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Como um documentário sobre genocídio palestino chegou ao Oscar? E quais suas chances?
‘No Other Land’ denuncia a colonização e tem dificuldades para ser visto, agora pode ganhar o Oscar.
Por João Francisco Milani
Em fevereiro de 2024, o Festival de Cinema de Berlim (um dos três festivais mais importantes do mundo) foi marcado por uma polêmica: os cineastas Basel Adra e Yuval Abraham ao receberem o prêmio de Melhor Documentário denunciaram o genocídio palestino em Gaza e o apoio que a Alemanha fornece para as operações militares de Israel. Os dois, e seu filme “No Other Land”, foram censurados e atacados por diversas figuras de autoridade do governo alemão, rotulados como antissemitas, mesmo que Abraham seja um militante político israelense. Desde então, a carreira comercial do documentário é uma luta sem fim, com imensas dificuldades de o venderem para contratos de distribuição apesar de ter sido premiado por grandes festivais e listado entre os melhores filmes de 2024 por diversas associações de críticos. Um ano depois, em fevereiro de 2025, “No Other Land” é um dos favoritos para o Oscar de melhor documentário. Como ele chegou lá? E quais suas reais chances?
“No Other Land” parte da experiência do jornalista e ativista Basel Adra e seu esforço em documentar a região onde mora, Masafer Yata, na Cisjordânia, sendo ocupada por israelenses. O documentário é assinado por um coletivo com quatro diretores (dois palestinos e dois israelenses) que filmam as ações violentas do exército e dos colonos em primeira pessoa, se colocando mais de uma vez na frente da violência para registrar a brutalidade colonial. A montagem alterna entre essa grande tensão e os conflitos com a demonstração da vida no dia a dia na Cisjordânia, a confraternização e a solidariedade dos moradores de Masafer Yata mesmo sendo atacados.
Outro ponto fundamental para apontar no documentário é a perspectiva única de Basel como diretor, apresentada desde o título da obra: “No other land” é, mais do que tudo, a história de um povo que não vai abrir mão do seu território. A câmera de mão de Basel constantemente filma o chão, porque ele passa boa parte do filme se protegendo da violência ou tentando defender algum compatriota. Nesses momentos, temos apenas o áudio da ação e enxergamos o solo onde pisam os palestinos e que está sendo atacado por um estado colonial. Essas marcas autorais especialmente de Basel ligam subjetivamente todos grandes momentos dramáticos que testemunhamos ao longo da narrativa.
Muito do que é apresentado pelos diretores de “No Other Land” são imagens impactantes da violência israelense, mas muitas delas circularam na mídia desde 2019 já que o próprio Basel é um jornalista bem conhecido nesse meio.
Quando vemos o exército de Israel destruir uma escola com uma retroescavadeira ou derramar cimento no poço de água potável dos moradores de Masafer Yata, ou quando vemos um colono executar a sangue frio com um fuzil um palestino desarmado que está tentando defender sua terra, vemos registros grotescos de um genocídio filmados por um olhar jornalístico.
A virada de chave de “No Other Land” é a perspectiva única dos seus diretores ao ligar tudo isso, pela sua ação enquanto ativistas midiáticos, pela sua disposição de proteger seus companheiros e, principalmente, pela capacidade de registrar em primeira pessoa como é a vida em Masafer Yata sob ataque de Israel.
É importante ressaltar que a edição de “No Other Land” acabou em outubro de 2023, quando a atual fase do genocídio palestino se constituiu, apoiada pelo governo democrata do Joe Biden e pelos partidos sociais democratas europeus.
O lançamento do filme em janeiro do ano seguinte durante o festival de Berlim incendiou o mundo do cinema. As contradições dentro de uma indústria que cada vez mais repete as agendas internacionais do establishment norte americano se tornaram aparentes desde o ataque do Hamas em 7 de outubro quando alguns nomes importantes do cinema imediatamente declaram apoio ao estado de Israel, enquanto outros pediram por imediato cessar fogo em Gaza.
Desde que Michael Moore foi vaiado no Oscar de 2003 ao discursar contra a guerra de Bush no Oriente Médio, não víamos o tamanho da divisão na indústria do cinema. Na ocasião, também na categoria de Melhor Documentário, o diretor subiu ao palco para receber sua estatueta e fez um protesto, em nome dos outros documentaristas indicados, contra a Guerra ao Terror.
Em Berlim, os diretores foram duramente atacados por autoridades alemãs, suas famílias (incluindo a de Yubal Abraham em Israel) tiveram que se esconder dos ataques da extrema direita israelense e seu filme se tornou símbolo da divisão no mundo do cinema.
“No Other Land” foi manchete ao longo de todo ano de 2024, às vezes por receber algum prêmio, outras por ter que enfrentar o discurso hegemônico pró Israel e até por ser banido de um festival na Índia de última hora.
Mesmo com as divisões na indústria do cinema quando o assunto é a questão Palestina, a centralidade que essa pauta tomou no mundo, as dificuldades enfrentadas ao denunciar um genocídio financiado pelas maiores potências do planeta, “No Other Land” achou uma indicação ao Oscar de Melhor Documentário. Se nos festivais europeus falar do genocídio em Gaza foi combustível para polêmica, isso nem se compara com o problema que é falar do assunto na maior festa de Hollywood.
Após o fim da Guerra do Vietnã e toda repercussão que esse assunto teve no cinema norte americano, o partido Democrata dos EUA manteve a indústria cinematográfica como uma grande aliada da sua máquina de guerra. Muitas vezes, estrelas do cinema norte americano foram porta vozes da política externa de Clinton, Obama e Biden. Quem acompanhou a eleição de 2024 do lado de lá viu a importância que a causa Palestina teve para a derrota de Biden, e mesmo assim, o documentário de Basel se infiltrou no centro da cultura norte-americana. Por isso, só a sua presença no domingo (2) já é capaz de causar comoção na cerimônia.
A resistência ao “No Other Land” nos Estados Unidos foi além de alguns protestos e reclamações por veículos da extrema-direita. O documentário está indicado ao prêmio mesmo sem ter quase nenhuma exibição no país (teve apenas o mínimo exigido para estar elegível ao prêmio). Isso acontece porque nenhuma distribuidora fez qualquer movimento para exibir o filme no país, mesmo com seu currículo vitorioso e a temática relevante. Nem mesmo após essas limitadas sessões auto organizadas em cinemas independentes terem esgotado sua venda de ingressos rapidamente, a causa palestina não obteve um contrato de distribuição para os EUA.
Isso diminui ainda mais as chances de vitória de “No Other Land” no domingo. O Oscar é um concurso de popularidade. Mesmo que determinado filme angarie certa simpatia prévia de parte dos eleitores, é muito difícil vencer o prêmio sem que essas pessoas de fato vejam o filme e decidam votar por ele.O boicote da indústria contra um filme que denuncia os crimes financiados pelo país no oriente médio, pode muito bem ser o fator determinante para a categoria de “Melhor documentário”, que constantemente premia o filme que melhor defende os interesses internacionais norte americanos.
Há poucos dias ele escreveu sobre como o sucesso do seu filme é contraditório com a violência cada vez mais cruel imposta pelo regime sionista sobre seu povo, entretanto, há diversos caminhos que apontam para a derrota de “No Other Land” no Oscar. Mas, se um povo que enfrenta décadas de um massacre violento ainda luta por suas terras, não podemos duvidar da força dele de impor uma derrota ao colonialismo israelense e norte americano dentro da sua casa, e muito menos, acreditar que “No Other Land” sair sem a estatueta de Melhor Documentário possa representar uma perda de um centímetro à heroica resistência palestina.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.