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No programa Entre Aspas, da Globo News, do dia 08/10, em que se abordava a suspensão de editais de fomento a projetos culturais e a adoção, pelo Governo Federal, de censura a determinados temas em manifestações artísticas, houve um momento em que o ator Odilon Wagner insistiu na tese de que o governo de Jair Bolsonaro (PSL) seria o extremo oposto, à direita, dos governos de Lula e Dilma, do PT.

De igual forma procedeu Josias de Souza ao afirmar, em vídeo de 30/10, que “Bolsonaro se iguala a Lula no desapreço à mídia”. O vídeo foi gravado e publicado após a reação colérica do presidente em face de reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, que relacionava a sua figura com o episódio do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes.

Na mesma semana ocorreram outra meia dúzia de episódios desabonadores, ora da conduta, ora da saúde mental do presidente: divulgação de áudios comprometedores de Fabrício Queiroz; publicação de tweet comparando Bolsonaro com um leão e, as instituições da República, com hienas; descortesia para com o presidente eleito da Argentina; declaração de afinidade com o príncipe da ditadura saudita (acusado de homicídio); declaração de Eduardo Bolsonaro de que, “se a esquerda endurecer, a solução será um novo AI-5”, dentre outros.

Pois bem. Esse tipo de comparação, de Odilon e Josias, é de uma desonestidade intelectual sem limites. Comparar governos do PT com governos do PSDB, vá lá que seja: apesar das diferenças ideológicas, de suas falhas, erros e do eventual envolvimento de membros de ambas as agremiações em casos de corrupção, fato é que foram governos marcados pelo respeito aos limites do Estado Democrático de Direito.

Com Bolsonaro não há respeito à democracia, à divergência política, à pluralidade de ideias, à diversidade cultural, à liberdade de imprensa e de expressão, às instituições da República, aos seus adversários, à Constituição Federal… Ele não respeita nada e nem ninguém: é o anti-governo, a anti-matéria! É o anti-cristo, travestido de bom cristão que, cinicamente, prega o Evangelho de João: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32).

Não se trata, portanto, de mero antagonismo entre duas concepções políticas, entre ideologias distintas, entre direita e esquerda, entre diferentes visões de mundo. Isso é saudável no ambiente da democracia. Com Bolsonaro, se trata de um completo desprezo às regras do jogo democrático. Comparar Bolsonaro com Lula, como se fossem duas faces da mesma moeda é, portanto, algo vil. É típico da maledicência jornalística que, tanto um quanto outro – cada um à sua maneira – combatem.

Talvez esta seja, aliás, a única semelhança entre ambos: a forma enérgica como se manifestam em face da maledicência jornalística. Afinal, apesar de não ter nenhum apreço pela figura do atual presidente – e a despeito da completa ausência de equilíbrio emocional e dos xingamentos por ele proferidos – uma coisa é certa: Bolsonaro está correto no juízo de valor que fez da Rede Globo. É o que há de verdade em sua fatídica “live” de 29/10, pois o que sobra em competência na teledramaturgia, sobra em maledicência no jornalismo da Vênus Platinada.

Ávidos por dar um furo jornalístico, não tiveram a cautela necessária de averiguar e checar, com o rigor que o jornalismo sério requer, todas as nuances da informação.

Que Bolsonaro e sua família têm envolvimento com milícias é fato que dispensa qualquer nova prova, por fartas e robustas que são as já existentes. Mas, daí a difundir uma informação, ainda em estado de investigação e carente de comprovação, de que ele estaria envolvido com o mando do crime, foi um pouco demais.

Ávidos por dar um furo jornalístico, não tiveram a cautela necessária de averiguar e checar, com o rigor que o jornalismo sério requer, todas as nuances da informação. Quantas vezes vimos isso acontecer no Mensalão, no Petrolão, nas injustas e levianas acusações espetaculosas da Força-tarefa da Lava-jato, todas com ampla cobertura da imprensa? Isso não isenta o presidente de futuras descobertas ou implicações com este ou outros crimes. Mas, não há como negar que houve exagero nesse episódio, decorrente da patológica má-fé que tomou conta, há tempos, das redações dos veículos do mass media nacional.

Mais irresponsáveis que a Globo, só os membros do MPRJ: o parquet carioca quis “desmentir” a versão difundida com a mesma velocidade com que a emissora queria dar o furo jornalístico, usando, para isso, uma perícia relâmpago feita em 2h25min, instantes antes de uma coletiva de imprensa em que se descobre, também, que uma das promotoras de justiça responsáveis pela investigação do caso Marielle é uma bolsonarista convicta.

E quando tudo parecia se encaminhar para algumas horas de suspiro eis que, no sábado, 02/11, surge uma confissão inesperada do presidente: a de que teria se apoderado das gravações da portaria/interfone do Condomínio Vivendas da Barra para, segundo ele, “evitar que fossem adulteradas”.

Além de configurar o crime de obstrução de justiça, a conduta confessa do presidente reacende as acusações globais. Afinal, por que guardar uma prova de algo com o qual, em tese, não se teria envolvimento algum? Por que motivo ele teria coletado as gravações da portaria/interfone antes que os órgãos responsáveis o fizessem? Faz algum sentido “pegar” uma prova para “evitar que seja adulterada”, a menos que se tenha culpa e queira, ele próprio, adulterar a prova na parte que acha que lhe comprometa? Ou ele queria manter tais provas sob sua guarda apenas preventivamente, achando que, um dia, alguém iria acusá-lo de ter autorizado alguém a entrar no condomínio? Mas, como ele iria presumir que, um dia, alguém poderia acusá-lo se ele afirma que nem mesmo fora contactado pela portaria e tampouco se encontrava no local, naquela data? É tudo muito ilógico, estranho e suspeito…

O caso ainda está longe de ser esclarecido e de chegar ao seu final. Mas, ao menos neste episódio, os que tentaram intimidar, acabaram intimidados. A ameaça de Bolsonaro de que “não vai ter jeitinho” quando da renovação de sua concessão de TV em 2022 colocou a Globo no seu lugar de sempre: a de quem arrota moralismo e ética jornalística, mas sobrevive às custas das facilidades que o Estado brasileiro lhe concede, em um simbiótico ciclo vicioso que nem Lula, nem Bolsonaro e nem ninguém foi capaz de dissipar.

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