Imagem de Foundry Co por Pixabay

Por Vinícius Lara

Deu entrada no hospital na tarde do dia dezessete sem maiores incômodos do que uma dor que irradiava do centro das costas até os ombros, e ficava mais forte conforme a respiração era mais funda. Se tivesse reparado melhor, teria percebido que o paladar não era o mesmo há alguns dias. Na verdade, essa ida à emergência deveria servir apenas para acalmar a filha única que mora no Recife e sofria por não poder estar com os pais durante a quarentena.

No início do isolamento tinha cumprido todas as medidas necessárias de acordo com  o que diziam a tv e os grupos de whatsapp de que fazia parte. Na igreja os cultos foram suspensos, o que deu um ar de maior seriedade ao problema e fez com que imaginasse ser algo sério, porque desde que era menino nunca tinha visto missas serem suspensas. As coisas afrouxaram quando o tempo passou e não conheceu alguém do bairro que estivesse contaminado. Se fosse tão grave o impacto seria pior. No fundo chegou a imaginar que se tratava de uma jogada política para desestabilizar o governo. Saia à rua só duas vezes por semana. A primeira era geralmente no domingo, quando comprava comida seja na feira que continuava acontecendo no bairro, ou no supermercado. A outra era para fazer uma caminhada se a cabeça ficava cheia demais.

Não era dos grupos de risco. Se o que o presidente disse era verdade, não precisava se importar, tinha histórico de atleta. Quase foi jogador de futebol quando era mais novo, mas como se casou e precisava de uma renda fixa num espaço de tempo curto, trocou os campos pela contabilidade. Seu salário junto com o da esposa professora mantiveram a vida e serviram para estudar a filha, que agora terminava o mestrado.

Foi atendido como emergência na triagem do plano de saúde. O médico usava máscara e luvas. Colheu os sintomas e os olhos demonstraram apreensão quando auscultava o peito do paciente. Chiava.

Você tosse?

Não doutor, ainda não tossi. Isso deve ser alergia.

E falta de ar?

Na realidade estava sentindo o fôlego curto. Subia dois lances de escadas para chegar em casa, e nas últimas saídas teve dificuldade para subir. Contou ao médico. Naquela tarde foi orientado que ficasse no hospital, em observação. A esposa teve que voltar para casa.

Ficar sozinho não fez bem ao ânimo. Via toda a equipe com máscaras, luvas e os enfermeiros com cuidado para não respirar perto demais. Isso afetava tanto o psicológico que no final da noite não conseguiu dormir. Faltava posição na cama e tinha a sensação de que carregava um saco pesado sobre o peito, que agora começava a arfar arranhado. Sentiu medo. Na medida em que a madrugada rasgava a noite, o som do ar entrando e saindo da boca seca e combatente roubava o silêncio do quarto. Precisou de medicações específicas para aliviar esses sintomas e foi levado para a ala do isolamento. Quanto mais para dentro do hospital ele era encaminhado, mais medo estampava no rosto. Nessas regiões a face de todos os médicos, enfermeiros, maqueiros ou auxiliares de limpeza era tatuada pela expressão que nasce da proximidade cotidiana da morte. Testou positivo para COVID-19. Dos trinta e dois leitos separados para a pandemia, catorze estavam ocupados.

Entre o dia dezessete e o dia dezenove o quadro pareceu estável. Respirava com pouca dificuldade, e embora não recebesse visita dos familiares podia usar o celular para fazer ligações e videochamadas com a esposa e a filha. Vivia agora o isolamento dentro do isolamento, o que causava uma impressão terrível.

Se mexer no leito agora era dolorido, e por isso permanecia a maior parte do tempo olhando para o teto onde tubulações de gases se espalhavam pela enfermaria. De vez em quando fechava os olhos sem conseguir dormir por muito tempo. As pessoas faziam pouco barulho, mas o ruído dos respiradores em volta causava a sensação de que os peito dos entubados era forçado a se expandir e encolher, e que só estavam vivos pelas máquinas, era tênue demais esse limite. Mais de uma vez pensou no que aconteceria se faltasse energia ou se o aparelho queimasse, como queimam os chuveiros e os liquidificadores. Limpava essas ideias da cabeça lembrando de Santo Expedito. Quando não doía pensava em Deus. Seu consolo era o cuidado heróico da enfermagem e dos médicos. Até então, como raramente tivesse ido a uma emergência, reparava pouco no que faziam de fato os enfermeiros além de colher sangue, e em como trabalham os médicos fora dos consultórios. A realidade era um pesadelo.

Dia vinte. Os trinta e dois leitos estavam ocupados. Percebeu quando as pessoas a sua volta começaram a ser entubadas e ficou impactado com a chegada de um rapaz bastante jovem, não tinha trinta anos. A aparência da equipe estava cada dia mais abatida, porque lutavam uma guerra sem data para terminar contra um inimigo invisível. Ficava cada vez mais difícil respirar. Um medidor na cabeceira da cama apitou, o que fez com o plantonista se aproximasse. Pôde ouvir bem baixinho o doutor dizer consigo mesmo “ o coração… a pressão está muito alta… está saturando” enquanto se virava e voltava à ilha da enfermagem. O medo disparou a adrenalina. Quarenta e dois anos, produtivo, bem casado, religioso, feliz.

O que aconteceu em seguida não durou mais que uma tarde. Os picos de pressão aumentaram e o peso no peito junto com a dor nas costas só faziam crescer. No ápice da falta de ar e do desespero os médicos estavam envolvidos na intubação de outro paciente, chegaram em dois minutos e fizeram de tudo. A pele estava roxa pela hipóxia, fez duas paradas cardíacas. No celular, na cabeceira da cama, havia o registro de três chamadas não completadas nas quais se lia o nome “Amor”. Na tela de notificações uma mensagem de resposta “Não consegui atender, estava no banheiro. Liga de novo.” Estava morto. Pacientes ao redor aprendiam pela repetição que era assim que acontecia nos piores casos, e ninguém poderia garantir que não seria assim sua situação particular. Um idoso cobriu a cabeça deixando só os olhos à mostra.

O mais triste nisso tudo – pensou um enfermeira morena que tinha pouco mais de dois anos de formada, enquanto trocava as roupas de cama – é que se morre rápido demais, e quando alguém vai, é preciso retirar o corpo e refazer o leito, mais gente chega a toda hora. Esse vírus faz a morte se tornar mais solitária, triste e banal do que normalmente já é. Naquele dia outros cinco como ele morreram..

Quem retornou a ligação da esposa foi uma psicóloga. A mulher deveria ir ao hospital, a filha deveria voltar do Recife, a família não poderia velar o corpo. Essa doença reduzia o homem a bicho. Infelizmente não conheceriam mais Jericoacoara em outubro.

Na sala de espera do hospital a televisão funcionava sem espectadores particulares. Mesmo o volume estando baixo, alguém sentado mais próximo a ela, no entanto, poderia escutar a voz de um tal messias: “E daí? O que é que eu tenho com isso?”

Vinícius Lara é mineiro e reside na cidade de Juiz de Fora. Graduado e mestre em História, com ênfase em história da cultura. Fotógrafo amador e amante do absurdo, sente-se especialmente atraído pelo cotidiano em suas expressões mais cruas, o que procura expressar através da escrita. Atualmente gerencia o projeto Absurda Letra tanto no blog (www.absurdaletra.com.br) quanto no Instagram (@absurdaletra) com a finalidade da popularização da literatura e do hábito de ler e escrever.

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