14 de dezembro de 2020. Quase nem acredito que estamos no fim da primeira quinzena de um ano que parecia que não ia acabar. Mas não é só um dia antes do quinze de qualquer dezembro. É 14 de dezembro de 2020.

Hoje é aniversário de Dilma Rousseff. Li em algum lugar que quando ela era criança, queria ser bailarina. Ou bombeira. Acabou sendo presidenta. A primeira mulher. E ser mulher foi definitivo em sua trajetória. Em tempos em que tiktokers fazem vídeos defendendo que não foi da mulher o mérito do voto feminino, Dilma levou um golpe por, entre outros motivos, ser mulher. 

Li também que dilma gostava de Game of Thrones, jogava volêi na adolescência e quando presa, cozinhava para as detentas. Procurei e falo dessas coisas porque eu prefiro isso a lembrar que ela já deu uma entrevista dizendo que “As marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim”.

Como toda mulher que aprecia a democracia, tenho algumas memórias de/com Dilma. Lembro o dia que estava em seu palanque representando a NINJA num comício de juventude onde ela, ao sair do palco, parou, apertou minhas bochechas e disse que adorava meu cabelo roxo. Lembro de uma hora antes disso, quando ela tentou dançar o passinho no backstage.

Lembro da família ninja erguendo outro comício, histórico, em Itaquera. Lembro dos memes e articulações feitas pra pôr no ar a Primavera com Dilma, lembro dos cotovelos nas costelas para os ao vivos, lembro da trilogia de mini-documentários que fizemos durante a luta contra o golpe. 

Hoje é aniversário de Nívia Luz. Baiana, Nívia quando criança queria ser astronauta. Ou engenheira. Acabou sendo turismóloga. e mãe de santo. Recebeu a missão aos 32, uma das mais jovens que eu já tinha ouvido falar. E depois fiquei sabendo que era uma das mais jovens do Brasil mesmo.

A frente do terreiro Ilê Axé Oyá e CEO do Instituto Oya de Arte Educação, de Nívia (que costumo chamar nívia de mãe-irmã) eu também prefiro lembrar dela apertando as bochechas do meu sobrinho e rindo da nossa cara porque pra ela, ele sorria e pra gente não, do que das histórias onde a intolerância religiosa bateu, literalmente, à sua porta. o ilê fica em pirajá, periferia de salvador, entre igrejas evangélicas, descaso do governo e exploração ambiental.

Ao lembrar dela, lembro das idas ninja ao terreiro. Dos banhos, das oficinas que demos no barracão, das aulas dela sobre as ervas plantadas no quintal, do drone no alto pra acompanhar o presente de oxum, das lentes focadas nos detalhes dos trajes do cortejo afro no carnaval, dos doces que comi sentada nas escadas e do almoço de dois de fevereiro que servimos pra ela na Casa NINJA Bahia.

Hoje é “aniversário” da execução de Marielle Franco. Uso a palavra aniversário apenas como recurso narrativo, já que não há nada pra comemorar na data que marcam dois anos e nove meses sem Mari Franco. 

Na semana passada foi o marco de 1000 dias sem ela e dela, preciso me esforçar pra lembrar algumas coisas. A última frase que ela me disse foi “pera que vou ali resolver”, quando os grupos de mulheres se desentendiam com as outras na marcha do 8 de março de 2018. 

Eu acho que o cabelo dela ainda tinha as luzes loiras que ela balançou de um lado pro outro rugindo igual leoa enquanto fazia piada no dia do seu último aniversário na Pedra do Sal. Naquele dia ela apertou meu ombro e disse “vamo negona, é dia de samba que amanhã a gente tem que derrubar o inimigo de novo”.

Lembro que uma semana depois do encontro no seu aniversário ela estava em uma das nossas casas pra gravar sua coluna na NINJA. E depois veio sua equipe para ter uma oficina conosco sobre transmissão ao vivo. Depois ela voltou de novo e fez um programa todinho no nosso estúdio. Isso tudo depois de termos feito o famoso vídeo nas ruas da Maré durante sua campanha em 2016. 

Mesmo assim, as memórias estão um pouco misturadas entre o que ela gritava no megafone nas ruas do Rio de Janeiro nos atos com o choro coletivo alto que ecoou nas escadas da cinelândia. Entre o que ela fez em vida e o legado que criamos juntos depois de sua morte. 

Mas tem uma coisa que eu me lembro muito bem de dizer enquanto gravávamos “Cartas para Marielle”, uma semana depois de 14 de março de 2018.

Eu prometi que queria fazer conteúdo que fizesse a gente feliz. 

Fiz essa promessa baseada na culpa que sentia por dizer “corta, fechamos!”, para uma dezena de mulheres que choraram diante das câmeras NINJA enquanto respondiam “como você conheceu Marielle?”. A produção era porque, como mulher negra produzindo conteúdo, tinha medo que apenas pessoas brancas contassem a história de Mari. 

Mas olhando para as três mulheres que dão significado para esse dia, percebo que desde o dia 23 de março de 2013, data da fundação da NINJA e, na verdade, desde uma década antes, já vinhamos cumprindo essa promessa.

Entre os pacotes de dados segurando por um fio os ao vivos das manifestações aos acampamentos em que dormimos, aldeias em que batemos o pé no chão, ocupações em que montamos a cozinha, atos que planejamos, cobrimos e limpamos, viagens longas para cobrir congressos, encontros, seminários, longas horas de design, fotos e vídeos gravados, reuniões igualmente longas para elaborar tudo isso, entrevistas, gliter insistente grudado no suor, traduções do português pro espanhol e depois pro inglês, eventos nas casas, festivais, festas, blocos de carnaval, desfile das escolas de samba e churrascões diferenciados…

…em cada clique, corte, glitch, bolinha vermelha piscando, número do fim das páginas digitais, tweet, post, edit, em cada um deles vejo os dedos da autoria coletiva da ninja, mas para além disso, vejo a nossa promessa cumprida: conteúdo que nos deixa feliz.

Então esta é a minha resolução de fim de ano e minha promessa de ano novo. Seguir fazendo conteúdo que nos deixa feliz. Seguir por Dilma, Nívia, Marielle. Seguir ninja.

Até porque, amanhã é dia 15 de dezembro de 2020.

Aniversário de uma das nossas crias, Odara. 5 anos. ela disse quer ser escritora. Ou médica.

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