Por Samuel Fernandes

Fora dos holofotes por muito tempo, o Carnaval de rua de São Paulo chegou a ser considerado até inexistente. Mas já há alguns anos isso mudou e a festa em território paulistano ganhou maior atenção e atraiu foliões de diferentes partes do Brasil para curtir o Carnaval com uma roupagem que prestigia o que há de melhor na maior cidade da América Latina: a pluralidade.

Origem no samba

Apesar de sua notoriedade ser mais recente, a tradição dos blocos de rua de São Paulo não vem de agora. Em 1914, foi criado o primeiro cordão carnavalesco da cidade. Fundado pelos irmãos Dionísio e Luiz Barbosa, o Grupo Carnavalesco Barra Funda abriu as portas para a festa na cidade e, posteriormente, originou a tradicional escola de samba Camisa Verde e Branco.

Ecoando a tradição carioca, o samba foi o primeiro ritmo dominante no bloco, algo que se tornou prática comum também para os blocos que surgiram posteriormente, trazendo ritmos tocados com pandeiros, tamborins, batuques, reco-recos, cuícas e cavaquinhos, sendo um berço para o samba paulistano periférico.

No Largo da Banana (hoje, Barra Funda), o cordão tornou-se espaço de acolhimento e resistência para os trabalhadores ferroviários locais, que usavam o samba para animar seus cortejos e como um forte porta-voz contra os ataques da elite da época, que promovia acusações de “desordem” e confisco de instrumentos por parte de autoridades.

O crescimento do Carnaval de rua em São Paulo

Durante o período da ditadura militar, os blocos de rua da cidade sofreram forte repressão, fazendo com que a festa ficasse quase restrita aos desfiles de escola de samba e aos poucos blocos de bairro tradicionais, uma ferida na cultura paulistana que perdurou por décadas.

Com isso, a retomada do carnaval na cidade só foi ganhar força depois dos anos 2000 e 2010, quando, a partir de diferentes movimentos de redemocratização, o número de blocos, que não superava 50 nomes, passou a ser de mais de 750 em 2025.

Graças a isso, desde 2023, o Carnaval de rua de São Paulo é um dos maiores do país, recebendo, em 2025, mais de 16 milhões de pessoas, que tomaram as ruas de vários cantos da cidade para curtir, segundo dados da Prefeitura de São Paulo.

Essa é uma virada cultural que fez com que a festa conseguisse ocupar mais de 100 bairros, levando cortejos para todas as zonas da cidade, descentralizando, assim, o carnaval dos anos 2000, que se concentrava em áreas específicas, e passando a cobrir toda a cidade, sendo uma forma de resgatar a herança periférica.

Um bloco para cada gosto

Com a consolidação de São Paulo no cenário da folia, ano após ano, milhares de turistas passaram a ter a cidade como primeira opção, fazendo as vendas de passagens aéreas para o carnaval de 2026 crescerem 11% com relação ao ano passado, segundo o G1. Algo impressionante de se notar, quando se leva em consideração que a capital era considerada um destino pouco visado pelos foliões. Ou seja, o “destino evitado” tornou-se polo desejado.

Foto: Mídia NINJA

Duas das causas para esse cenário foram: a maior diversidade rítmica e a visibilidade de tribos culturais, que passaram a poder se enxergar e se conectar nessa festa que entendeu que as pessoas não querem ouvir suas playlists apenas no fone de ouvido, mas também nos espaços que ocupam.

Então, se para muitas pessoas o carnaval estava associado exclusivamente ao samba e aos seus desdobramentos, essa transformação cultural mudou isso, abrindo espaço para muitos ritmos, uns novos e outros tradicionais. Alguns desses exemplos são:

Culto nostálgico do rock e do MPB

Movidos pela memória afetiva e acompanhados de repertórios que marcaram gerações, aqui se encontra um potente eixo de diversidade. O campo do rock, um gênero historicamente associado à contracultura, é muito bem representado por blocos como o Ritaleena, que homenageia o rock nacional, e o Bloco Sabbath, que faz referência à banda criadora do Heavy Metal. Além dos Bloco Emo e Bloco 77,  os Originais do Punk, que trazem o ritmo emo e punk, respectivamente.

Na MPB, cortejos como o Chama o Síndico e o Filhos de Gil reafirmam a permanência de hits que atravessam décadas sem perder a força, numa festa onde diferentes gerações curtem ao mesmo som.

A atitude do pop latino ao hip-hop

Com presença da sonoridade urbana, mais blocos foram pensados para o que se ouve nesses meios. É o caso do bloco Besame Mucho, que leva ao carnaval toda a pulsação do pop latino e conecta a festa a esses circuitos culturais. No hip-hop, experiências como o Djongador O Bloco transportam para a rua a centralidade da rima, da batida e do discurso crítico, aproximando celebração e ativismo. Enquanto o bloco Jah É traz a cadência do reggae para ampliar o espectro sensorial da festa de rua.

Bloco Besame Mucho (14/02/2026). Foto: @adergotardo

Os circuitos alternativos do jazz ao eletrônico

O Carnaval é também campo de experimentação, portanto, não poderia faltar a presença alternativa na música urbana. No jazz, o Unidos do Swing leva às ruas toda a criatividade e sofisticação sonora do gênero em sua forma mais popular, com harmonia aberta e performances teatrais. Na música eletrônica, os blocos Unidos do BPM e Summer Eletro Bloco transportam a cultura das pistas para o espaço carnavalesco trazendo uma experiência sensorial, fazendo você se sentir numa rave ou festival.

Toda a brasilidade do carimbó e do brega

A diversidade do Brasil ganha espaço também na festa paulistana por meio de sonoridades que, muitas vezes, não recebem a atenção merecida no eixo cultural sudestino. Saindo às ruas pela primeira vez, o Bloco Carimbolando vem com a proposta de levar ao público a pulsação do carimbó, com suas danças, percussão nortista e forte vínculo comunitário. Já o Brega Bloco celebra o universo do brega e todo o seu romantismo como forma de reafirmar a estética popular de simplesmente sair sem vergonha de ser feliz.

Foto: @cientistadiquebrada. Bloco Carimbolando (14/02/2026)

A festa onde o Brasil se encontra

Com blocos tão distintos, o que nós temos hoje é um retrato condensado da própria cidade de São Paulo. Feita de contrastes, velocidades e encontros improváveis, tendo no Carnaval um momento de sincronia coletiva.

Em cada celebração que redesenha o mapa urbano, essa ode à diversidade reinventa espaços e explica por que o Carnaval de rua de São Paulo, antes visto como ausente, hoje se manifesta como uma expressão vibrante da cultura brasileira.