Imagem: Divulgação

Por Max Maciel

Domingo, 19 de janeiro de 2020. Um morador de condomínio faz pedido por um aplicativo e o motoboy, como de costume, leva. Nessa, outro morador incomodado com a presença do entregador em frente ao condomínio começa a discutir. Enquanto alguns alegam que ele xingou o morador, outros dizem que, em estado exaltado, o morador não queria o motoboy em frente à portaria.

O motoboy não saiu e a partir daí começou-se a discussão. O morador, policial militar do DF, estava de folga e usou sua arma – ou arma do serviço – para agredir e ameaçar o entregador. Após ser filmado, as imagens se espalharam pelas redes em defesa do motoboy e denunciando a ação desproporcional do policial.

Indignados com o ocorrido, os amigos que rodam de moto o dia inteiro para que a sua comida chegue, se solidarizaram com o motoboy e realizaram protesto em frente ao mesmo condomínio. Como resposta, outros policiais começaram uma caçada para desacreditar e perseguir os mesmos. 

Policiais começaram a ir na casa do agredido no domingo e dizer que a moto dele era clonada. Os familiares dizem que a denúncia da irregularidade foi feita dia 19, mesmo dia do fato e que, em blitz naquele dia, não encontraram nada. Uma história ainda mal contada. O fato é que prenderam o motoboy envolvido na confusão.

Vejam só como é a construção dessa narrativa e como mudaram o foco das coisas. No domingo, motoboy é agredido por policial de folga que aponta sua arma para intimidá-lo. Hoje (22), o motoboy encontra-se detido por suspeita de moto clonada. Daí uma galera esquece o fato do domingo e só valida o de hoje.

A ação desproporcional de domingo não tinha nada a ver com a moto. Isso só veio depois e sabe por quê? Porque é este o modus operandis. Desacreditar quem denuncia para proteger a corporação. 

A partir de conversas em grupos do WhatsApp que vazaram, descobriram que amigos do PM resolveram fazer blitze e parar todos os motoboys, como forma de intimidá-los e demonstrar força. Ao fazer isso eles deixam em evidência um corporativismo que é conivente com a violência e com a repressão ao povo.

Infelizmente essa conduta prevalece por todo o país. Por isso, eles sempre perguntam se a pessoa tem “passagem” ou procuram qualquer artifício para reverter a narrativa e fazer valer a máxima de que quem tem ficha na polícia “merece” apanhar, sofrer, morrer. A desumanidade com que a sociedade trata as pessoas remete à barbárie de tempos antigos. E hoje, esse Estado Penal está cada vez mais fortalecido e totalmente despreocupado em seguir leis, buscando justificar seus atos dizendo que estão a serviço delas.

Não estou defendo o erro do motoboy, caso o tenha cometido, pois sabemos que cada um deve arcar com os próprios erros, certo? Mas, se isso é verdade, fica o questionamento: o policial vai arcar com o dele? Será que terá sua arma apreendida e ficará fora das ruas pelo uso desproporcional da força? Aguardemos.

Max Maciel é ativista de Ceilândia (DF), pedagogo, empreendedor social e especialista em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça pela Universidade de Brasília.

 

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