Foto: Divulgação

Por Rodrígo Olivêira

Hoje, 02 de abril, é o dia de conscientização mundial sobre o autismo, onde todos os meios de comunicação e as redes sociais se enchem de vídeos falando sobre a data, sobre o que é o transtorno, trends são feitas para poder trazer um pouco de luz a esta temática super importante para a saúde mental das pessoas.

Eu, Rodrígo Olivêira, tenho 30 anos de idade, sou Autista Nível 1 de Suporte. Mas só fui diagnosticado apenas em novembro de 2022, aos 29 anos, após seis anos de tratamento psicológico e psiquiátrico ineficazes, cujas profissionais sequer suspeitaram que eu seria TEA. Foi preciso uma internação de 20 dias em plena pandemia e necessitar de acompanhamento em um hospital dia por mais de seis meses entre 2022 e 2023, aqui em Salvador, para eu poder descobrir quem eu sou e as respostas para todas as minhas angústias pelos quais eu vinha passando desde sempre.

Ontem me indicaram para ser entrevistado sobre a data de hoje, me foram feitas sete perguntas, e foi ao ar no máximo uma ou duas perguntas, o que é normal do jornalismo. Afinal, também serei um futuro jornalista e entendo que haja recortes para direcionamento.

Ao acordar, fiquei na esperança de ver conteúdos bacanas e coerentes sobre a data de hoje, mas, ledo engano. Na primeira matéria que vi sobre a data de hoje, eu simplesmente me frustrei em ler um erro crasso quando é abordado sobre o autismo, em especial o Nível 1 de suporte, que é o meu caso.

Lá estava:

O TEA possui três níveis, que são estabelecidos pelo grau de necessidade de apoio da pessoa com autismo:

  • Nível 1 de suporte: é considerado o mais “leve”, que precisa de pouco suporte.
  • Nível 2 de suporte: já precisa de mais apoio, é um nível intermediário entre o 1 e 3.
  • Nível 3 de suporte: demanda mais atenção e suporte do que os demais níveis.

Quando meus olhos bateram nas palavras: “grau”, “leve” e “intermediário” eu tentei respirar fundo e não querer me intrometer na matéria da futura colega jornalista, pois, profissionalmente, isso é errado. Mas inocentemente fui atrás de uma colega de faculdade que estagia lá.

Eu só falei: “Eu vi aqui a matéria de (nome suprimido para evitar exposição) que tá com imprecisões com relação ao autismo“.

Como resposta veio um áudio de 22 segundos dizendo: “(…) aqui a gente não faz nada sem apuração, não, tá? Ela utilizou uma fonte, conversou com alguém, a gente não vai publicar NADA na brincadeira, na molecagem não. Então, a partir do momento que ela usa uma fonte, ela utilizou as informações que a fonte mandou, tá bom?“.

E após ouvir esse áudio, num tom rude, onde só foi mencionado a palavra imprecisão, imediatamente fiquei sem forças para dar uma resposta a essa colega. O que poderia ser um dia de visibilidade, se tornou uma situação de invisibilidade para mim.

Questiono:

  • O que vale é a palavra de um profissional com diploma de médico ou de psicologia?
  • Por qual motivo não querer ouvir um colega que é Autista Nível 1 de Suporte, que tem vasta vivência psiquiátrica, psicológica, de preconceitos (infelizmente) vividos, principalmente praticada por um médico que se recusou a colocar o Diagnóstico de TEA junto com o de TDAH (comorbidade esta, comumente presente no autismo)?
  • Por qual motivo uma pessoa com Nível 1 de Suporte tem que ser tratada como “Autista Leve” e que “precisa de pouco suporte”? Só pelo fato de que não somos tal qual nossos pares autistas que estão no Nível 3 de Suporte?
  • Qual o motivo de não querer ouvir e preferir o coleguismo e assim perpetuar uma informação falsa sobre nós, Nível 1 de Suporte?

Na comunidade autista, a qual estou inserido, é constantemente debatido e rechaçado a utilização das palavras “grau” e “leve”, entre outras.

É por situações como essas que muitos autistas que são reiteradamente invisibilizados cometem atos que atentam contra a própria vida, que é a causa principal de mortalidade das Pessoas com TEA.

Como Autista Adulto, diagnosticado tardiamente aos 29 anos, sou constantemente invisibilizado e invalidado, tanto: por médico psiquiatra, na fila preferencial, estacionar na vaga para Pessoa com Deficiência (a com símbolo representada por um cadeirante), receber olho torto quando preciso usar algum direito preferencial quando estou com meu cordão e meu CIPTEA (Carteira de Identificação de Pessoas com TEA), entre tantas outras situações.

É por essas e outras, que o dia 02 de abril é uma data em que deve ser lembrada não só pelo dia em si, mas para dar VOZ e o devido respeito às pessoas autistas que vivem diariamente a sua neuroatipicidade e suas constantes invalidações e invisibilizações em seu cotidiano. Sejam elas os pais e responsáveis pelas crianças, e principalmente os adultos, que são alvos constantes de invalidações. Afinal, a criança cresce!

Ter visibilidade é muito bom, mas praticar a escuta ATIVA da voz de uma Pessoa Autista, essa será uma luta constante.

Parafraseando o cantor Chorão de Charlie Brown Jr.: Dias de Lutas, Dias de Luta, Dias de Luta… (para quem sabe algum dia de Glória)

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