@rafaelbessa

Por Rafael Bessa

Nos últimos anos a questão da atuação política passou a ser mais debatida e considerada por uma parcela maior da população. O acirramento da luta de classes, a ascensão da extrema-direita e o advento do bolsonarismo levaram setores que não possuíam qualquer envolvimento político a buscar formas de se posicionar. O design gráfico foi um desses setores e passou a utilizar suas ferramentas técnicas de comunicação visual para dar voz às lutas e questões sociais.

Porém, vivemos na lógica cultural da pós-modernidade onde tudo é fragmentado, e a expressão concreta de um design politizado tem se reduzido a designers isolados criando peças gráficas com mensagens políticas para as redes sociais. Algumas dessas peças até são usadas em atos e protestos, demonstrando seu potencial de sintetizar as demandas populares, porém são casos raros. O consumo efêmero de informação, a primazia do aspecto visual e o simbólico como um fim em si mesmo são características típicas da condição pós-moderna, definida por alguns autores como “uma dinâmica caótica de representações imagéticas”.

Outros autores definem a pós-modernidade como a lógica cultural do neoliberalismo, o que faz muito sentido quando observamos que a maioria dessas manifestações de designers segue limitada à uma perspectiva individual e não coletiva de atuação política. O próprio uso do termo “ativista” geralmente se refere à uma atuação política individual, em oposição ao termo “militante” que pressupõe a participação em uma organização política. Para além de uma questão meramente semântica, essa distinção busca trazer uma reflexão sobre que tipo de estratégia e tática devemos adotar para nos reorganizarmos politicamente. A criação de peças gráficas com mensagens políticas é, por si só, um design ativista? Pode o design gráfico causar uma mudança positiva na sociedade?

Em uma entrevista, o estúdio de design holândes Experimental Jetset, conhecido por seu pensamento crítico, responde que sim. Mas adverte citando a clássica obra A Dimensão Estética do filósofo alemão Herbert Marcuse:

“Quanto mais imediatamente política for a obra de arte, mais ela reduz o poder de afastamento e os objetivos radicais e transcendentes de mudança. (…) Pode haver mais potencial subversivo na poesia de Baudelaire e de Rimbaud do que nas peças didáticas de Brecht.”

Indo além do debate estético, é importante lembrar que a iniciativa Design Ativista se propôs a ser uma ponte entre designers interessados em atuar politicamente e movimentos/pautas que necessitavam de soluções de design. Em 2018 eu fui um desses designers que, convidados pelo Mídia Ninja, contribuíram com artes para a campanha da chapa Guilherme Boulos e Sônia Guajajara. No mesmo ano, o 1º Encontrão Design Ativista promoveu uma iniciativa ainda mais interessante, uma Roda de Briefing onde designers puderam adotar demandas de comunicação de movimentos sociais como o MST e o MTST. Atualmente, a iniciativa Adote seu Briefing tem uma dinâmica parecida, porém focada nas eleições, e também existem as chamadas nas redes sociais para produção de peças sobre pautas urgentes que necessitam de visibilidade.

Apesar da minha participação e de reconhecer a função necessária que essas iniciativas cumprem no nosso cenário, elas ainda mantêm designers como agentes externos às organizações políticas, em uma atuação que mimetiza em certa medida a relação estúdio x cliente presente no mercado. Ou ainda, pode reproduzir uma relação similar à do terceiro setor, onde atuação política é muitas vezes confundida com trabalho voluntário.

Outra alternativa possível é o envolvimento nas associações de design. Apesar de suas formas de atuação estarem limitadas ao campo do design (muitas também são patronais e defendem interesses de classe), associações podem exercer uma influência importante na melhoria das condições de trabalho, em medidas de inclusão e diversidade e até como um representante da categoria na política institucional. Um exemplo é a Nota de Repúdio ao edital para criação de nova marca da Fundação Cultural Palmares que buscava retirar as referências à religiões de matriz africana. A nota redigida pela PretADG (núcleo negro da ADG Brasil) e assinada por diversas associações demonstra como uma atuação institucional também permite um posicionamento político para além das questões do mercado. 

Por outro lado, a professora Virgínia Fontes alerta que organizações corporativas (que representam uma categoria profissional específica) também são limitadas por sua própria natureza. Segundo ela, “a visão de cada grupo social na defesa dos seus próprios direitos é parcial” e “muitas vezes não situa esse interesse de grupo no conjunto do interesse da classe trabalhadora como um todo”.

O ideal, então, seria que designers atuassem dentro das organizações políticas como militantes. Diversas organizações possuem demandas de comunicação e não possuem militantes capacitados para realizar essas tarefas com a qualidade necessária. Em organizações revolucionárias, a comunicação possui uma dimensão política ainda mais profunda na chamada agitprop (agitação e propaganda), uma concepção leninista.

Problemas estruturais da sociedade não são superados com ações individuais isoladas mas com militância coletiva organizada. A melhor maneira de atuar politicamente é militando em um movimento social, coletivo, partido, corrente sindical, corrente partidária, juventude partidária, etc, que tenha uma linha política que você se identifique. Nessas organizações, designers não serão somente designers, mas militantes, aprendendo e contribuindo na organização, na formação e no trabalho de base que a organização constrói.

Devido à minha linha política, minha recomendação é buscar organizações revolucionárias, que são aquelas que possuem um projeto de sociedade e não se limitam à sua causa de atuação imediata. Isso não significa abandonar a luta por reformas, mas não perder de vista o horizonte de mudança estrutural. Obviamente, recomendo primeiramente as organizações que estão no mesmo complexo do coletivo negro que faço parte – o Minervino – que é um coletivo partidário do Partido Comunista Brasileiro junto com o Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, o Coletivo LGBT Comunista, o Coletivo Cultural Vianinha, a corrente sindical Unidade Classista e a juventude partidária UJC. Mas existem diversas outras organizações de diversas linhas políticas e com diversas formas de atuação.

Designers geralmente possuem um grande apego à sua identidade e querem atuar politicamente sem perder esse referencial profissional. A maioria sequer se vê como parte da classe trabalhadora. Talvez por isso existam tão poucos designers no interior das organizações. Um dos nossos maiores problemas em tempos de ofensiva da extrema-direita é justamente a falta de organização popular para dirigir nossa revolta com estratégia, programa e teoria. Ao nos organizarmos potencializamos nossa capacidade de ação. Designer ou não, busque uma organização política e organize-se!

Rafael Bessa é designer brasiliense morando em São Paulo. Passou por agências como R/GA, Aruliden (NY) e hoje colabora com a BUCK. Criador do projeto 148 Designers Respondem e co-host no podcast Diagrama, também é editor convidado na Revista Recorte.

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