Por Anelis Assumpção*

É curioso como a indignação é seletiva e entristece perceber que o meio das artes e da cultura é altamente intoxicado e hipócrita. Depois de uma séria de denúncias de trabalho análogo à escravidão, o festival Lollapalloza seguiu violando normas trabalhistas pois a passabilidade é evidente. Nenhuma marca ou artista fez sequer uma citação relevante sobre o caso. Esse meu escrito, que não interessa a ninguém, já que eu não fui convidada a assistir, tocar ou escrever sobre, é uma reflexão livre. Livre.

Estive no festival uma única vez, para ver Kendrik Lamar, com convites que ganhei. Foi um bom show, não ótimo. Impressionante mesmo foi a postura do artista, que entrou no palco vestido com a marca da concorrente à patrocinadora do festival, numa performance ensurdecedoramente silenciosa sobre liberdade. Naquele dia, Kendrik desceria de helicóptero para se apresentar por 50 minutos num festival com ingressos a quase dois mil reais, para uma plateia 90% branca, no país da américa com a maior população afrolatina do mundo. ‘ora, não me digam o que vestir’ – disse ele sem dizer.

A máquina do capitalismo inventou a inteligência artifical, que poderia escrever esse texto aqui, mas não seria livre. O mercado emburrece a massa no largo do horizonte e fingimos não perceber. o mercado amedronta a classe artística que, cega por poder, finge não ver, não sabe se posicionar e apaga uma luta constante e contínua – a da igualdade social. A cultura sempre esteve contaminada, mas, ao passo que a indústria comercial avança e corrói as cordas da subjetividade que estrutura qualquer pensamento de arte, os balões de ideias se esvaziam e como uma grande verdadeirização das mentiras, povo, classes, raças perdem suas diretrizes mais básicas.
Festival que contrata empresa que contrata outra empresa que contrata trabalhadores que são explorados em todos os níveis de perversão possível, não é um festival de música, é só mais um tipo de sistema na cadeia da desigualdade disfarçado de entretenimento e lazer.
Pra quem?
Eu escrevo porque posso e gosto. Livre.
Kendrik ousou usar a marca concorrente.
Ora, não me digam o que vestir.

 

*Anelis Assumpção: Cantora, Compositora, Produtora Musical e Diretora do Instituto Museu Itamar Assumpção

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

FODA

Qual a relação entre a expressão de gênero e a violência no Carnaval?

Márcio Santilli

Guerras e polarização política bloqueiam avanços na conferência do clima

Colunista NINJA

Vitória de Milei: é preciso compor uma nova canção

Márcio Santilli

Ponto de não retorno

Márcio Santilli

‘Caminho do meio’ para a demarcação de Terras Indígenas

Jade Beatriz

CONAE: Um Marco na Revogação do Novo Ensino Médio

Ediane Maria

O racismo também te dá gatilho?

Bancada Feminista do PSOL

Transição energética justa ou colapso socioambiental: o momento de decidir qual rumo seguir é agora

XEPA

Escutar os saberes ancestrais para evitar a queda do céu, o sumiço do chão e o veneno no prato

Instituto Fome Zero

MST: 40 anos de conquistas e de ideias que alimentam a esperança de um mundo sem Fome

William Filho

Legalização da maconha na Alemanha: o início de uma nova onda?

André Menezes

Os sons dos vinis: um papo com Dj Nyack, diretamente da Discopédia

André Menezes

Eu preciso falar sobre o desfile da Portela

William Filho

Minha dica ao novo secretário de Justiça

André Menezes

Tá no sangue: um papo sobre samba com os irmãos Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira