A aprovação da reforma trabalhista do presidente Javier Milei no Senado argentino foi precedida por uma das jornadas de maior repressão às mobilizações sociais desde o início de seu governo. Enquanto milhares de trabalhadores, sindicatos e organizações sociais se concentravam em frente ao Congresso para protestar contra o projeto, a polícia avançou com gás lacrimogêneo, balas de borracha e jatos d’água para dispersar a manifestação.

Segundo organizações de direitos humanos e veículos locais, a repressão deixou mais de 300 pessoas feridas e ao menos 30 detidas. Imagens registradas nas ruas do centro de Buenos Aires mostraram manifestantes sendo perseguidos e agredidos, em um cenário de forte tensão política e social. Para centrais sindicais, a resposta do governo evidenciou a tentativa de impor uma reforma profundamente contestada nas ruas.

Apesar da massiva mobilização e do saldo de violência, o Senado concedeu media sanção ao projeto impulsionado pelo governo. A base oficialista conseguiu reunir os votos necessários após negociações e concessões a setores da oposição, consolidando um passo decisivo na agenda de desregulamentação econômica defendida por Milei.

O governo apresenta a proposta como uma “modernização” das relações de trabalho. No entanto, sindicatos e especialistas alertam que a iniciativa representa um retrocesso estrutural nos direitos conquistados pelos trabalhadores argentinos ao longo de décadas, ao flexibilizar garantias históricas e enfraquecer mecanismos de proteção coletiva.

Fotos: Matias Baglietto

O que muda com a reforma e por que sindicatos falam em retrocesso

Entre os pontos mais controversos do projeto estão:

  • Criação de banco de horas, permitindo compensar horas extras com folgas, o que pode resultar em jornadas extensas sem pagamento adicional proporcional;
  • Possibilidade de fracionamento das férias, hoje garantidas de forma contínua;
  • Mudanças nas indenizações por demissão, com potencial redução de valores pagos aos trabalhadores;
  • Limitações ao direito de greve, com ampliação das atividades consideradas essenciais;
  • Enfraquecimento das negociações coletivas e dos sindicatos, priorizando acordos individuais entre empregado e empregador.

Para as centrais sindicais, essas medidas deslocam o equilíbrio das relações de trabalho em favor das empresas, precarizando vínculos e reduzindo a capacidade de organização coletiva. A crítica central é que, sob o argumento de incentivar o emprego e reduzir custos trabalhistas, o projeto desmonta pilares históricos da legislação laboral argentina.

Com a media sanção no Senado, o texto segue agora para a Câmara dos Deputados. Organizações trabalhistas prometem manter a mobilização e não descartam novas medidas de força contra o que consideram um desmonte dos direitos sociais no país.