Por Isabela Alves para Mídia NINJA.

Foto: Eduardo Figueiredo / Mídia NINJA

Em tempos de morte da Marielle, intervenção militar no Rio de Janeiro, enfraquecimento de alguns movimentos sociais, o decreto de prisão do Lula é mais um recado de quem está no poder, que querendo ou não, ainda são os colonizadores.

Se olharmos os números sociais dos últimos 14 anos de PT no poder, percebemos que o encarceramento de mulher negras aumentou, assim como o encarceramento de homens negros. Também notamos que o número de pessoas ricas que ficaram mais ricas também aumentou. No entanto, também percebe-se que existe um vasto número de pessoas que acreditam no Lula, na Dilma e no PT.

Eu cresci no governo petista, foi época de ouro. Dava para ver o tanto que as pessoas viajavam, compravam, gastavam, faziam planos. Esse sentimento de ter algum poder, para a periferia, é algo de extrema importância e perigo. Porque, de fato, enquanto tínhamos o bolso quase cheio, os banqueiros e o Estado lucravam de alguma forma. É por isso que a crítica ao PT tem que ser feita de maneira complexa.

Lula representou o início da luta política de muita gente. Hoje, pessoas filiadas a outros partidos, autônomas ou membros de coletivos, conheceram a esquerda através do governo Lula.

O sonho do jovem de periferia foi, em algumas vezes, contemplado: ter emprego, casa própria e um carro.

A imagem do Lula no poder, significou por muito tempo, a vitória de uma esquerda. Uma esquerda falha e nada diversa, como hoje sabemos. Entretanto, ter ele ali ocupando o maior cargo político existente no capitalismo democrático, era um sinal de que em vinte, trinta anos, iríamos conseguir eleger um presidente negro, ou presidente da comunidade LGBT, ou uma presidenta, já que o Lula foi o presidente proletário. Não só foi símbolo de direitos humanos garantidos, Lula lançou a candidatura da primeira mulher presidenta, a Dilma. Um dos sonhos deu quase certo.

Hoje temos ele em processo de prisão e Dilma golpeada. Temos Marielle morta e Rafael Braga preso e doente. As realidades são outras, mas ambas mostram como nossos colonizadores não toleram nenhum tipo de defensor de direitos humanos no poder. Nenhum.

É necessário sim comparar o encarceramento dos cargos políticos com o encarceramento de homens e mulheres favelados. Precisamos refletir como garantimos o direito à liberdade em todo o procedimento de prisão dos nossos políticos. Lula foi condenado ao dia de hoje em 2016, ficou 2 anos em campanha para reafirmar seu nome, ficou 2 anos construindo a imagem de herói do povo, ficou 2 anos em liberdade plena. Rafael Braga tirou foto em um pixo e voltou para a condicional. Isso só mostra como o sistema de justiça do Brasil é falho e tem a mente escravocrata.
É falho porque a justiça tem olhos bem abertos e a pele branca, é falho porque não tem vergonha de condenar pessoas negras em massa, como forma de genocídio, e é falho porque faz questão de colocar um grande político na cadeia.

Porém, fico pensando como podemos aproveitar esse momento de fragilidade dos movimentos sociais organizados pelo PT para refletirmos algumas coisas, e quem sabe, conseguirmos de fato reconstruir a esquerda brasileira. Por exemplo, iremos saber quem realmente não defende a população periférica, quando essa pessoa só se mostrar indignada com a prisão do Lula. Precisamos nos indignar com tudo o que acontece, principalmente quando vidas são tiradas. Também iremos ver como grandes partidos usam suas pautas em próprio favor, o PT passará a ter uma forte imagem de resistência e persistência, isso será eternamente colocado. E, por fim o ponto que para mim é o principal, a esquerda finalmente irá criar perspectivas concretas de mudanças no sistema de julgamento e prisão, porque tocou no símbolo primordial.

O Lula ser condenado à prisão é forte. É difícil. É recado. É dor. É ponto de partida.

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