Foto: Jennifer Glass / Divulgação

31 de outubro de 1980. Há 40 anos, numa Mesa de Trabalho no Teatro Oficina, Lina Bardi desenhava seu Projeto do Teat(r)o Oficina virado Terreiro Eletrônico. Otavinho Frias, que estava lá na ocasião pra uma Entrevista da Folha, sai por um momento para atender a Porta. Era um Oficial de Justiça que nos entregou um Documento da Proposta de Compra do Teatro, feita por Silvio Santos aos Proprietários do Terreno, dando a nós, à época, locatários, a Preferência de um Mês para Compra, com a Entrada de Cr$2 milhões de Cruzeiros. 

Nem pensamos: Botamos a Boca no Mundo. 

Partimos para Ação: Organizar um Show pra levantar o Dinheiro de Entrada, no Ginásio do Ibirapuera, com Artistas Populares. O Apoio Concreto de Milhares de Pessoas foi Imediato. Para essa Proeza, foi armado um Mutirão que também incluía a Mídia. Paulo Francis, no apogeu de sua Escrita da Crueldade, fez dois artigos decisivos y no Dia 30 de Novembro, um mês depois da chegada do Oficial de Justiça, quase 15.000 pessoas pagaram Cr$ 200 Cruzeiros pelo Ingresso no Ginásio do Ibirapuera, pros Shows de Zé Keti, Marlene, Emilinha Borba, Caetano Veloso, Gilberto Gil, a Divina Sandy Celeste com Plumas y Penas Indígenas, Edgar Ferreira, Surubim Feliciano da Paixão y seus Cirandeiros, Pepeu Gomes, Baby Consuelo, o Cineasta Noilton Nunes, o Gênio Gilberto Vasconcellos, o Arquiteto Edson Elito, a Grande Atriz Célia Helena, Ítala Nandi, e, pasmem, Regina Duarte… 

Foi uma Festa de Carnaval pra Valer. 

Levantamos quase Todo Dinheiro que precisávamos. Recorremos aos Grandes Bancos de SamPÃ para pedirmos os empréstimos para arrecadar o restante do Valor da Entrada. 

Fomos também até Brasília, mas ainda era o Homem a Cavalo: General Figueiredo Ditador Presidente, então, nada feito. 

Com o dinheiro compramos uma Câmara U-matic, q o Cineasta Fernando Meirelles trouxe do exterior, y passamos a fazer como os Índios, que cercavam em Roda os Personagens Públicos com suas Câmeras de Vídeo, cercando os brancos do Poder, y passamos a exigir a nossa “demarcação” das Terras do Bixiga. 

Silvio Santos, devido ao Movimento que criamos, como ele mesmo afirmou: desistiu de Comprar o Oficina. 

Até 2016 fomos protegidos por Todos os Órgãos de Proteção do Patrimônio Cultural: O Condephaat, Presidido pelo Geógrafo Aziz ab‘Saber no ano de 1982, tombou a Serra da Juréia da Mata Atlântica y o Teat(r)o Oficina. 

Ele percebeu o Entorno do Oficina, tombando seus 300 metros que vão do Castelinho Vazio da Brigadeiro até a Rua Major Diogo, da Casa de Dona IaIá ao TBC: O Vale Frutífero Verde do Rio Bixiga. A área é maior que o Terreno de Silvio Santos no Entorno. 

O Pianista João Carlos Martins, Secretário da Cultura do Estado de SP, assinou o Tombamento. 

O Pintor, Cenógrafo e Diretor de Teatro Flávio Império, escreveu o Laudo do Tombamento a partir da História dos Espetáculos do Oficina, onde ele havia criado Impressionantes Cenografias, afirmando que no Oficina, Cada Peça é um Novo Teatro. Esta sua Argumentação apoiou a Arquiteto Lina Bardi – como fazia questão

de ser chamada – presente na Reunião ao lado da sua Maquete do “Novo Teatro Oficina Terreiro Elêktrônico”, à Transformação Radical do Espaço: “Chão de Terreiro com Galerias da Ópera de Milano, dando pras Catacumbas de Silvio Santos”: um Teatro de Estádio acompanhando a topografia do Terreno do Entorno, como a dos Teatros Gregos, o que hoje resulta no Teatro Parque do Rio Bixiga. 

Criado por um Coro de Arquitetxs y Artistas da Companhia, o Teatro Parque dá à Luz ao Rio Bixiga, tanto tempo soterrado, em meio a um Vale Verde com Arquibancadas como as de Machu Picchu. 

Até o Golpeachement de Dilma em 2016, todos os Órgãos de defesa do Patrimônio: Iphan, Condephaat, Conpresp, protegiam este Entorno. 

Com o Golpe, o Mercado toma os órgãos de proteção e decreta o Fim dos Tombamentos. Antes, contracenávamos com Silvio Santos, que chegou a fazer um Comodato com o Oficina. 

Montamos no Terreno uma Tenda de 2.000 Lugares pra fazer 4 Peças das “Dionisíacas”. Um Circo pra “Macumba Antropófaga”, Um “Nick Bar” para as 5 Peças que fizemos sobre a Grande Atriz Cacilda Becker. 

Depois do Golpe, Silvio Santos torna-se nosso Inimigo Público. 

A Câmara Municipal passa a discutir a aprovação do “Parque do Bixiga” que é aprovado pelas Comissões y duas Vezes na Plenária de Vereadorxs quase q por unanimidade. 

Nos dirigimos à Prefeitura de Bruno Covas para aprovação final do Projeto. Bruno estava no Hospital e quem estava em seu Lugar era o Vereador Eduardo Tuma, que Vetou o Projeto que ele mesmo havia votado a favor duas vezes na Câmara. 

O Veto, interrompeu o Curso de um Movimento que envolve o apoio de 27 vereadorxs co-autores do projeto da Câmara de São Paulo, y 10 partidos diferentes. Um abaixo-assinado com mais de 400 Entidades, Instituições e todo um cordão de aliados em torno de uma das lutas urbanas mais extraordinárias protagonizadas pela Cultura, foi levado à prefeitura num ritual de desmassacre, de nós, e do rio bixiga. 

A Razão deste Texto é Retomar o Movimento das Milhares de Pessoas que diante de uma ameaça grave em 2017, abraçaram o Parque, chamando atenção, com os corpos presentes, para salvaguarda deste chão do Bixiga, que está ameaçado de extinção tanto pelas Torres do Grupo Silvio Santos, quanto pelos lançamentos de 

dezenas de Torres aguardando aprovação ou já aprovadas (muitas durante a pandemia) pelo Aprova Rápido da prefeitura, que acelera a liberação de alvarás na velocidade massacrante do Mercado. Se forem aprovadas essas torres que arranham os céus, o Bixiga, seu Patrimônio Ambiental, Cultural e Arquitetônico, deixarão de existir em poucos anos. A Tragédia está anunciada, mas é possível ser Interrompida. Este é o Objetivo deste Documento. 

Com a Pandemia, tivemos que interromper a temporada de mais de um Ano de Teatro Oficina Lotado com o espetáculo “Roda Viva”. Mas todas as Pessoas que trabalharam nesta Peça: Atrizes, Atores,Técnicxs, Funcionárixs, continuam ligadxs em Trabalhos Virtuais, Lives, Encenações na precariedade radical do Zoom, que não é Teatro, e no Parque do Rio Bixiga em movimento, que não parou, fortalecendo com a pandemia a musculatura de suas alianças em encontros-lives-aos-vivos.

Nos preparamos para montagens no Teat(r)o Oficina: sob a direção da Monique Gardenberg iremos Filmar “Esperando Godot”, de Samuel Beckett. Camila Mota prepara a “Mutação de Apoteose”, espetáculo criado para abertura da Flip (Festa Literária de Paraty) do ano passado y q será remontado no Teat(r)o Oficina pois o que precisamos agora, depois de tanto massacre do corpo, é uma Apoteose de transmutações. E eu estou trabalhando no dificílimo e maravilhoso texto de Antonin Artaud: “Heliogabalo” o deus Pagão do Sól. 

Dia 30 de novembro, Lua Cheia, 40 anos depois do “Domingo de Festa”, vamos comemorar como pudermos diante da Árvore Cezalpina, plantada pelas mãos de Lina Bardi no Jardim do Oficina: É a Árvore Mãe do TEAT(R)O PARQUE RIO BIXIGA Grande Inspiradora desta Epopeia de que tanto nos Orgulhamos. Durante os Últimos 40 anos, contracenamos com o Grupo imobiliário Silvio Santos, que não teve força de construir nada que impedisse a Luz do Sol, a Lua, as Chuvas e o Bixiga, de fazerem parte de nossas Encenações – e não terá! 

Desejo Forte que Caia o Veto da Prefeitura. 

A Experiência da Tragédia de Agressão à Natureza trouxe a Tragédia do Coronavírus. Como escreveu Euclides da Cunha: 

“O Martírio da Terra é o nosso martírio”. 

Não é possível que todo esse tempo de quarentena não tenha tocado os que, por enquanto, seguem como sobreviventes. 

O Teatro Parque do Rio Bixiga é uma resposta a esta Tragédia. 

2021 é ano de revisão do Plano Diretor, bússola pro destino da Cidade de São Paulo para a próxima década. O Teatro Parque Rio Bixiga precisa ser compreendido e incluído neste plano como um território Especial de Proteção Ambiental e Cultural. A Criação deste Parque cumpre uma função ambiental clara, y se a Cidade acumula Tragédias Ambientais y Doenças pela escassez de Áreas Verdes, é Obrigação dos Órgãos Públicos criar mais Áreas Verdes, traçar um Plano de Reflorestamento Urbano y de Recuperação dos Biomas. 

A Árvore Musa plantada por Lina, que atravessou os Limites do Terreno y derrubou o Muro, repíto: traz a Inspiração pra esses 40 anos de Luta ao lado das forças da natureza que somos também nós: o Sól, a Lua, o Ar, a Terra, a Água, o Verde, os pássaros, as abelhas, o teatro… somos todos um povo em luta pela VÍDA! 

Zé Celso 

Paraíso, Novembro de 2020 

MERDA

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