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Corpus Christi, pena de morte e os dilemas de ‘I Am Ready, Warden’
Perdão, dor e justiça, a historia do crime de John Henry Ramirez condenado à morte pelo assassinato de Pablo De Castro.
Por Dayane Teles
“Corpus Christi” significa “o corpo de Cristo”. A celebração de Corpus Christi refere-se ao momento em que Jesus Cristo partilhou o pão e o vinho com seus apóstolos na Última Ceia antes de ser crucificado. No versículo São Mateus 26:26 da Bíblia, é dito: “Tomai e comei, isto é o meu corpo”. O nome da cidade onde se passa a história do filme carrega essa forte simbologia cristã, e a jornada de seus personagens reflete os temas de sacrifício, redenção e perdão. É nesse lugar, no estado do Texas, com um nome tão simbólico, que se desenrola a história de John Henry Ramirez, condenado à morte pelo assassinato de Pablo De Castro, um homem de 45 anos, em 2004. A vítima foi esfaqueada por apenas 1,25 dólares.
Com um enredo que nos leva a questionar a pena de morte, Smriti Mundhra, conhecida pelo seu trabalho em Casamento à Indiana (2020), St. Louis Superman (2019) e Eu Nunca… (2020), apresenta uma narrativa sobre personagens entrelaçados por um assassinato, que questionam, de diferentes formas, a aplicação da pena de morte.
Esses questionamentos, seja para defender ou para manter a pena de morte, são acompanhados por uma música emocional demais, o que faz com que o espectador sinta piedade pela “personagem de Ramirez”. Por outro lado, temos o filho de Pablo, que cresce sem o pai, chora sua perda e aguarda incansavelmente pela execução de Ramirez. A busca por vingança, a raiva e o ódio são sentimentos que nos motivam, mas também nos ferem. Quando toda essa busca termina, qual o verdadeiro sentido? Isso é destacado na última cena, quando o filho de Pablo perdoa o assassino do pai.
“Estou pronto, guarda”, apela para um sentimento que talvez quem assista ou quem tenha perdido um ente querido de forma cruel não consiga compreender. Apesar do arrependimento visível de Ramirez, ou de qualquer outro preso no corredor da morte, a dor das famílias, o luto e a sensação de perda que fica com quem permanece parecem ser mais fortes. Isso nos faz entender que, de certa forma, essas famílias também são vítimas do assassinato, e a narrativa apresentada nem sempre encontra uma aceitação fácil. Ao filho de Ramirez, a dor, o arrependimento e a morte do pai fazem parte de uma história que ele, sem dúvida, preferiria não ter que repetir.