Por Rafael Bittencourt

Sempre que inicio o texto dessa coluna, tenho a crise do papel em branco. Nunca sei bem como começar, qual tema vou abordar, mas tento ficar atento às coisas cotidianas para que elas se tornem texto. É um processo difícil, afinal, somos engolidos diariamente pelo trabalho e outras tarefas complexas. Perceber as sutilezas do dia a dia atualmente requer um esforço considerável. Assim, ao encarar o papel em branco, encaro também um exercício de imaginação. Penso: quais cenários vamos perceber e quais cenários vamos imaginar a partir disso?

Numa sessão de terapia que tive, falei uma frase que martelou minha cabeça durante uma semana inteira: “Se eu não tivesse imaginado isso, eu não teria onde me sustentar para fazer isso acontecer”. Eu não vim de uma família que pudesse me dar sustentações financeiras para ter mais liberdade no trabalho. E também não vim de um lugar que proporcionasse segurança e certezas. Lembrei, ali, sobre o quanto eu me apoiava nas possibilidades de futuro, quase como uma justificativa pelo esforço e investimento da época.

Aí já me vem o Design na cabeça. Lembro que me vi como designer pela primeira vez quando li sobre “projeção de cenários futuros”. Ali, lendo Manzini, entendi que pensar cenários era uma ferramenta não somente especulativa, mas sim, estratégica. Imaginar cenários futuros, desde os prováveis até os mais radicais, por si só, é uma ferramenta e insumo para o processo projetual.

Design é projetar. No livro sobre metadesign de Dijon de Moraes, o autor traz uma definição da palavra progettare (projetar) em italiano, para justificar essa ideia. “Pro” significando “avante” e “gettare”, “lançar”. Assim, etimologicamente falando, projetar pode ser entendido como “lançar adiante”, “antecipar/propor/conceber”. Já Peter Drucker afirmava que não podemos prever o futuro, mas sim, criá-lo. Logo, se futuros são criados e o Design é uma disciplina de projeto, pode-se dizer que é sim possível fazer design de futuros.

De acordo com a UNESCO, a alfabetização de futuros é uma das habilidades mais fundamentais do século XXI. Entende-se a ideia de “alfabetização” aqui, como na leitura e na escrita, como uma habilidade de codificar e decodificar e, a partir disso, projetar, desenhar, construir. O texto afirma ainda que “o futuro ainda não existe, ele só pode ser imaginado” e que “os humanos têm a capacidade de imaginar”, mas o principal ponto da importância da “alfabetização” de futuros é justamente a acessibilização da prática. Todos têm capacidade, mas quem efetivamente pode? O futurismo (e prefiro imaginar um futuro em que eu esteja errado) ainda é uma disciplina muito elitista. A pauta se concentra em ambientes que poucas pessoas conseguem acessar. E se projeta nesse lugar que poucos estão. O resultado é sempre o mesmo: um reflexo do privilégio do presente.

Não é nenhuma novidade, mas hoje temos algumas linhas de futurismo que buscam contemplar as diversidades como o afrofuturismo. Ou até em semióticas e narrativas brasileiras, como o amazofuturismo e o cyberagreste, e futuros sustentáveis, como o solar punk. O ponto é que temos as referências, mesmo que fragmentadas, para saber que podemos imaginar algo diferente do que vemos na maioria dos espaços. Mas qual o espaço para a imaginação de futuros de quem almoça pensando em como vai viabilizar o jantar?

É necessário voltar ao começo. “Quando os caminhos se confundem é necessário voltar ao começo”. Sempre quando preciso lembrar do porquê de estar nos lugares que estou, volto pro rap. Essa música do Emicida, em especial, me acompanha faz alguns anos. Não lembro quem, mas lembro que alguém uma vez me falou que para pensar futuros precisamos perceber o presente, reconhecer o passado e só então começar a imaginar. Como se o processo de desenhar futuros fosse elástico: ele sempre vai, mas volta, em todas as direções.

Lembrar do passado, de como chegamos aqui, é uma forma de se firmar, assim como imaginar. Reconhecer nossos privilégios individuais, nossas falhas como sociedade, faz com que pensemos em futuros mais inclusivos. Nada é por acaso e tudo está conectado. Toda decisão que tomamos hoje, individualmente ou em sociedade, desenha futuros. Mas nem tudo é decisão, e nem toda decisão é tomada por todos. E, a partir disso, quem está em alguma posição de decidir por algo se torna responsável por trazer esses futuros igualitários. Já imaginou? Um país onde as pessoas tenham mais autonomia nas suas decisões? Onde literalmente todo mundo desenha o futuro coletivamente?

O papel do designer, enquanto indivíduo que projeta cenários desejáveis, é tornar a prática da imaginação de futuros mais acessível e diversa. Mesmo que ainda não seja totalmente acessível, é crucial que seja mais inclusiva. Precisamos parar de apenas olhar para o passado, através das pesquisas de comportamento, usabilidade e marca. Mas começar a olhar para o futuro, sob a perspectiva dos futuros que queremos que sejam possíveis e não somente desejáveis. E esse processo precisa ser intencional.

Este tema pode soar utópico ou até mesmo fantasioso. Mas lembre que o seu presente já foi futuro de alguém, que pôde imaginar, desenhar e construir um cenário que privilegiaria a si mesmo. Acessibilizar a prática projetual e a imaginação de futuros, para quem não se vê e resiste no presente, é sim, um ato revolucionário.

 

Rafael Bittencourt atua como Head of Discovery em projetos de inovação na Round Pegs. Tem uma jornada transversal: começando na periferia de Porto Alegre, passando pela sede da ONU em Nova York, onde exibiu o mini documentário em realidade virtual Cipó de Jabuti, e atualmente tangibiliza projetos disruptivos para grandes empresas nacionais, como Locaweb, Sicredi e Conasems. Acredita que o Design, orientado para inovação social, pode ser um vetor para criação de futuros mais justos e prósperos

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