Foto: Shareef Sarhan / UN

Por Gian Spina

A Palestina é um lugar que gera uma série de questões envolvendo perigo eminente, guerras e, por muitas vezes, terrorismo. Agora, a questão fundamental é entender o que e por que isso tudo acontece e está acontecendo lá.

O território hoje é composto por três áreas: a Cisjordânia (west bank), a faixa de Gaza e os territórios que foram ocupados e que se transformaram no estado de Israel. 

A história da região é muito longa para este artigo e logo vou me concentrar a partir de 1948. Nesse ano é formado o estado de Israel com a ajuda da ONU e das grandes potências econômicas mundiais da época que após a Segunda Guerra fizeram da Palestina um estado para o povo judaico. Naquele mesmo ano, entre 850 mil e 1 milhão de palestinos foram desalojados. Sim, foram colocados para fora de sua casa, na rua, em recém-construídos campos de refugiados. Isso foi parte de um grande plano de expulsão sistemática dos palestinos das vastas regiões do país. O plano D (Dalet em hebraico) tinha como premissa “intimidar em grande escala, sitiar e bombardear vilarejos e centros populacionais, atear fogo nas casas, propriedades e bens, expulsar, demolir e finalmente depositar minas entre os escombros para impedir o retorno de qualquer um dos habitantes expulsos”. Esse trecho do livro Limpeza Étnica na Palestina narra um pouco do horror que foi/é o começo do projeto colonial da região. As casas e áreas do país foram aos poucos habitadas por uma população vinda em sua grande maioria da Europa. O que aconteceu na formação do estado é o que segue acontecendo de formas distintas e usando métodos e armas contemporâneas para a legitimação da violência e matança.

Hoje se fala muito em democracia e como o estado de Israel é aberto e liberal, mas pouco se fala que a tal democracia e liberdade existem apenas para uma parte da população. Em certa forma como no Brasil. Achar que a democracia existe quando pessoas armadas pelo estado entram na sua casa e fuzilam a sua família é muito difícil.

Uma população que é constantemente vitima de violência, desalojada sistematicamente e não vacinada durante uma pandemia não está vivendo a dita democracia. E aqui eu estou falando do Brasil e da Palestina.

Na Cisjordânia, existem hoje territórios que são uma espécie de condomínios fechados pertencente aos israelenses, ou seja, lugares cercados com ruas particulares onde palestinos não podem andar e militares que fazem com que isso aconteça de fato. As colônias servem para picotar o território palestino e ganhar áreas pouco a pouco. Os colonos ganham auxílio financeiro do governo e muitos vêm da Europa e Estados Unidos passam a morar nessas áreas para garantir zonas de maioria judaica. A Cisjordânia é separada por um muro. Sim, um muro que aparta pessoas. Construído por volta de 2005, o muro, segundo a narrativa Israelense, serve para garantir a segurança e impedir terroristas.

Gaza é uma prisão a céu aberto. Imagina que você tem uma área com uma altíssima densidade demográfica, todas as entradas (menos uma que dá para o Egito) e saídas são controlas pelo exército de Israel, tudo que entra e sai é autorizado ou não pelo mesmo exército, a luz é cortada, falta água e a economia é quase que inexistente. Agora você adiciona a essa imagem bombardeios feitos por drones e cassas, bombas que caem e levam prédios ao chão em segundos. Há cercas e tanques em volta de Gaza, então não dá para sair. As crianças crescem com isso, acham que é normal esse tipo de vida, ser bombardeado e ver tudo virar poeira. Os indices de depressão e estresse pós traumas são enormes.

Jerusalem. A cidade é basicamente o centro disso tudo. O terceiro lugar mais importante da religião muçulmana é divida em leste (parte Palestina) e oeste (parte Israelense). Dominar essa cidade, fazê-la maioria Israelense e transformá-la na capital é uma das mais importantes metas do projeto sionista. Existem já projetos arquitetônicos mostrando como será o futuro da cidade um vez que todos os palestinos sejam expulsos.

Existem muitas contranarrativas que dizem que o problema é do Hamas, da religião, de uma espécie de não liberdade. Mas ao final, tais narrativas se assemelham muito com narrativas de direita que nomeiam inteiras populações brasileiras de bandidos, vagabundos e outros insultos a fim de concretizar certos projetos. Chamar narrativas contra isso tudo de antissemitas é justamente o truque usado para perpetuar isso. O problema não é a religião judaica, o problema é o uso de narrativas bíblicas para a construção de um estado e a eliminação de um povo.

Lá é aqui. Se alinhar com os crimes cometidos por Israel é se alinhar com a polícia do Rio de Janeiro. Há genocídio lá e há genocídio aqui, há despejos lá e aqui, não é guerra nem conflito lá e aqui. Um lado tem mira laser e outro tem pedra e estilingue, e as forças são sim desproporcionais, usa-se drone e comunicação de ultima geração, tudo 4K.

Fechar os olhos e virar a cara para isso é virar a cara para os genocídios que acontecem aqui. E esse tempo não dá mais.

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