Por Cleo Manhas

Durante os últimos anos, o ataque à política de educação foi central para o crescimento da extrema-direita e seus fundamentalismos. Algumas teorias absurdas, como ideologia de gênero, escola sem partido, tomaram conta do chão das escolas, dificultando o trabalho pedagógico e criminalizando professores e áreas do conhecimento, como as ciências humanas.

Acompanhamos denúncias sobre politização e ideologização da educação, quando, na verdade, o que estava crescendo era o alastramento de uma ideologia específica, a extremista, desconsiderando as ciências, reescrevendo a história e banalizando a violência crescente. Não bastasse as nossas mazelas internas, ainda somos bastante influenciados pelo que vem do norte e a identificação promove mimetismos. Ou seja, os ataques às escolas, que não faziam parte de nosso horizonte, há alguns anos têm sido cada vez mais frequentes e cresceram exponencialmente a partir de 2018.

Muita gente se arvora a palpitar, sem conhecer política de educação e sem ter vivência como educador/a. Na maioria das vezes, as soluções propostas são também violentas, como colocar polícia armada dentro das escolas, mais muros e catracas, revistas, detectores de metais, punição para os pais em caso de os agressores terem menos que 18 anos. E as vozes mais sóbrias, vindas de quem dedicou a vida a entender e participar da vida escolar, muitas vezes são silenciadas na grande mídia e redes sociais, por não serem alarmistas ou sensacionalistas como pedem os algoritmos.

O enfrentamento da violência precisa ser a partir de suas causas, que estão misturadas com as enormes desigualdades que nos separam. Há questões estruturais que precisam ser encaradas, como a valorização, de fato, da educação para todas as pessoas, independente da cor, território, gênero, renda. A pandemia escancarou uma realidade cruel: com a necessidade de afastamento das aulas presenciais, as distâncias entre estudantes de baixa renda e de alta renda, brancos e negros, ficaram muito gritantes.

E ainda tivemos quatro anos de despolítica executada pelo Ministério da Educação, que com a falta de liderança e diretrizes, deixou as redes estaduais e municipais ao vento, sem direção que as fortalecessem em momento tão difícil. Ao contrário, o que o ministério emanou foi a continuidade da implantação da reforma do ensino médio, sem que antes fossem avaliados os efeitos do longo período com as escolas fechadas na vida dos docentes, discentes e suas famílias. Sem acolhimento das pessoas que retornaram com saúde mental abaladas.

Propuseram, ainda, o homeschooling, como panaceia para as famílias abastadas educarem os seus filhos sem intermediações. O que deixa crianças e adolescentes vulneráveis, sem a socialização promovida pela vida escolar. Propuseram, ainda, escolas cívico-militares para escolas com piores indicadores, o que no mínimo é irônico, pois se as instituições estão com dificuldades pedagógicas, por que daremos soluções pedagógicas? Vamos procurar o Ministério da Defesa, que resolverá com medidas autoritárias, hierarquizadas, que se prendem às questões culturais como cabelos, vestimentas e outros componentes das diferentes identidades expressas nas escolas.

A cultura do ódio desceu a rampa do Planalto nas últimas eleições, mas está espalhada pelas redes sociais, pelo chão das escolas, na sociedade de maneira geral. E a forma de combatê-la é fazer o movimento contrário, de desconstrução desse discurso, por meio de ações educativas e culturais. É preciso demostrar que armar a população só aumenta a insegurança. Aumentar o aparato militar amplia a sensação de terror, não regulamentar as redes favorece o crescimento da cultura do ódio, pois há sensação de impunidade.

O Parlamento permitir que discursos LGBTfóbicos, racistas, misóginos, violentos e desrespeitosos com qualquer pessoa que não seja considerada dentro do padrão hegemônico, só amplia o alcance do ódio e propagação de atos como esses que estão ocorrendo nas escolas, mas não só, porque também crescem feminicídios, crimes de ódio, crimes de racismo, violência contra a comunidade LGBTQIAP+.

Então, o movimento precisa vir dos poderes constituídos e da sociedade. E precisa ter na vanguarda os direitos humanos, a desmilitarização das escolas, o desarmamento da população, a participação ativa da sociedade nas políticas públicas. O Governo Federal precisa articular estados e municípios para juntos proporem ações efetivas, que revigorem o cotidiano das escolas. Para isso é preciso recursos orçamentários direcionados para a infraestrutura das escolas públicas. Reformas, ampliação, redução do número de estudantes por sala, mais quadras poliesportivas, bibliotecas, laboratórios, utilização da internet a favor do ensino e aprendizagem. E, principalmente, o MEC (Ministério da Educação) precisa revogar urgentemente o decreto que criou o programa das escolas cívico-militares.

Cleo Manhas, é assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc)

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