Atriz Dadá Coelho escreve mensagem à amiga e vereadora do Rio de Janeiro, assassinada há cinco anos

Arquivo pessoal

“Carta para você
Amiga Mari,

Nem sei por onde começar essas mal traçadas linhas, mas, sendo bem franca (com o perdão do trocadilho), as coisas não foram fáceis nesses últimos quatro anos. Tempos difíceis e um quarteirão de saudade da tua luta. Como tu fazes falta por aqui, nêga!

Quem mandou te matar, Mari? Será que aí do além é mais fácil enxergar o mandante, já que aqui na terra andam fechando os olhos pra tanta coisa séria. Quem haveria de te querer mal, criatura? Tanto amor ao próximo, tanto cuidado com a coletividade, os direitos humanos, tanto zelo, uma vida inteira pela frente.

Mudamos os rumos das coisas nas últimas eleições. O Brasil voltou a respirar democracia, mas ainda é só o começo de uma reconstrução. Como nos versos de Arnaldo Antunes, por aqui “continuam atirando, guardas prendendo, quando não estão matando…”. A milícia que tirou a tua vida e a de Anderson Gomes deixou o Planalto, mas permanece agindo à luz do dia, debaixo da saia das autoridades.

Tudo anda ainda muito confuso. A malícia da milícia não tem limite. E eu que pensava que eles gostavam só de arma… Adoram jóias, mulher. Mas dizem que as jóias eram pra amante do capitão. Uma amiga repórter da Al Jazeera me disse que não se fala de outra coisa no Golfo Pérsico. Pra Michele sobrou apenas uma “Micheline”

Quatro anos é o tempo de um mandato aí no céu, amiga. Cuida da gente e te cuida. Fala com o chefe da casa aí e faz um projeto de lei mirando a nossa felicidade.
Por aqui ganhamos Anielle…

Cinco anos se passaram. Os seus familiares vão passar o resto da vida com as mãos estendidas tentando alcançar coisas que NÃO estão mais aqui.
Mas há esperança, viu?

Estamos trabalhando há 1.826 dias sem saber quem te tirou de nós. Mas as coisas vão melhorar, afinal, o clichê Lair Ribeiro-Zíbia Gaspareto-Augusto Cury
“sou brasileira e não desisto nunca”, prevalece firme e forte, como foi sua atuação aqui e depois daqui…

Boas novas: o Brasil derrotou o fascismo e a justiça começa a dar o ar da graça. Agora é punir genocidas e quem luta contra a democracia. Anistia NÃO!
DITADURA NUNCA MAIS.
DEMOCRACIA PARA SEMPRE!

Somos 700 mil a menos, e o inominável diz que não é coveiro. E recentemente descobriu-se que nem tudo que reluz é ouro, afinal, pode ser jóias vindas ilegalmente.

Menina, o país que mais mata LGBTQIA + e é campeão no altos índices de feminicídios voltou com a Lei Maria da Penha e se sobrepôs à apologia do uso das armas. Dilma Rousseff brilha fervorosamente contra Brilhante Ulstra.

A esperança venceu o medo. O amor está se impondo ao preconceito. O respeito está sendo exigido e não mais esperado.

Até o churrasquinho já tá voltando a ser passado na brasa. O Estado Democrático deu uma bordoada no grupo de zap das véias e no Véio da Havan.

A necropolítica é um retrato na parede, e como dói. A política venceu. A vacina e a ciência deram um basta no negacionismo. Rastegui viva o SUS. O conceito Orvalho de Cavalo caiu por terra plana. Sim, diz pra Paulo Freire que a inteligência depois da pandemia avassaladora, deu um banho na epidemia de burrice no Brasil e, que, voltou o país que traz médicos e expulsa fábrica de armas.

Hoje o brasileiro tem a resposta bem clara para questões como:
A polícia ou milicianos, que movimentam 300 milhões por ano e controlam territórios onde vivem mais de dois milhões de pessoas, têm esse poder ou o poder emana do povo?
Marielle Franco ou Ronnie Lessa?
Liberdade de expressão ou discurso de ódio? Biblioteca ou clube de tiro?

O Brasil volta a sorrir ao som Caetano Veloso, Chico Buarque, Anitta e Emicida.
Vê se te emenda, Sérgio Reis, e desatraca das próteses penianas erigidas com dinheiro público… Latino, chega de Mico. Roger Moreira, agente voltou a saber escolher presidente. E, pra teu desconsolo, o sempre Ministro Gilberto Gil deu um tapa com luva de película no Mário Frias, Regina Duarte e Cássia Kiss.

O Fome Zero é a bandeira do Ministro do Desenvolvimento Wellington Dias que, ocupado, labuta dia e noite por um País sem fome, com soberania alimentar para todos e todas. O engodo eleitoral
Auxílio Brasil, não dá, não deu, com 33 milhões de pessoas passando fome. Ser bolsominion é falta de caráter e demonstração de incapacidade cognitiva.

O salário mínimo é o máximo, se corrigido ano a ano, e assim será. A merenda escolar tá forrando bonito o bucho das crianças, que é próprio da escola ensinar e alimentar, com a produção local da agricultura familiar.

Diz ai ao Boechat que o Estado laico deu um murro na cilada do Silas Malafaia. A independência na Polícia Federal é um PRATO FEITO contra a interferência no órgão, e o Banco Central independente tem gerente no Palácio do Planalto.

A transparência é um estilhaço nos 100 anos de sigilo, e a farsa do triplex sem registro é fichinha perto dos 107 imóveis, 51 em dinheiro vivo, e o esquema das jóias do Sheikes para a manteúda.

Saúde e educação estacaram o
o orçamento secreto. A Amazônia em derrubada pelo vândalo Ricardo Salles, vulgo passador de boiada, é agora Marina Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu. Sonia Guajajara (povos indígenas), Joenia Wapichana (Funai), os povos da floresta e o agricultor com responsabilidade sustentável, tão na peleja contra o garimpo ilegal
e os fascistas do agro.

O nosso presidente Lula, tá que tá, construindo 40 unidades da Casa da Mulher, por este País machista onde mulheres são violentadas diariamente, e mortas.

O Congresso Nacional tá tinindo num esforço pra aprovar a lei de equiparação salarial entre entre homens e mulheres com a mesma função, e a instituição do 14 de março como o Dia Marielle Franco, contra a violência política, está na pauta do dia. E tá a caminho a criação do programa de saúde menstrual e licença maternidade para as brasileiras do Bolsa Atleta.
A Janja é um acontecimento, e vai ao Teatro.
É isso Mari, num País em que a educação sexual foi demonizada pelo governo federal e associou fake news à pedófilia, mamadeira de piroca, e a uma narrativa ilusória de “ideologia de gêneros”, a luta tá é grande e jamais nos daremos por vencidos. Xô, celerados e medíocres.

Nem quatro meses do governo Lula e o povo tá transando mais que personagem de “verdades secretas.” O Ministério do Namoro tá troando. A democracia é sexy.
O Brasil é só alegria. Um país feliz de novo é um bloco de Carnaval que não se importa se não é fevereiro.
De modo que o Brasil só vai se afirmar como um país decente se fizermos pressão pra refederalizar o processo e acharmos a resposta para a pergunta que não quer calar:
“quem mandou matar Marielle, e por quê?

“Bilhete fraternal, talvez útil, é uma
carta pra Marielle Franco.”

Escrito por Dadá Coelho, atriz, comediante, roteirista, “cuscuz influencer” e irmã de EmmemeireJanes.

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