Foto: Marcelo Costa Braga

Recém chegado aos 30 anos, o compositor e sambista carioca Douglas Lemos lança hoje (28/11) o seu terceiro álbum, DG da Glória (escute aqui), com um repertório diversificado e um time de craques. O disco traz nove faixas autorais com a participação de Moacyr Luz, Moyseis Marques, João Martins, Raul de DiCaprio e Sain, dentre outros. A obra passa por sambas cantando o Rio antigo, que é a sua principal característica, mas bebe da fonte também do carimbó, do jazz e do rap.

DG é cria da Glória, bairro boêmio carioca, e um dos fundadores e integrante do grupo Sambachaça, que tem tocado em alguns lugares da cidade desde 2014. Botafoguense doente, frequenta os estádios e acompanha seu time de coração. Ele também está com um projeto solo novo para este verão: Pagode do DG, nas tardes de domingo, no Bar do Molejão, no Morro do Pinto, com a proposta de abrir espaço para novos artistas.

Na entrevista à Ninja, Lemos fala sobre a sua paixão pelo Rio antigo e os bares da cidade, a influência de ícones do samba nas suas músicas, sua carreira e experiência em outros países. Para ele, o samba carioca está na moda, mas também enfrenta alguns desafios para os artistas que dependem das rodas para viver. DG fala ainda sobre política e o mercado da música, dentre outros assuntos.

Você acabou de fazer 30 anos, mas já está há uns dez pelas rodas de samba. Começou na música com alguém da família?

Sempre fiz aula de música, comecei a tocar piano com 6 anos de idade e depois baixo com uma banda meio pop, mas com 16 anos aprendi a tocar violão e tudo mudou. Já tocava uns acordes e ouvia muito samba, quando ouvi pela primeira vez o disco Espelho, do João Nogueira, e a música Nó na madeira, minha vida mudou. Nessa época não tinha nenhuma pretensão em trabalhar com isso, escutava Cartola, João Nogueira, Jorge Aragão, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara, etc. Também tem influência do meu pai, que frequentava os pagodes do Fundo de Quintal, porque ele era paraquedista e o Marquinho PQD levava a rapaziada para tocar. Ele tocava um tantan, mas era só uma marcaçãozinha. A minha primeira paixão foi o violão e tudo se abriu, porque é um instrumento completo para tocar todo tipo de música e sua introdução.

E você começou tocando violão aonde, em qual roda específica?

Com os moleques da escola por volta de 2010 e a frequentar umas rodas no Centro, mas já ia às escolas de samba e aos bailes funks das favelas. Ganhei um concurso de pagode de novos talentos no colégio Zaccaria, no Catete, tocando tantan. Comecei a frequentar o Samba do Trabalhador, onde conheci o Moacyr Luz, quando tinha uns 17 anos. Nessa época também conheci a rapaziada do Samba da Ouvidor, e o trabalho da Cristina Buarque, do Mauro Duarte, a obra do Paulo César Pinheiro, etc. Ouvia muito os compositores da velha guarda da Mangueira, da Portela, minha escola, Império Serrano e tantas outras.

E qual o marco nesses quatro anos até a formação do Sambachaça, em 2014, para você se profissionalizar?

No trio, eu tocava baixo as músicas populares, tipo Cazuza, Tim Maia, Lulu Santos, etc. Não gosto de chamar de MPB, porque acho essa sigla um pouco elitizada, mas certo dia tomei coragem de pegar um violão e o pessoal gostava, mesmo eu cheio de vergonha. Quando comecei a cantar, tocar e desbravar as rodas da cidade veio o Sambachaça, a gente criou um grupo na internet pelo facebook e cada um mandava os sambas antigos que gostava. Eduardo Gudin, Nelson Cavaquinho, disco antigo da Ivone Lara, até que nos encontramos para tocar esses sambas. Os primeiros foram num botequim ali no Flamengo, imprimimos umas músicas, ninguém sabia tocar cavaquinho, todo mundo tocando mal pra caralho.

E quando virou um evento público com cachê ainda que cerveja de bar?

Era tudo meio que na guerrilha para beber, a galera não tinha dinheiro, muitas vezes o cara dava duas garrafas e a gente pagava dez. Depois a gente foi para outro botequim no bairro, que tinha uma imobiliária ao lado fechada e ocupava a calçada inteira. Essa foi a primeira roda do Sambachaça, pessoal já tocando um pouco melhor, chegou um cara tocando cavaquinho, tinha surdo. Nessa época ninguém fazia samba com esse tipo de repertório na zona sul, e começou a dar certo e fazer um domingo por mês ou de quinze em quinze dias. Passamos por vários bares, mas sempre nos expulsaram por mal comportamento.

Virou a chave quando tocamos no Bar da Nalva, na Lapa. Quando a Lapa abraça não solta nunca mais, passou dos Arcos a tua vida é diferente, seja para o bem ou para o mal. Tudo que eu tenho hoje na minha vida foi a Lapa quem me deu: minha mulher, minha roda de samba, meu dinheiro para pagar conta, etc. Na primeira roda tinha trinta pessoas, na segunda sessenta, e foi crescendo. Tocamos num bar em Copacabana que não existe mais, foi a primeira vez que ganhamos cachê. A Nalva abriu as portas, só pagava cerveja, mas até hoje frequento e almoço com ela, devo muito a ela da minha vida artística. Nosso grupo tinha uns dez integrantes, um amigo fortalecia o som, tudo muito precário, cantava sem retorno nem nada. Nessa época ganhamos algum dinheirinho, tinha dia que precisava fechar a rua de tanta gente, mas no final das contas o que era arrecadado virava um churrasco de final de ano. Quando veio a pandemia vivia meio ferrado, mas já da música. Na Garagem delas na Carioca que começamos de fato a pegar um dinheiro no final para os músicos.

Foto: Marcelo Costa Braga

Mas em paralelo você já tinha uma carreira solo, porque está indo agora para o terceiro álbum.

Faço tudo no Sambachaça, mas tenho a minha carreira para me sustentar. Dos doze membros do nosso grupo nem metade vive da música, então rola uma vez por mês, mais pro pessoal beber, tocar e pegar um trocado. Fazemos um resgate de compositores e composições esquecidas, mas tenho a minha parada pessoal porque assim que comecei a tocar violão já criei música. As minhas composições começaram a ser tocadas no Sambachaça. Já emplaquei de cara música com o Moacyr Luz, que é um cara consagrado e meu ídolo. Ele é uma referência não só de samba, um cara que já passou por várias dificuldades na vida e segue vencendo. Minha família até hoje passa por umas dificuldades, e hoje graças a deus consigo dar um suporte por causa da música. Já fui pra mais de vinte países e em muitos deles toquei, como Argentina, Uruguai, Portugal, Áustria, Alemanha, etc. Sou um pesquisador da música, já fui para uma ópera numa cidadezinha da Itália para ver os caras tocando. Meu sonho é tocar na Ásia, Cingapura.

O que significa esse novo álbum na sua carreira e queria que você falasse também sobre as escolhas que você fez das pessoas e ritmos.

Estou comemorando meus 30 anos e agora estou mais maduro e no meu ápice, porque parei de tentar agradar os outros e fiz um álbum primeiramente para mim. Esse eu gosto de ficar escutando, fiz a produção toda, claro que tem o meu grande amigo arranjador, Rafael Mallmith, que participou também do primeiro disco. Ele foi meu professor de violão, e agora consegui dar um pouco mais as cartas. Tentei gravar algo dançante, teve algo mais sentimental, tem um jazz também, e fui dando as ideias e a gente escolhendo o repertório. Tem músicas que já fiz há maior tempão, e outras que surgiram agora quando ia gravar.

Como você vê o mercado pra essa nova geração do samba e a cena cultural da rua que está fora da mídia?

Acho que o samba tá na moda. Maior galera indo pras rodas de samba que cada vez mais surgem por aí no Rio inteiro. Mas claro que o mercado é sempre muito difícil, de nichos, competitivo… Acho importante tentar acostumar o público a pagar algum tipo de ingresso, mesmo que seja com um valor colaborativo, se não fica difícil e a conta não fecha. Temos despesas como som, segurança, garçons, DJs e obviamente o cachê dos músicos.

Mas você não vê uma movimentação forte de rodas de sambas nas ruas do Rio?

Tá na moda, né. A galera da zona sul com mais grana está indo ao pagode, o Centro da cidade está tomado por um monte de movimento, inclusive o Sambachaça. Mas isso é muito complexo, não é um assunto simples. Muita gente que frequenta roda de samba gasta uma prata bebendo heineken o evento todo e quando tem que pagar R$ 10 reclama. Você faz um evento de graça e se passar um chapéu pedindo PIX a galera te dá R$ 2, tá ligado? Já fiz evento de quinhentas pessoas e o chapéu arrecadar menos de R$ 3 por cabeça. A galera quer que o cara cante samba de graça para sempre, e ainda tem quem me julgue por isso. Me vê comendo um camarão e já julga por playboy… Vieram discutir comigo no instagram porque eu estava fazendo aula de tênis, que virei playboy e perdi a essência. Os caras querem o sambista ferrado, bebendo 51 no balcão até morrer. Não sabem que para produzir um álbum gasta R$ 40 mil. Meu pai não tem dinheiro para pagar um disco.

E a expectativa é reverter esse investimento em monetização no streaming?

Vamos fazer eventos e divulgar o show, tem uma distribuidora de Nova York que me ajuda nisso. Mas voltando para um assunto importante, você chega nas rodas de samba da cidade, principalmente as que estão mais hypadas, elas tocam o mesmo repertório. Essas músicas de sucesso são lindas mas já tocaram demais, precisamos escutar outras coisas.

Muitas rodas têm uma característica rítmica mais acelerada, diferente da sua…

Mas a vida não é tão rápida, você acorda e vai até apressado ao trabalho, mas chegando em casa quer dar um relax. Tem momentos que você quer apressar, ficar doidão, ir pra rua e zoar e outros ficar reflexivo e calmo. A galera que está nessas rodas só conhece as músicas mais famosas e até os músicos mesmo. Ouve as músicas do Reinaldo, vê se é nesse andamento que está tocando, parece que todo mundo quer ficar ligadão. Tem que ter um tempo para tudo, o trabalhador chega faz um jantarzinho pra mulher e quer ver uma novela. Ficar em casa tomando o seu chopp e relaxando com outro ritmo.

Você canta muito a malandragem, as ruas e a boemia, por quê?

Desde garoto sou muito observador da rua, meu avô trabalhou a vida inteira de taxista e sustentou a família durante décadas, meu pai era policial, são profissões de rua. Tem aquela filosofia de que você mergulha no rio e ele não é mais o mesmo, escrevi isso na música com o João Martins: “As ruas nunca são as mesmas, as esquinas jamais serão iguais”. A gente está aqui no Largo da Carioca tomando um chopp, amanhã você volta e o camelô que está ali vendendo um sapato já pode ser outro vendendo bala, o cara do jogo do bicho não está mais, o muro pichado já foi pintado, tudo muda.

Foto: Marcelo Costa Braga

O [Luis Antônio] Simas falou da sua contemporaneidade antiga, por que essa paixão pelo velho?

Canto coisas antigas, mas que são novas também. O D2 fala numa música: modernizar o passado. Olha como os caras se vestiam antigamente, sapato bicolor, boina, camisa de linho. É maneiro você visitar o passado, mas viver o atual. No livro do João do Rio, A alma encantadora das ruas, são aulas como se você tivesse lendo um jornal de 1902. Tem uma crônica sobre um tatuador na Praça XV foda. Em 1920 já existia taxista, tipo aquele filme Meia noite em Paris, do cara voltando no tempo com os artistas. Daria o meu dedo para acordar de rolé cem anos antes, mas também tem muita coisa ruim né, porque muitas coisas com o tempo melhoraram.

As suas letras falam de política, mas não explicitamente. Você na abertura desse álbum faz um manifesto citando as correntes quebradas e as flechas em referência aos escravizados e indígenas pelos nossos ideais.

Está intrínseco no meu trabalho. Não curto fazer nada escrachado também, gosto quando, independente do pensamento político, as pessoas gostam da minha música. Se um bolsonarista gostar da minha música eu acho muito maneiro, se ele gosta de rua e dessas coisas e é de extrema direita é porque foi influenciado por alguma coisa errada. Acho bizarro um artista de um modo geral não ser de esquerda, porque nós sempre fomos contra tudo e todos. Tinha guilhotina para os artistas, o governo não quer um povo que pensa e sim marionete. Até já fiz músicas mais políticas, mas nunca lancei.

Mas isso por uma questão de mercado ou de liberdade poética mesmo?

Nunca fiz música para o mercado, mas se uma grande empresa me encomendar um samba eu faço na hora porque é o meu ofício. Por outro lado, já acho errado não se posicionar numa eleição como foi a última. Postei várias coisas, sempre votei no Lula. Mas muito dessa galera que cobra uma posição e diz que você não é de esquerda chega num samba e te trata mal, tira para garoto e não te chama para cantar um samba.

Faz parte da cultura das rodas essa coisa da canja, o próprio Renascença do Samba do Trabalhador que você frequenta tem gente lá toda segunda dando uma palhinha…

Quais as perspectivas desse teu álbum agora na sua carreira musical?

Esse disco foi feito com muita atenção, detalhes, cheio de referências e vamos ver o que as pessoas vão achar do trabalho. Costumo falar que penso no hoje e no mês que vem, daqui a um ou dois anos, esquece. Esse disco traz uma cultura de rua, fala com o hip hop.

Foto: Marcelo Costa Braga

O que o samba representa para você?

O samba vem do tempo de descanso dos negros, paravam ali para tomar uma pinga e festejar depois da correria. A galera não está na rua bebendo direto achando que a vida é uma beleza, pelo contrário. É para esquecer o dia a dia difícil e se divertir, curtir um som, beber, encontrar pessoas. Fugindo da realidade desde que começou o samba no Rio de Janeiro com a Tia Ciata, João da Baiana, Donga, eles faziam samba, mas vários eram estivadores na beira do cais pegando peso o dia inteiro e samba para aliviar. Tem a música do Cartola, Os tempos idos, que fala isso: pelos salões da sociedade, conseguiu penetrar o municipal depois e percorrer todo o universo. Isso é muito foda, é o samba.

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