A tragédia anunciada em Capitólio, município de Minas Gerais, nos mostra que vivemos tempos extremos. Esperamos atos extremos para enxergarmos que algo não está certo.

Imagem de reprodução na internet

Por Isabelle Medeiros de Freitas*

Os fatos vivenciados no ultimo ano (2021) são muitos concretos para identificarmos um período repleto de extremidades. As queimadas quando ocorreram, por exemplo, foram muito fortes. A seca, quando veio, gerou grande estiagem, isso naturalmente geraria uma compensação natural, ou será que ninguém pensou que não? Chegamos até mesmo a ver fortes geadas que atingiram a principal região produtora de café do Brasil, o sul de Minas Gerais, essa mesma região que presenciou o último acontecimento, devido ao alto e previsível período de chuvas. E não pensemos que isso não esteja interligado ao dia a dia de cada um de nós, pois está, e principalmente sobre aquilo que chega a nossa mesa. Basta olharmos para uma das bebidas mais consumidas no país, o café, que gradualmente bate recorde de preços, com efeito direto na economia e no bolso do brasileiro, justamente por sua produção ter sido dificultada, vejam só: ora pela inflação, ora pela falta de política pública, ora pelo clima, ora pelo fato do agronegócio cavar a própria cova.

 

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Há algum (bom) tempo, tem sido anunciada a necessidade de se debater o clima que, atacado pela ação do homem, tem ocasionado cada vez mais acontecimentos extremos para a humanidade. O acontecido nos Cânions de Capitólio não é uma exceção. É preciso debater a emergência climática no interior de nosso país!

O agravamento da La Niña, fenômeno climático capaz de aumentar drasticamente a quantidade de chuvas, é um dos fatores básicos que induziram para que o desprendimento da rocha acontecesse. Conforme podemos ver a seguir, no período do acidente (08 de janeiro de 2022) foi previsto o equivalente a 78.9 mm de água, do qual, caracteriza-se como um volume razoavelmente grande de chuva, o que facilitaria a pressão hidrostática sob a rocha, e consequentemente o rompimento e movimentação do bloco. Ou seja, as fraturas se encharcam de água e fazem com que a rocha se solte, ação essa gerada em decorrência do processo de intemperismo químico.

Acumulação de água no local do acidente. Fonte: Windy.com

 

Como ocorrem os tombamentos de bloco. Autoria: Rubson Pinheiro Maia – Universidade Federal do Ceará.

Importante ressaltar que, não apenas as forças exógenas atuaram aqui, mas os impactos aconteceram principalmente sob o comando da ação antrópica. Essa região, popularmente conhecida por ser uma ampla área de navegação turística, geram diversos ruídos, sejam eles hídricos, através do movimento dos motores dos barcos na água, e do próprio percurso da água em si, já que os vales são formados pelos rios existentes, ou sonoros, devido a música propagada em volumes absurdos pelos turistas nas lanchas. Agora pensem: isso acontecendo todos os dias, e multiplicado na alta temporada. Sim, altos impactos diretos por todos os lados.

Ao falarmos dos Cânions, falamos de um imenso maciço rochoso devidamente resistente, que possuem estruturas de quartzitos, cuja formação ocorreu há milhares de anos de forma lenta e natural, e nada mais são do que formas do relevo, onde vemos vales profundos, bonitos e imponentes. Dessa forma, qualquer fração de rocha não se desprenderia se não fosse por um acúmulo de fatores e estímulos, acúmulo esse que ocasionou em uma fratura visualmente notável desde meados de 2012, conforme na foto que ilustra o início deste texto. Porém, o turismo de massa resultou no que conhecemos de mais predatório e imprudente, fazendo com que diversas irregularidades fossem presenciadas por meio do uso do espaço, das construções civis em torno da área, da falta de assistência e direitos aos trabalhadores locais, do aumento de trabalho informal e da própria exploração destrutiva (antes do represamento havia uma pedreira, para exploração e extração de quartzo próximo deste local, hoje inativa).

Essa fórmula de uso e apropriação do espaço pode ser alterada. É preciso parar o desmonte de órgãos de conservação, monitoramento e fiscalização, cumprir as legislações ambientais e realizar, com os devidos profissionais da área, estudos mínimos, pois, tragédias como essas não ocorrem do dia para a noite e podem ser evitadas. E estas não são evitadas com a ganância humana, negligência, irresponsabilidade e um péssimo espectro do Governo Federal (leia-se também o atual Governo do Estado de Minas Gerais) que reverberam a forma mais pejorativa sobre essas pautas. Tragédias assim são evitadas com pesquisa, planejamento e prevenção ambiental. É possível fazer turismo de maneira sustentável e muitos lugares do Brasil podem ensinar sobre isso, com ações que respeitem os moradores locais, coloquem limites entre sociedade e o ambiente com consumo consciente e com propostas reais que façam gradativamente a economia acontecer de forma exponencial, com o mínimo de impacto negativo, já que a pauta econômica por aqui nessas situações é sempre usada como amuleto, então, mais do que urgente que utilizem de outras formas para sustentá-la.

Por fim, não façamos de Minas Gerais o cenário nacional dos desastres. Paremos de utilizar isso como metodologia produtiva, só em razão do capital. Não esperemos a próxima tragédia acontecer, nem tenhamos mais que consolar aqueles que perdem um ente querido para lembrar que o dinheiro pode estar acima de tudo, mas não está acima da natureza, e tão pouco que a paisagem é estática, pois não é, segue em constante transformação. E nessa transformação não há recurso que esteja acima das mudanças naturais e climáticas, acima de nossas vidas.

É necessário alterar os rumos da crise climática, civilizatória, política, cultural, estética, econômica e social no Brasil. Por natureza, precisamos deixar de ser um país colapsado.

Isabelle Medeiros de Freitas colabora para a Mídia NINJA, é fotógrafa, mãe e geógrafa formada pela Universidade Federal de Alfenas.

 

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