Por Fábio Martins

Quem conhece o Design Ativista há algum tempo certamente tem alguma ideia sobre o que significa a oposição entre arroba e hashtag, ou “@” e “#”. Caso a oposição pareça um pouco abstrata para quem lê, resumo: a oposição entre arroba e hashtag diz respeito à autoria.

No entanto, este texto não é sobre designers, sobre autores, nem sobre dar crédito a uma imagem ou mergulhá-la no mar turvo das milhares publicações indexadas pela #designativista. Este texto começa, portanto, com duas perguntas: existe um ativismo no design dos não-designers, ou não produtores de imagens? O que podem fazer aqueles que, entusiastas do ativismo através do design, não querem fazer design?

Uma afirmação não seria o suficiente para responder à primeira pergunta. Evidente que é possível um design ativismo dos que não produzem imagens! E se não estamos falando em produtores, estamos falando em disseminadores e consumidores de cards, ilustrações e charges ativistas. Estes são fundamentais para que o fenômeno do design ativismo possa existir, até porque de nada valeria uma multidão de designers produzindo imagens incessantemente se não houvesse aqueles que interagem com as publicações, compartilham e reproduzem as ilustrações de Militão Queiroz, Cris Vector, Gabriela Tornai, Militante Cansado, etc.

Sem disseminadores e consumidores – em seu sentido mais amplo e não necessariamente vinculado ao consumo capitalista – de design ativista, temos somente uma multidão de designers solitários em quartos escuros: muitas ideias, muitos arquivos salvos, nada se repercute.

Embora a união dos termos design e ativismo indique a imbricação de realidades que poderíamos supor como inconciliáveis – o mundo do trabalho e o mundo do ativismo –, ela também indica em segundo plano que os designers foram trazidos para o campo de batalha da guerra política em que está imerso o Brasil: em um cenário de guerra cultural, guerra de nervos, guerra de memes, guerra de costumes, guerra híbrida – chamem como quiserem –, os designers ganharam ao longo dos últimos quatro anos um papel crucial. Tornaram-se mais agentes do que agenciados, ganharam repercussão e passaram a ser entendidos como parte ativa da disputa política.

Pensando nisso, é possível reconhecer que, em meio à disputa política demarcada pela violência simbólica e física – eventualmente mortífera – do bolsonarismo sobre o restante dos brasileiros, as imagens possuem uma relevância significativa. Jair Bolsonaro, seus assessores, secretários, ministros e seguidores mais fanáticos sabem disso e compreendem bem o fenômeno: desde os memes do presidente montando um velociraptor com uma carabina M4 até as mesas de café-da-manhã simplórias, tudo é minuciosamente montado para conferir mensagens precisas para quem entre em contato com essas imagens. Cenas de hospital inspiradas em pinturas de Andrea Mantegna sinalizam que lidamos com um Messias ferido, as mesas com farelo de pão e leite-condensado apontam para a humildade, os memes fantásticos para uma visão sobre-humana do “mito salvador”. Isso sem contar as bancadas das lives, a infinidade de camisetas de times de futebol e as cenas masculinistas de Jair montando cavalos, motos e jet-skis. As imagens importam para Bolsonaro, há cálculo no espírito de espontaneidade dos registros e às vezes fica a impressão de que somente nós não compreendemos isso.

Por que não compreendemos? Por que, efetivamente, preferimos falar em “crise estética” do que em “espontaneidade planejada”, ou em “fantasia de cotidiano”. Bolsonaro conquistou o coração de milhões de brasileiros em 2018 ao fazer-se de homem comum, de membro do “povo” que buscava ocupar o Planalto para combater com muita coragem os corruptos e o “sistema”. A reação que muitos de nós tivemos foi a pior possível: subir no palanque, fazer-se de superior e, sob o escudo da “crise estética”, dizer para nós mesmos que éramos melhores do que aquilo, por motivos jamais explicitados. Caímos na armadilha de esperar que a superioridade moral que víamos em nós mesmos fosse reconhecida por todos os brasileiros.

Ao longo dos últimos quatro anos, tivemos tempo o suficiente para observar, compreender, explicar e discutir uma diversidade de fenômenos que permeiam isto que convencionamos chamar “bolsonarismo” e, talvez, uma de suas característica mais ignoradas tem a ver com a construção de um imaginário, de uma estética própria e que estabeleça através da visualidade a galáxia do que simboliza “Jair Bolsonaro”. Chamemos de iconografia fascista à brasileira, se quisermos, mas é preciso reconhecer a sua complexidade e diversidade para combatê-la, algo que não ocorrerá se simplesmente lançarmos a carta da “crise estética”.

A inteligência da estética bolsonarista está em reconhecer que as imagens chegam antes das mensagens discursivas, de que o simbólico possui múltiplas dimensões interpretativas e de que o presidente montado em um Jet-Ski pode emitir mensagens rigorosamente diferentes para diferentes pessoas. Isto torna a batalha mais difícil? Sem dúvida, mas também nos permite reconhecer que ao fim e ao cabo estamos falando sobre como as imagens ocupam espaços e imaginários. Esta é a hipótese que tentei construir nas breves linhas anteriores: imagens importam para o bolsonarismo, constituem uma estética particular e visam a disputa pela ocupação do imaginário.

Construída a hipótese, precisamos de uma antítese ou antídoto, certo? Se estamos falando em ocupação do imaginário e dos espaços – que pode ser entendido como um muro, uma timeline, um corpo ou uma tela de TV – por imagens, então parte desta disputa é quase uma batalha de posições, de ocupação de trincheiras simbólicas que detenham o avanço do fascismo sobre o que nos resta quando a materialidade é rigorosamente destruída e de nós destituída.

Para avançar, portanto, sobre a estética fascista à brasileira, sobre esta imensa e diversa galáxia simbólica que constitui o bolsonarismo, os disseminadores e consumidores do design ativista são imprescindíveis. E com isso chegamos à segunda pergunta, que relembro aqui: o que podem fazer aqueles que, entusiastas do ativismo através do design, não querem fazer design?

Este texto busca ser menos um manifesto e mais um nano-manual de como ser um disseminador de imagens ativistas. A seguir, apresento algumas sugestões de como fazê-lo.

1. Em redes sociais:

  • seguir a #designativista no Instagram, no Facebook e no Twitter
  • engajar com as publicações é fundamental e o algoritmo do Instagram compreende que o like, o comentário e o salvar indicam que a publicação é relevante (isso vale para os designers também, ok? Nem tudo é só sobre as suas peças).
  • compartilhar também faz com que as imagens que você queira ver no mundo alcancem outras pessoas; vale utilizar aplicativos de repostagem, baixar a imagem e publicá-la em outras redes e fazê-la chegar ao WhatsApp e ao Telegram;
  • crie uma conta de Instagram para você postar as imagens dos seus designers prediletos; dê um nome criativo, utilize apps de repostagem e não deixe de utilizar as hashtags.

2. nas manifestações, no ponto de ônibus e por aí:

  • imprima as imagens que você quer ver no mundo e as leve para manifestação de rua, cole em sua bolsa, faça stickers, aproprie-se das imagens para fazê-las chegar mais longe. 
  • intervenções artísticas, colagem de lambes e projeções são sempre bem vindas e possuem, apesar de certa falta de controle, alguma possibilidade impacto em longo prazo.
  • camisetas também são uma boa e clássica possibilidade para quem quer se manifestar sem dizer nada.

Se estamos lidando com a ocupação dos espaços e do imaginário em meio uma verdadeira guerra simbólica, cabe-nos, na batalha de trincheiras, imaginar um novo futuro. Cabe-nos ganhar o campo, semear nossas ideias através de imagens. E se nem todos nós somos produtores, a polinização é a digna tarefa que responde às necessidades urgentes de fazer ideias irem mais longe.

Sem disseminação, as imagens se tornam documentos e arquivos em gavetas e pastas em HDs. Cabe-nos a superação do bolsonarismo também na estética, o que não faremos com a falácia da “crise estética”, mas povoando e semeando o mundo com as imagens que queremos ver. É uma tarefa árdua, e eventualmente chata, mas indispensável para a atuação política que, há algum tempo, perdeu-se em sua própria intelectualidade e desaprendeu a fazer imaginar.

Fábio Martins é mineiro, de Três Corações/MG. Designer, ilustrador, artista visual e antropólogo, integra desde 2018 o Design Ativista.

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