“Convoca Minha Caneta Quando For Pra Fazer Guerra”
DK 47

Por Fábio Martins

Em 2022, somei-me às fileiras daqueles que entregaram tudo o que puderam para a derrota do ladrão de jóias. Nos últimos meses, por onde quer que eu tenha andado – de reuniões de sindicatos ao salão nobre da Câmara dos Deputados, passando pelas mesas de plástico em botecos –, ouvi um sem número de histórias como a minha. “Nunca trabalhei tanto em uma campanha como nessa última”, ouvi de um sindicalista. “Senti medo de que a gente não fosse conseguir em alguns momentos”, ouvi de uma amiga. “Essa foi a campanha mais difícil da minha vida”, disse o presidente Lula, na Av. Paulista, logo após a declaração de sua vitória.

Cabe reiterar, Jair Bolsonaro empregou cerca de R$ 300 bilhões do orçamento público em uma campanha eleitoral repleta de ilegalidades e, ainda assim, perdeu. No entanto, não vemos bandeiras brancas no horizonte.

Algumas pessoas com quem tenho conversado ainda se perguntam: e agora, o que faremos? Evidentemente, um governo tem orçamento, equipe e objetivos o suficiente para agir por si, mas nem a mesa do Planalto é grande o suficiente para receber todos aqueles que lutaram em 2022, nem as ações governamentais são o suficiente para transformarmos a nossa realidade nos próximos anos.

Habituamo-nos a dizer que a luta continua toda vez em que saímos derrotados, quando o “não passarão” é seguido pelo “infelizmente, passaram”. Mas a luta continua principalmente quando ganhamos as grandes disputas. Porque vencemos, devemos continuar para que possamos continuar a vencer. Quem viveu os últimos 6 anos de Brasil não merece reviver derrotas.

O que sugiro aqui é que o fascismo à brasileira – este grande desafio de nossa geração – somente será tido como superado quando posto de joelhos. Óbvio? Óbvio. Mas costumamos nos esquecer de obviedades em meio ao jogo de espelhos em que a extrema-direita nos insere. Jogo como o da mobilização pela divergência, quando somos provocados por eles para apenas lhes dar audiência, não para derrotá-los.

Mas quem lê pode se perguntar…

Qual o desafio deste momento?

Sobrevivemos às tentativas de reconstrução de nossas próprias vidas, às constantes tentativas de sabotagem que Jair colocou para o governo recém-estabelecido, aos atos terroristas do 8 de janeiro e à destruição de políticas públicas históricas – que agora, à custa de muito suor, têm sido retomadas.

Se os fatos que menciono acima não sensibilizam quem lê para a ideia de que há muito ainda o que ser feito, elenco alguns outros: a desconstrução orçamentária do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação; o desmonte do Ligue 180; o avanço sanguinário do garimpo ilegal sobre terras indígenas; o emprego de discurso transfóbico por um deputado federal em pleno 8 de março; a tentativa de emplacar CPMIs em torno do 8 de janeiro e contra o MST – justamente nas casas em que o PL possui maioria.

Ainda que tenhamos garantido uma vitória eleitoral que, em alguns momentos, parecia impossível, o domínio do imaginário popular ainda é do conservadorismo. Seja pela ação altamente organizada do neopentecostalismo e de outras vertentes evangélicas – em que alguns líderes religiosos agem como verdadeiros prefeitos-pastores –, seja pelos clubes de tiro, ou pelas forças de segurança, ou entre gamers e fisiculturistas, os valores bolsonaristas se organizaram e se atomizaram no Brasil de tal forma que apenas a propaganda governamental contrária não será o suficiente. É urgente abandonar o “ai que preguiça” e adotar desafios menos confortáveis que a crítica de rolagem, ou seja, a crítica que dura o tempo de uma passagem de feed. A transformação social exige um trabalho perene.

Com isto, chegamos a uma outra pergunta.

E o que o Design tem a ver com isso?

Passada a vitória eleitoral, é o momento de entrarmos na disputa pelo poder, pela representatividade e pela transformação da sociedade. O design é um destes campos em permanente disputa, em que a mentalidade neoliberal se infiltrou e, em algumas áreas, criou raízes; um campo em que um único designer e ilustrador de direita possui mais orçamento e estrutura do que muitos dos designers ativistas de nossa rede; um campo em que a estética gospel tem avançado fortamente – pelo exercício da autoria ou pelo hackeamento de outras estéticas –; um campo em que aqueles que trabalham com design não raro optam pelas intempéries do empreendedorismo de si em vez das garantias trabalhistas.

Com isso, a pergunta se repete: é realmente possível considerar que o céu se abriu sobre as nossas cabeças e o sol brilhou mais uma vez, como ansiava a música de Nelson Cavaquinho? Para quem se acostumou com a miséria existencial dos últimos anos, as frestas de luz parecem uma supernova, mas precisamos de mais.

O que fazer?

A pergunta de Lênin, que dá título a um de seus textos principais, tinha como uma das respostas possíveis a nova alternativa comunicacional daquela era: a criação de um jornal produzido por trabalhadores e trabalhadoras e para toda a classe trabalhadora. Evidentemente, este não é mais o nosso único desafio, e não pretendo aqui fazer coro aos briefeiros da SECOM, que insistem em dizer que “o governo precisa fazer isso” ou “aquilo”. Nem mesmo tratarei de algoritmos, de guerrilha digital ou de comunicação de influência.

Nas próximas linhas, abordarei uma espécie de “militância por infiltração”, uma tática exploratória, integrada e cíclica, que assume o trabalho do design como um caminho para a mudança de posicionamento, a transformação estética e o convencimento para a atuação política em nível interpessoal.

As formas de atuação são muitas, mas duas das características de grande importância para quem atua em “modo guerrilha” são 1) a adaptabilidade frente às adversidades e 2) a capacidade de explorar espaços onde eventualmente seja necessário atuar sozinho. O ambiente de trabalho demanda do designer ativista estas duas características, daí a sua importância.

Além disso, o espaço de trabalho também é um campo de atuação cotidiana, em que as transformações são menores, individualizadas, e eventualmente quase imperceptíveis, mas que a longo prazo podem demonstrar eficácia e grandes capacidades.

A seguir, abordo a ideia de militância por infiltração em espaços de trabalho, em quatro fases: inserir-se, compreender, agir e avaliar.

Inserir-se

Como sabemos, o design é um campo multifacetado, com muitos espaços para a atuação, que vai da ilustração vetorial ao desenho de chaleiras elétricas, passando por sinalização, plataformas digitais, redes sociais e gráficas. No poder público – o que envolve o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e as organizações de governo, como as vinculadas ao Ministério Público – os postos para designers são mais limitados, com baixa remuneração e, geralmente, demandando o acúmulo de funções – como o “designer fotógrafo”, “designer streamer” ou “designer videomaker”.

Os mandatos políticos e a estrutura de Estado – em nível municipal, estadual, distrital e federal – são uma forma de reunir parcialmente militância e trabalho. Porém, diferentemente do trabalhador que milita nas horas vagas, o militante contratado pode se permitir levar ao sofrimento de assédio moral, de entregar-se totalmente às jornadas exaustivas, às múltiplas funções e à ausência de descanso “em nome da causa”. Cautela.

Militante com barriga vazia não consegue pensar. Por isso, independente do espaço, é importante também buscar uma boa remuneração, com horários definidos de trabalho e, se possível, com direitos trabalhistas – triste frase, não? Afinal, não é possível lutar pela superação do capitalismo e o esmagamento do fascismo mergulhando de cabeça na vida de freelancer 24/7.

Compreender

Sua posição naquele espaço: antes de buscar ansiosamente o alargamento dos horizontes, a mudança das mentalidades ou a ruptura das convicções, é necessário compreender em que lugar você atua. Pode ser útil se perguntar: em que posição está o design aqui? Qual é o contexto produtivo? Para onde vai o que produzo? O quão subalternizado sou?

Seus colegas de trabalho: classe, cor, credo e consciência das lutas de nosso tempo são informações importantes para se obter. O quão próximos eles estão do seu pensamento político? Quais os referenciais culturais deles para a música e cinema? O que lêem? Sobretudo porque, assim como em períodos eleitorais, o convencimento do outro passa pelas razões do outro, não pelas nossas razões. Um primeiro passo é encontrar pontos de conexão.

Seu espaço de trabalho: há uma hierarquização arquitetônica evidente? Você divide espaço com sua chefia, supervisão ou clientela? Compreender o seu espaço de trabalho permite compreender se há alguma sorte de hierarquia reiterada pelo acesso a determinados espaços, pelo mobiliário disponível e encontrar caminhos para combatê-la.

Dores dos seus colegas: este é o momento para compreender o que há de incômodo desses colegas em relação aos demais, às condições de trabalho, à infraestrutura tecnológica do local, ao orçamento e à política nas esferas local, nacional ou internacional.

Limites de ação: qual o grau de aceitação dos colegas para o debate político direto? O que gera um incômodo visível neles em relação aos posicionamentos de outros colegas? O que amam e odeiam? Quem não gosta de você?

Agir

A transformação pode começar pelo próprio design, quando este passar a ser visto como um elemento central da comunicação do seu local de trabalho. Este talvez seja o primeiro grande desafio, porque a rigor o design é visto como a parte menos relevante na cadeia produtiva da comunicação organizacional, política, no marketing ou na propaganda. O que por sua vez pode sinalizar dois caminhos: a) dar esta disputa por vencida e transferir o esforço de exaltação do design para a pessoa do designer, por meio da afetividade e das cooperações laborais; ou b) insistir o quanto for possível na importância do design para a comunicação, o que por sua vez poderia garantir à pessoa que produz design no local de trabalho a reputação de especialista.

Exemplo pessoal: há 10 anos atrás, lembro-me de ter sofrido um rechaço por parte de contratantes por subitamente ter inserido a fotografia de uma mulher trans em uma peça; se eu tivesse lido este nano-manual à época, provavelmente não teria cometido este erro, uma vez que tanto os contratantes quanto os clientes eram heterossexuais, cristãos, brancos e moradores de bairros nobres. Reitero aqui que, ainda que a pauta seja urgente, romper as amarras dos preconceitos e da moralidade conservadora requer um esforço progressivo, às vezes de longo prazo.

Conhecer outres designers: não é apenas para marcar a cerveja de sexta-feira ou o culto de domingo, embora estes dois sejam também oportunidades de conexão. Aproximar-se dos colegas de time ou mesmo de pessoas de outros times, possibilita esboçar uma pequena coalizão de designers dentro do espaço de trabalho. Isto pode gerar oportunidades para o reconhecimento de dores, mas também de organizar mais designers para a militância; convencer aqueles mais radicalizáveis para a produção de imagens de militância, para o estabelecimento de um pacto estético dentro do local de trabalho – como, por exemplo, inserir mais imagens de pessoas negras onde a branquitude impera inclusive enquanto imagem –, para a filiação a movimentos sociais organizados ou políticos.

Pense no próximo passo: organizar designers pode ser um primeiro movimento, mas esta reunião não será forte o suficiente se não houver ações recorrentes. Os primeiros meses podem ser de conversas informais na hora do almoço, mas em algum momento algum passo além deverá ser dado. Este passo além pode ser uma reunião de designers, um grupo de WhatsApp, uma leitura em comum, uma série, filme ou mesmo um convite explícito para outras formas de organização.

Criar zonas de ressonância: ao fim e ao cabo, com fortalecimento deste grupo, será possível constituir uma zona de ressonância. Ou seja, um grupo de pessoas que repercutem um mesmo grupo de mensagens e ideias e as fazem chegar mais longe. Um desses grupos de pessoas pode parecer ter pouca utilidade, mas muitos desses podem fazer a diferença e promover uma transformação significativa.

Avaliar

Estabeleça parâmetros: não precisa ser um militômetro, mas tenha em mente o que significa um avanço e o que significa um retrocesso nas suas ações.

Periodicidade: o que impede a cadência da transformação que você busca promover no seu espaço de trabalho do ponto de vista estético e simbólico ou material? Fazer alguma coisa de tempos em tempos é importante, mesmo que seja algo pequeno.

Correção de rota ou desenho de novas práticas: esta é a etapa para reorientar suas operações ou planejar novamente do 0, o que não é raro acontecer.

Como uma tática cíclica, o último passo sempre leva ao primeiro, exigindo o seu aprimoramento a cada novo retorno. A ideia de ciclo não é uma coincidência: ela exige rigor, recorrência e persistência para continuar a ser exercida em longo prazo. O buraco em que fomos arremessados não foi cavado em meses, mas ao longo de décadas e para sair dele não o faremos em muito menos tempo. A vitória eleitoral foi apenas o primeiro passo na escalada de volta ao nível do chão.

*Fábio Martins é mineiro de Três Corações/MG. Designer, ilustrador, artista visual e mestre em antropologia social (PPGAS-UNB). Integra desde 2018 o Design Ativista.

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