Nos últimos anos o tema das mudanças climáticas tem sido foco de preocupações e discussões em todo o mundo. Cotidianamente, no Brasil, nos deparamos com desastres ambientais de diferentes ordens como os incêndios florestais, inundações decorrentes de chuvas torrenciais, secas prolongadas, deslizamento de terras e vendavais, em que, na maioria dos casos, há vidas perdidas.

A Organização das Nações Unidas (ONU) compreende mudanças climáticas como as transformações que se dão a longo prazo nos padrões de temperatura e clima do planeta Terra.

Especialistas têm observado que, desde o século XIX, as atividades humanas têm sido o principal impulsionador das mudanças climáticas, principalmente devido à queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás. A queima destes combustíveis gera emissões de gases que agem como um enorme agasalho em torno da Terra, retendo o calor do sol e aumentando as temperaturas do planeta.

Ainda que, neste exato momento, haja esforços de inúmeros países, são insuficientes as medidas verdadeiramente efetivas no controle do aquecimento global, já que há uma evidente sabotagem de países desenvolvidos no combate às mudanças climáticas. Os eventos extremos que se reproduzem no mundo já configuram uma situação de emergência.

O que muitos cientistas, ativistas ambientais, militantes sociais de diferentes áreas têm defendido, e aqui eu me incluo, é o reconhecimento de que foram as sociedades capitalistas, baseadas em uma nova forma de organizar a natureza e as novas relações entre o trabalho, a reprodução e as condições de vida, que desenvolveram as externalidades ambientais causadoras das mudanças radicais na temperatura da terra.

A economia de mercado é incapaz de enfrentar os desafios da crise climática, um desafio que demanda coragem, mobilização e radicalidade política para implementar uma reorganização geral da produção e do consumo em função de critérios não mercantis sob direção das classes trabalhadoras.

Parafraseando um grupo de pesquisadores/ativistas da Universidade Nacional Autônoma do México, o componente central desta análise é de que, ao colocar a natureza no centro do pensamento sobre o trabalho e o trabalho no centro de nosso pensamento sobre a natureza, refletiremos sobre a crise global de uma perspectiva mais realista.

É importante frisar que somos herdeiros e herdeiras de uma geração que aprendeu, desde muito cedo, que a luta política por um mundo melhor é resultado do processo de conformações de maiorias sociais que ousam resistir aos avanços das criminosas políticas neoliberais, a exemplo da luta contra a Alca no nosso continente.

São os movimentos populares, que estão na linha de frente da resistência ao projeto neoliberal, que hoje buscam sequestrar a agenda de combate à emergência climática em todo o mundo. Eles vendem as soluções causadas pelos problemas, que eles próprios são os responsáveis, e que nos trouxeram para esta que é a maior crise humanitária da história do nosso planeta.

As intensas ondas de calor, secas, inundações e tempestades estão impactando a capacidade das pessoas de se alimentarem. O problema da migração climática vem crescendo em particular nos países do Sul global, que são os principais afetados pelo aquecimento do clima, que impacta severamente os modos de subsistência dessas populações, gerando uma série de inseguranças e violações de direitos humanos. Os desastres ambientais hoje já provocam três vezes mais deslocamentos do que guerras. Dados da revista especializada The Lancet, do ano passado, apontam que as mortes de crianças e idosos relacionadas ao calor aumentaram 68% no período entre 2017 e 2021, em comparação com 2000 e 2004.

Em um recente estudo, publicado pela Organização Não Governamental (ONG) Observatório do Clima (OC), foi apresentado um conjunto de estratégias para transformar o Brasil em uma superpotência ambiental, denominado “Brasil 2045”. O documento tem como objetivo apontar os caminhos para tornar o nosso país na primeira grande economia do mundo a atingir o estágio de “carbonização reversa”, ou seja, retirar mais gases de efeito estufa da atmosfera do que emite, tornando-se não neutro, mas negativo em carbono.

Temos um potencial de energia eólica, solar e hidrelétrica único no mundo; um patrimônio de sociobiodiversidade na Amazônia e nos demais biomas que é um ativo econômico estratégico em biotecnologia. Somos capazes de realizar um processo de reindustrialização ambientalmente responsável que interrompa a exclusividade da reprimarização de nossa economia adotada criminosamente pelos governos entreguistas oriundos do golpe de 2016. Somos experts em tecnologias sociais, como a agroecologia e o plantio de produtos de grande valor em áreas de florestas. Podemos combater a fome e garantir renda sem precisar agredir o meio ambiente e violentar as populações que vivem nos territórios – e são as principais responsáveis pelo patrimônio natural do nosso país.

Combatemos o modelo de desenvolvimento assentado na concentração de terra e renda e na exploração predatória dos recursos naturais; declinamos da definição de progresso, baseada em crescimento de mercado. Nossos compromissos se baseiam em maiores e melhores políticas fundadas em critérios, como o investimento público para suprir as necessidades sociais, o bem-estar individual e o equilíbrio ecológico. Nossa luta é por uma transição justa, pela construção de uma sociedade de baixo impacto ambiental e alto valor agregado com prioridade para distribuição de renda e justiça social.

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