Foto: Mídia NINJA

Por Cafira Zoé

esta carta se chamaria manifesto, mas foi preciso chamá-la carta, para driblar as seduções das ferramentas de lacração ego-exposto discursivas: essa nova estética para falar nesse tempo que tem nos afetado e não conseguiu se dissolver em meio a epidemia mundial que pede: aliança. com esta carta não fazemos coro nem à radioatividade das políticas humanas na terra, nem à reatividade estéril, que choca mas não cria. a partir de agora, não queremos fechar nada, pelo contrário, clamamos pelas aberturas amplas e irrestritas do pensamento e da ação de todos os poderes sociais constituídos, e também dos poderes espirituais, micropolíticos, ancestrais, humanos e não-humanos, assentados. 

a cultura no brasil agoniza, e com ela seus operários: forças cultivadoras da arte, da terra e da vida. 

no brasil pandêmico, junto ao agente biológico Covid-19, um agente de necromancia pratica a produção compulsória de políticas para morte e suas mãos geram dor, esquecimento e violência. 

práticas de solidariedade em rede têm ganhado cada vez mais fôlego para conter o avanço de uma contaminação em massa e estabelecer parâmetros mínimos de saúde, alimentação e amparo financeiro aos povos no brasil que sangram a violência de estarem submetidos a um governo de práticas genocidas. 

por isso, precisamos não nos submeter, e para isso será preciso inventar junt_s as condições que permitam a retomada da vida nas nossas mãos e a criação de forças, alianças, espaços, coletivos, e mesmo instituições regidas pela potência da autonomia, da criação coletiva, da anarquia coroada de viver junto, de lutar junto, de criar junto, sem o perigo das hierarquias. 

neste momento de grande fragilidade é urgente atentar às práticas de vitalidade, aos cuidados de si e de tod_s. 

atuar ao lado da cultura neste momento, ao lado d_s trabalhador_s do teatro, da música, das artes, da poesia, da literatura, das imagens, da imaginação é também uma urgência de saúde pública para toda a população. para combater a pandemia será preciso medicina – não só a ocidental, mas a dos povos da terra, e também plantas, ciência, novas tecnologias, interpretação, imaginação, poetas, artistas, crianças, rios, cosmopolíticas e teatro. 

neste momento, os povos do teatro agonizam a falta completa de horizonte. mas se não há horizonte, será preciso criá-lo. o teatro é a arte ligada ao poder da presença, da experimentação e da interpretação da vida. não estar em cena agora fere de assombro os artistas dessa arte e também a cultura brasileira. a terra fica cada vez 

mais plana quando deixamos agonizar os teatros, os museus, os slams, a ciência, _s artistas, tecnoartistas, bárbar_s tecnizad_s, iluminador_s, pimbins, videoartistas, operador_s de som, sonoplastas, figurinistas, cenografistas, arquitet_s cênic_s, atrizes-atores, diretor_s, cenotécnic_s, cuidador_s das companhias de teatro, dramaturg_s… há um circuito gigantesco na máquina teatral que está agora completamente desamparado e as projeções de abertura e retomada para estes trabalhos são assustadoras. 

nós não estamos falando da casta das artes, dos grandes salários, da estabilidade assentada nos horários nobres da máquina TV. estamos falando da carne perto dos ossos, do tutano da criação artísticas que gira a máquina teatral, de cada um de nós. 

criar um fundo emergencial para a classe teatral é uma urgência de saúde e sanidade pública, uma questão política e social, e deveria ser uma preocupação emergencial com a vida que virá no revés desta pandemia, e para criá-la como quem gesta um mundo novo outra vez, será preciso ciência, educação, cultura. e para ter ciência, educação e cultura, será preciso imaginação, experimentação e arte. o teatro, desde as antigas tragédias, é máquina de guerra contra todas as pestes. aniquilar a cultura, que é o cultivo da vida, é medida primeira de governos autoritários. também a peste da má política que contamina o brasil, a peste do esmagamento da vontade, do desejo, da criação e da liberdade, precisa ser urgentemente combatida, esse também é o caminho para atravessar essa pandemia, assim também criamos bolsões de saúde e cura dos povos e dos espaços. 

que os museus clamem pelos teatros. que as artes plásticas levantem flâmulas pelos operários das artes da vida em cena. que curadores criem redes de apoio pelos povos do teatro e que pratiquemos juntos a curanderia da vida contra a asfixia da arte. que os muros entre as artes caiam agora e não existam mais artes maiores pois seremos todos microcosmicamente gigantes, se juntos, e fortes, se perto. 

que a cultura aponte a direção futura, gestando um novo plano político horizontal, autônomo, generoso, criador de simbioses e alianças. 

invocamos lina bo bardi, flávio império, flávio de carvalho, stela do patrocínio, oswald de andrade, arthur bispo do rosário, invocamos antonin artaud, as bacantes, não de eurípedes, mas delas mesmas, invocamos os corpos híbridos, a composição das forças, os metá-metá. 

não nos dirigimos aos zumbis-políticos, nem aos reclamatórios-compulsivos, também não falamos aos robôs-embutidos. nos dirigimos a todos os estratos sociais, políticos, institucionais, coletivos, públicos e privados, ao corpo humano coletivo e ao corpo cósmico que nos ampara, à quem importa o cultivo da vida, e àquel_s que detêm a sapiência vital de que a cultura é infraestrutura das reviravoltas e insurreições importantes para a proteção da vida. 

não permitam que a força teatral colapse no meio desta pandemia. não permitam o choque séptico no corpo coletivo da classe artística. 

a luta pela vida só vingará se coletiva. 

este é um chamado para uma rede de solidariedade cultural autônoma, forte como os corais que agora respiram nos mares. 

nada será como antes 

este é também um momento de grande fertilidade para retomada da política nas mãos dos povos. 

só se existe em ATO. 

Cafira Zoé é da Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona / Núcleo de Estudos da Subjetividade.

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