Foto: Afroafeto / Divulgação

Pra começar, queria compartilhar que eu nem sempre fui gorda. Na minha primeira infância minha mãe me levou ao médico e comecei a tomar medicação para uma doença glandular. passei anos como a criança magra dos joelhos ossudos. Passado dos 11, 12 anos, os remédios foram suspensos e de lá pra cá o sobrepeso natural genético voltou. E aumentou.

Com os quilos, vieram uma série de novas atitudes para “compensar” o corpo que claramente decepcionava meus pais. Andar de lado sempre que possível e usar roupa apertadas (porque tinha pavor de que minhas amigas vissem minha roupa grande dobrada e me achar enorme) andavam lado a lado com me forçar a comer em público mesmo sem fome porque “quem eu queria enganar dizendo não pra comida sendo gorda?”. 

Por outro lado o esforço dos meus pais para me manter na escola particular através das bolsas de estudo abriram as portas para numa comunidade branca de que eu era até então protegida. Eu me entendi negra depois dos 20, mas até lá eu sabia que branca, eu não era. Meu cabelo não era liso como o da nayara, meu nariz não era fino como ju e a maior parte da interação que eu tinha com meninos era ou recebendo bullying ou tentando amedrontá-los para que deixasse meus irmãos mais novos em paz. 

Gorda e negra. Pra minha bolha atual parece que não, mas pra muitos lá fora a conta é “gorda + negra = masculina”. Esse é um termo em amplo debate hoje nas comunidades de mulheres que amam mulheres, por entender que determinar que um grupo de ações como masculino e outro como feminino só serve ao binarismo, mas era assim que me contavam em Cuiabá no começo dos anos 2000. 

Então crescer “uma mulher masculina” me fez ter uma relação de amor e ódio com a feminilidade. Não podia gostar de rosa, de vestido, de cozinhar. ao mesmo tempo que só poderia gostar e ficar com meninos que fossem viris, para validar que sou uma mulher, ou com mulheres muito femininas, para encaixar de vez no padrão da masculinzadah. 

O resultado de tudo isso é muito trauma, fantasma e um montão de tempo coletivo gasto para superar. um exemplo digital disso pode ser visto nas postagens da Tia Má e da Lua Xavier sobre o que é sustentar o amor pelo próprio corpo, sendo preta-gorda. por isso, é importante fazer conteúdo que poupe novas gerações do mesmo desgaste. 

Felizmente, nossas experiências não são únicas. Enquanto minhas pernas roliças corriam com meus primos no pedra 90, bairro periférico de Cuiabá, o mesmo acontecia com Carolina de Oliveira Lourenço a 1.936,4 km dali, na comunidade Preventório, Niterói. 

Pelo vídeo em que ela anuncia sua nova música, vejo que temos histórias comuns e vendo o clipe de “levanta mina”, tenho certeza. Logo nos primeiros segundos, o semblante da cantora me lembra a “cara má” que tive que aperfeiçoar ao longo dos anos para evitar os olhares sob o meu corpo na rua. E daí pra frente as coincidências são inúmeras, principalmente porque o próximo take é um sorriso fofo ostentado embaixo de uma coroa. 

Se eu sou a MC Carol, as mulheres retratadas são um pouco de cada mana que cruzaram nossa trajetória. Os corpos de Rih de Castro, a Samanta Quadrado, Bia Marques, Samara (e não Yago), Niedya Lobato e Dani Lima fazem a vezes das minhas primas, amigas e parceiras que ao longo da vida também tiveram que lutar contra uma narrativa que deixava marcas mais profundas que um cancelamento nas redes. 

“Levanta mina, olha pra cima, sente esse clima – hoje vamos exalar poder” é um convite direto e simples, para perceber e celebrar nossas potências. Mas também é puxão de orelha porque tem “gente rude comendo hambúrguer e falando da minha saúde”, e um desabafo porque é “difícil estar feliz com essa cicatriz”. 

Com uma letra honesta, saímos da música sabendo que não tá tudo pronto e o convite “agora senta, aceita e me assiste – se amando na praça, de biquíni na praia, dançando na balada, feliz e casada”, parece ao mesmo tempo uma conquista e uma promessa que fazemos a MC Elis, rainha dos momentos finais da música representando a próxima geração. 

A faixa parece soar diferente de tudo que MC Carol apresentou até agora, mas na verdade é uma peça colocada precisamente na narrativa musical da funkeira. aqui não vemos só uma mulher comentando o quão “submisso” é o seu namorado, ou que é ela quem diz quando o sexo acaba. Vemos uma Carol completa, com as cicatrizes expostas, mas em processo de cura.

Para um ouvido mais treinado nas lutas por direitos humanos os versos podem até soar obrigatórios – “cadê as gay, cadê as pretas, cadê as gordas na capa da revista “, mas é uma realidade distante da que vemos quando zapeamos entre os canais da tv, mesmo que já comece a ser visto no for you do tiktok. 

Volta e meia falo que o conteúdo que a gente faz na NINJA e que outros parceiros põe na roda, são conteúdos que seriam referência para a pequena dríade que teve como babá a t.v. aberta nos anos 90. tempo ou outro também posto foto da lizzo mostrando como ela é uma referência estética para mim. Já falei também sobre a importância da arte que MC Carol faz, como ela desafia o que é ser mulher hoje e ser dona do seu corpo, desejo e poder. eu só não tinha parado pra pensar que isso tudo pode ser a mesma coisa.

Quando ouvi a música pela primeira, ia fazer a yag padrão de copacabana e gritar HINO, mas outras vozes me atentaram na verdade que ela é um “canto de passá”, uma música que resume a nossa maturidade coletiva. é coro entoado durante nosso ritual de passagem – e depois que chegamos aqui, ninguém tira.

Por isso, levantar minas é uma uma sentença inescapável, uma celebração infinita e uma promessa. Vamos junto, carolina.

 

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