A estátua ‘Fearless Girl’ em frente à Bolsa de Nova York. Foto: Luiz Roberto Lima / Pacific Press

Por Um Príncipe do Gueto, de Nova York, à Mídia NINJA

Por um momento durante essa crise que se abateu sobre todos nós eu me deixei levar pelas campanhas online divulgadas em todo o mundo mostrando como o Covid-19 nos tornava iguais, ceifando a vida de ricos e pobres, mulheres e homens, negros e brancos. Imaginei que talvez havia chegado a um ponto que a humanidade estaria finalmente na mesma trincheira.

Sim, no primeiro momento o coronavírus parece bem “democrático”, mas ao voltar para a minha casa em New York após uma temporada no Brasil, relembrei da frase da minha amiga Thamyra Thamara do GatoMídia, projeto desenvolvido no Complexo do Alemão, “apesar de estarmos no mesmo mar turbulento, não dividimos o mesmo barco”.

Eu voltei para os EUA no dia 18 de março, alguns poucos dias antes da quarentena total ser oficialmente decretada pelo governador Andrew Cuomo. Esperava um controle extremamente rigoroso no aeroporto, mas fui surpreendido por um formulário com perguntas básicas sobre meu estado de saúde que, aliás, ninguém me pediu de volta ao passar pela imigração.

Isso já era um prelúdio de como a pandemia estava sendo tratada pelas autoridades americanas, a nação mais rica do planeta.

O noticiário só confirmava o caos: profissionais de saúde enrolados em sacos de lixo, falta de equipamentos de proteção básicos, pouquíssimos testes, médicos com máscaras que deveriam ter uso máximo de 4 horas. Na TV, uma enfermeira chorava porque não tinha nenhum EPI para usar enquanto atendia aos pacientes que chegavam aos montes em um hospital de NY. O número de mortes aumentando assustadoramente.

A Times Square, o coração pulsante de New York, parece estar na UTI, só que sem o respirador, como muitos pacientes nova iorquinos. Na TV o presidente Donald Trump destila a sua arrogância, como se tudo estivesse sob controle. Nas ruas, o que se vê e se ouve são dezenas de ambulâncias que correm as ruas da ilha sem parar. O 911, a central de emergência de Nova York, recebendo ligações há cada 15 segundos. Do outro lado, vozes em pânico falam de entes queridos com problemas de saúde, parada cardíacas e falta de ar.

Segundo o Corpo de Bombeiros da cidade, calcula-se a média de mais de 5.500 solicitações de ambulância por dia, dessas (300 são ataques cardíacos – e 200 acabam morrendo) – cerca de 40% a mais do que o normal, eclipsando o volume total de chamadas do 11 de setembro de 2001. Na realidade, a sensação que temos é que todo dia é um novo 11 de setembro.

O Covid-19 na última semana matou em New York o dobro de mortes do World Trade Center, de acordo o governador Cuomo. Somente no estado de NY já são 11,815 mortes, de acordo com os dados oficiais. Em todo o país, 31,456 mortes por infecção por coronavírus, segundo a Universidade Johns Hopkins .

Uma parte da população está adoecendo e morrendo aos montes na América. As imagens dos corpos cobertos com sacos branco, cobrem mais do que corpos, escondem as histórias de milhares de imigrantes e negros americanos – e desvela uma desigualdade abissal.

Quem morre no sonho americano?

Na base da pirâmide social americana estão os imigrantes – chamados de “latinos”. O mesmo acontece com a população negra composta majoritariamente por cidadãos americanos. Onde por lei não é possível alocar a mão de obra do “indocumentado”, entram os trabalhadores negros que “têm papel” ocupando postos de trabalho em sua maioria em serviços públicos, restaurantes, sistema de transporte, hospitais, prisões, correios. Trabalhos com baixas remunerações.

Em NY, os negros compõem também a base da pirâmide social – só não levam uma vida ainda pior, por conta do grande número de imigrantes. NY é considerada uma “cidade santuário” – o que significa que a cidade adota políticas imigratórias que protegem os imigrantes que aqui vivem.

No estado de NY o coronavírus tem matado mais latinos do que os afro-americanos, segundo os últimos dados do governo, 29% das mortes são de latinos. Mas em alguns estados, principalmente os mais conservadores e pobres, os afro-americanos também vivem em condições de miséria.

Os altos números de mortandade negra escancaram as desigualdades persistentes no coração da América entre negros e brancos, e também o fosso entre ricos e pobres.

Sociólogos e epidemiologistas dizem que os negros têm quase todas as pré-disposições que aumentam e muito a vulnerabilidade dos pacientes com Covid-19 – entre elas -, asma, diabete, hipertensão, HIV e câncer por conta das desigualdades econômicas e sociais.

“Não lidamos com a desigualdade social na América, seja na educação, no trabalho ou na renda”, disse Hedwig Lee, professora de sociologia da Universidade de Washington em St. Louis, que estuda as disparidades raciais na saúde.

Nas áreas mais pobres – que tendem a ter populações não-brancas – existem menos acesso aos serviços de saúde e a qualidade de atendimento é pior do que nas partes mais ricas dos país. Os trabalhadores mais pobres têm menos condições ter seguro saúde – hoje estima-se que mais de 32 milhões de pessoas não têm seguro saúde nos EUA e, esse número pode saltar para mais de 60 milhões em poucos meses com o aumento do desemprego, segundo o jornal The New York Times.

A população afro-americana também tem menos oportunidades de ter trabalhos passivos de home office e, portanto, mais propensos a continuar trabalhando nas linhas de frente dos serviços essenciais durante a quarentena – assim, sendo obrigados a se colocar mais em risco de contrair o Covid-19.

Outra questão bastante importante é a questão das moradias precárias, várias famílias morando juntas ou pessoas em situação de rua e em carros facilita a propagação do vírus. Pois essas pessoas acabam não tendo condições mínimas de se protegerem. Logo, isso dificulta por exemplo, o isolamento de um único membro da família com suspeita de contrair o Covid-19.

Para o líder dos direitos civis Rev. Jesse Jackson em entrevista à Associated Press, o “coronavírus” revela a “realidade e expõe a “fraqueza e as oportunidades” nos EUA. “São negócios inacabados na América – somos livres, mas não iguais”, disse o líder dos direitos civis.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), o órgão americano responsável pelas políticas públicas de combate ao Covid-19 divulgou no dia 17 de abril novos dados preliminares sobre raça e o coronavírus. Revelaram que 30% dos pacientes do Covid-19 são afro-americanos, mesmo os afro-americanos representando apenas 13% da população.

Vejam o que os números nos revelam:

Dados oficiais do estado da Louisiana mostram que 7 em cada 10 vítimas do Covid-19 são afro-americanos. Embora apenas 23% da população local seja negra;

No condado de Charlotte, na Carolina do Norte, apenas 33% da população é negra, mas os negros representam cerca de 44% dos casos de Covid-19, de acordo com o Charlotte Observer. Já no estado da Carolina do Norte, são 26% das mortes;

Em Michigan, as concentrações mais altas de casos são em condados de maioria negra. Os afro-americanos representam 14% da população, mas 40% das mortes no estado;

Em Wisconsin, os afro-americanos representam 6% da população, mas quase 40% das fatalidades do Covid-19.

Desigualdade racial nos EUA é maior do que há 40 anos

Sim, a desigualdade racial nos EUA é maior do que a observada há 40 anos, segundo pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Ohio. Para cada $1 recebido ou acumulado por uma família branca, uma família negra recebe $0,05 no país mais rico do mundo.

O resultado é que, mesmo após a aprovação da Lei de Direitos Civis em 1964, a mobilidade social na América é a mesma há mais 50 anos. Na prática, os Estados Unidos não realizaram a inclusão dos negros, e também nunca houve tanta concentração de riqueza como agora.

Segundo o professor de Economia Darrick Hamilton, diretor executivo do Instituto Kirwan para o Estudo de Raça e Etnia no Estado de Ohio, os 400 americanos mais ricos da Forbes possuem mais riqueza do que todas as famílias negras do país e mais um quarto das famílias latino-americanas.

Ainda segundo estudos do professor Darrick, essa desigualdade é resultado do que ele denomina de “Economia de Estratificação”, em que “os grupos dominantes discriminam como uma maneira de preservar o status”. Mantendo-se assim as desigualdades raciais.

Ao lado de Derrick, a pesquisadora Sandy Darity afirma que “a economia da estratificação pressupõe a racionalidade da discriminação, que é funcional na promoção do status relativo do grupo privilegiado”. Isso significa que a falta de acesso a financiamento para as famílias negras adquirirem a casa própria, as dívidas nas universidades, os salários mais baixos para homens e mulheres negras, – mesmo desempenhando as mesmas funções – ou tendo melhores qualificações do que o branco, na prática é um mecanismo de promoção da elite branca, segundo o professor Derrick.

Um estudo apresentado por ambos revela que “praticamente nunca houve uma classe média negra americana. Um chefe de família negro com um diploma universitário normalmente tem menos riqueza do que um chefe de família branco com apenas um diploma do ensino médio”.

Dizer que o Covid-19 atinge todo mundo igualmente é apenas uma faceta dessa estratificação que insiste em não enxergar como a desigualdade racial e econômica segue matando muito mais negros e as populações mais pobres pelo mundo, não só pela coronavírus. A pandemia escancara todas essas diferenças, jogando no ventilador a falência de um sistema de saúde global cada vez mais privado e desigual. No mar do coronavírus há navios, há lanchas e há os que nadam sem colete salva vida. Nós podemos estar no mesmo mar, mas precisamos construir um barco que caiba todos nós igualmente.

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