por Divya Arya – BBC

Em Padampura, no estado de Rajastão, noroeste da Índia, o futebol tornou-se instrumento de transformação social para meninas que enfrentam a pressão do casamento infantil.

A história de Nisha Vaishnav ilustra essa mudança. Aos 14 anos, enquanto treinava com a irmã Munna, de 18, foi observada por uma família interessada em escolhê-la como noiva para o filho. Apesar da disposição inicial da mãe em aceitar a proposta, Nisha recusou.

Embora a lei indiana proíba o casamento antes dos 18 anos para mulheres e 21 para homens, cerca de 25% das mulheres do país se casaram antes da idade legal, segundo o Unicef. Nos anos 1990, essa taxa era de 66%. Em Rajastão, os índices seguem acima da média nacional.

O ponto de virada para as irmãs foi o projeto Football for Freedom, vinculado à organização de direitos das mulheres Mahila Jan Adhikar Samiti. Criado em 2016, o programa já treinou cerca de 800 meninas em 13 aldeias.

Foto: BBC

Munna liderou na comunidade a luta para que as jovens pudessem usar shorts, em vez de túnicas tradicionais, e viajar para torneios. Em uma região onde mulheres casadas cobrem o rosto em público, a prática esportiva representa autonomia.

Nisha destacou-se rapidamente e integrou a seleção estadual em 2024. Em 2025, a equipe conquistou o primeiro lugar nos Jogos Escolares estaduais sub-17. Ela sonha em jogar pela seleção nacional ou conquistar um emprego público reservado a atletas.

Segundo o Ministério da Mulher e do Desenvolvimento Infantil, 1.050 casos de casamento infantil foram registrados em 2021, número que representa apenas uma fração das cerca de 1,5 milhão de meninas menores de 18 anos que se casam anualmente no país.

Para Munna, hoje com 19 anos, o objetivo vai além do futebol: “Consiga eu impedir o casamento delas ou não, quero ajudá-las a se tornar alguém na vida.”