhamos políticas e iniciativas que estimulem não só a feitura dos livros, mas também a distribuição que é muito importante”, concluiu.

Muitos escritores lançam livros na livraria Folha Seca, em geral junto com a realização de um samba ou atividades musicais. Os sambistas Nei Lopes, Paulo César Pinheiro e Hermínio Bello de Carvalho, além do historiador Luiz Antônio Simas, são figurinhas carimbadas na livraria. Um dos escritores que tem alguns dos seus livros expostos na vitrine, o jornalista Ruy Castro, esteve presente e destacou a sua importância na cidade. Na sua opinião, trata-se de uma instituição carioca e brasileira que veio para ficar e tem orgulho de conhecê-la antes dela existir. Conheceu o dono dois anos antes da inauguração, e desde então sempre torceu pelo sucesso do projeto.

“Muita coisa importante aconteceu nela e muita gente bacana já passou por aqui. Por causa dela, reinventou-se a Rua do Ouvidor, que estava abandonada. Você vê a força do livro e como a cultura atrai as pessoas, além de ser uma fonte de renda também, pois muita gente se beneficia. É uma coisa completamente carioca, a rua é o princípio de tudo. Muitas coisas acontecem nos salões nobres, nas salas de concertos e bibliotecas, mas a fonte de tudo sempre foi a rua. É muito natural que dela saia cultura, música, o livro, a discussão e a conversa. A rua é a cidade em assembleia permanente, tudo que acontece de importante na cidade é discutido na rua pública”, destacou o jornalista.

No ano passado foi aprovado um projeto de lei na Câmara Municipal passando a chamar aquela parte da Rua do Ouvidor de “Quarteirão cultural Eduardo Gallotti”, músico que faleceu no ano passado e foi responsável pela produção de diversas rodas de samba na cidade. De autoria do recém-deputado federal Tarcísio Motta (Psol-RJ), que esteve presente no evento, a proposta consiste em a prefeitura estimular com recursos públicos atividades culturais que já ocorrem nesta região. Segundo o político, a Folha Seca é uma marca da história da cidade, sendo um ponto de encontro da arte, do samba, da música, da literatura e da cultura como um todo.

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“Estamos fazendo uma ação simbólica de inauguração do que aprovamos na Câmara de Vereadores. É uma homenagem ao sambista e tricolor, que tantas vezes esteve aqui na roda de samba e infelizmente nos deixou. Tanta história que tem nesses becos e vielas neste Rio antigo, e a Folha Seca ajuda bastante a perpetuar esta memória. O Projeto de Lei foi vetado, derrubamos o veto e esperamos que o prefeito consolide isso. Favorece não só a memória do Gallotti, mas a todos que fazem cultura, samba e geram renda neste local. É como se fosse um polo gastronômico, mas de cultura”, explicou Tarcísio.

Uma das frequentadoras da livraria, a bibliotecária de 32 anos, Isadora Cirne, já participou de muitos eventos nos últimos anos e também já comprou muitas obras na livraria. Seu pai chegou a lançar lá alguns livros ainda em vida, o escritor e poeta Moacy Cirne, no antigo espaço Oiticica. Para ela, é um ponto importante da cultura carioca e reduto de artistas e intelectuais com músicas e discussões de qualidade.

“Tenho ótimas lembranças da livraria, meu pai passava a tarde lá conversando sobre futebol e bebendo um cafezinho. É uma livraria que é uma referência para a alma do carioca, porque um lugar que você fala de choro e Pixinguinha, e futebol e Didi, não é qualquer lugar. Consegue reunir essas duas paixões e ser reconhecida e louvada, é um lugar muito importante para o Rio de Janeiro”, disse Isadora.

 

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