Foto: Mídia NINJA

Oi Cris, tudo bem?

A gente se conheceu tem pouco tempo né, há uns dois anos talvez? E começou porque estamos no mesmo grupo de zap. Daí nos vimos outras vezes por aí – lembro de uma festa que eu insisti pra você entrar na piscina com a gente, outra que a gente tava bebendo no Rivalzinho e o último encontro na casa de uma amiga em comum.

Mas a real é que a gente se cruzou há mais tempo – mais precisamente em 2011 quando você atravessou a avenida pela Grande Rio. E então o encantamento que você me gerou em 2013 quando assumiu a coroa da minha verde e branca de coração.

Eu confesso que tem um pouco de “bairrismo” – a gente tende a gostar mais das pessoas e coisas que estão próximas ao que a gente ama, fato. Então adorar a Rainha de Bateria da minha Imperatriz Leopoldinense não era uma surpresa. Mas era mais fácil por que era você – preta, retinta, cabelos pro ar.

Lá de Cuiabá, eu criança, assistia os desfiles na tv e assim de amores pela escola da Zona Norte do Rio de Janeiro. Uma das coisas que mais me tocava na escola era que ela era sem defeitos, fada sensata – tinha um apreço pelo técnico, por fazer o requisito e por isso ganhou o apelido de “Certinha de Ramos” e eu, canceriana careta caprica me identifiquei de cara.

E era GLORIOSA – em 1999 foi a primeira vez que a vi ganhar, e fez o mesmo nos próximos 2 anos seguidos, conquistando assim o primeiro tricampeonato da “era Sambódromo”. Isso tudo sob o reinado de Luiza Brunet (e este talvez esse seja meu único motivo de simpatia à modelo, nada contra também).

Por isso, Cris, ver você chegar corou meu amor pelo carnaval, pelo samba, pela Gresil. Me fez olhar mais fundo para sua história, pros seus enredos, pelos bairros. Até hoje eu não fui à avenida ver a minha agremiação passar, mas me sinto muito íntima de sua história.

Aprendi por exemplo, que a nossa escola madrinha, Império Serrano, emprestou pra gente as cores verde branco e mais tarde adotamos o dourado. E você ficava tão bem reluzindo essas três cores nas fantasias. Mesmo que juntar “fantasia” e “Império Serrano” numa frase em 2020 dá um amargor ao lembrar das baianas desfilando sem a saia semana passada. Cena triste para o carnaval, para nossa madrinha, para as mulheres negras.

Mas olhar para outras escolas é bom – Veja só, a Viradouro, que ganhou seu segundo título este ano, o fez ao homenagear as Ganhadeiras de Itapuã, grupo de mulheres negras que com o dinheiro que ganhavam no trabalho compravam a sua alforria e de outros escravos. Grande Rio falou de Joãozinho da Gomeia, babalorixá do candomblé. Mocidade elegeu ninguém menos que Elza Soares para cantar a vida e Beija-Flor falou de ruas, estradas, caminho e deu destaque para Exú na comissão de frente.

Quer dizer, as quatro escolas da elite do samba deste ano chegaram lá por conta da história de pessoas negras. Digo mais – todos os homenageados deste ano do carnaval do Rio foram negros: Benjamin, o primeiro palhaço negro e Jesus da mangueira completam a lista. Penso que tudo isso, todo esse reconhecimento para o que nós negros doamos a cultura brasileira é também um reconhecimento a você.

Então acompanhar sua história também foi uma forma de acompanhar a história do samba. Poxa eu fiquei tão feliz quando te vi de Juju Popular em Império, ver você atriz num personagem tão próximo ao meu imaginário sobre quem tu era foi emocionante. Mas não se preocupe – sei que você não se resume a uma personagem. Não tem porque e idealizar, até porque imagino que muitas pessoas o tenham feito ao longo da sua vida e a pressão sob o seu corpo deve ser brutal.

E sim, sei que somos diferentes. Temos corpos diferentes, eu sou Dríade, você é Cris. Tenho orgulho em ser eu, em viver em minha comunidade, assim como você encontrou a sua.. E sim, fico muito mais tranquila ao saber que as minas na frente da tv no final de semana de carnaval agora tem Joy Carol, passista gorda da Mocidade Alegre, pra ver, não só corpos esculturais pros comentaristas chamarem de mulata.

Por isso ter você, preta, é importante. E hoje, ter Iza preta é importante. Como a página Orgulho Afro bem pontuou: “O samba nasceu com descendentes de escravizados que vem da Bahia pra região portuária do Rio, morar numa área marginalizada chamada Pequena África (perto de onde está hoje a Pedra do Sal). Músicos que se reúnem, às escondidas, em casas de mães de santo, a mais memorável delas Tia Ciata. Porque podiam ser presos pelo simples fato de portar instrumentos de batuque. As escolas são a alternativa que o pessoal do morro, que não podia participar do carnaval luxuoso, encontra pra brincar os dias gordos. De 1932 (quando acontece o 1o concurso das Escolas de Samba do RJ) até hoje, as escolas tiveram que se adaptar ao mercado, ao governo, à mídia, e infelizmente, foram se branqueando”.

Por isso repito – ter você, preta é importante. Ter Ketula, é importante. Ter Iza é importante. Ter Evelyn Bastos na Mangueira é importante. Ter Dandara na Grande Rio, Bianca Monteiro na Portela, Raphaela Gomes na São Clemente, Julia Farias na Tuiutí, e as baianas, e as passistas e as portas bandeiras. É importante ter referências de mulheres negras na nossa cultura.

É você, são vocês na avenida, no bloco, nas ladeiras, que amenizam o fato de que trouxeram Lizzo, a única popstar gorda (do gênero pop, por favor) e fizeram um pocket show no Rio de Janeiro para um público restrito. O maior ícone, a diva mais jovem, de mulher preta gorda hoje, confinada numa apresentação de 30 minutos para um recorte de maioria branca, magra e do sudeste. É um desrespeito à arte da Lizzo, assim como um desfile sem vocês (nós) é um desrespeito ao samba.

Então, Cris essa é uma carta onde presto minha admiração por você. Pela verde branca e dourada, pelo samba, e pelas pretas. Esteja você Rainha ou curtindo o carnaval em Salvador.

Obrigada por existir, obrigada mulheres negras por me trazerem até aqui, até nosso próximo encontro
Dríade Aguiar, 28/02/2020

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