Combater preconceitos e construir ambientes seguros para con(viver). Mesmo que o mundo pareça ter avançado em alguns debates identitários, estamos longe de vivermos em mundo que respeite a diversidade. A cada 19 horas, uma pessoa LGBT é morta no Brasil. A cada hora, uma é agredida. Foram 445 assassinatos por LGBTfobia no ano de 2019 no Brasil. No caso de pessoas trans, que têm expectativa de vida de 35 anos, uma pessoa é assassinada a cada 26 horas. Os dados são do Grupo Gay da Bahia, Rede Trans e Mães pela Diversidade.

Como podemos combater e reverter esta realidade? A tecnologia tem sido responsável por proporcionar soluções frente a determinados desafios civilizatórios. Os recursos tecnológicos também podem ajudar os publicos que precisem de algum tipo de ajuda ou intervenção. Como é o caso de plataformas, aplicativos entre outras ferramentas voltadas à comunidade LGBTQIAP+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgênero, Queer, Intersexo, Assexuais, Pan e Polissexuais e mais). A boa notícia é que o número de recursos aumenta gradativamente. No entanto, a má notícia é que o público LGBTQIAP+ continua precisando desses serviços, já que o preconceito e a violência não estão nem perto de deixar de existir. 

Para abordar este tema, entrevistei Hóttmar Loch, CEO e Cofundador da Nohs Somos, uma startup de impacto social que se dedica a trazer bem-estar para a comunidade LGBTI+ e auxilia as empresas a melhorarem sua gestão inclusiva com soluções em diversidade & inclusão.

Imagem: Divulgação Nohs Somos

Recentemente a startup lançou o Mapa Lgbti+, um mapa de ranqueamento de lugares amigáveis que mobiliza os usuários LGBTI+ para avaliações. Dessa forma, através da ferramenta, é possível fornecer informações e avaliações confiáveis de lugares como restaurantes, bares, academias, empresas e entre outros que sejam amigáveis à comunidade de pessoas LGBTI+. A métrica de avaliação foi criada em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina. A Nohs Somos também é signatária das ODS 5,10 e 11. 

Além disso, também trazem o tema diversidade e inclusão para as empresas. Por isso, a startup criou uma solução para auxiliar o meio corporativo a melhorar sua gestão inclusiva com soluções em diversidade & inclusão. Hoje, a Nohs Somos atua com consultorias para clientes como Liberty Seguros, Whirlpool, Pulses e Ambev.

Qual o problema que vocês identificaram e que levou vocês a desenvolverem esta plataforma e solução do Mapa LGBTI?

A Nohs Somos foi criada em 2018, do desejo de um grupo de amigos de fazer alguma coisa para combater a forte onda de violência à comunidade LGBTI+ durante o processo eleitoral. Foi organizado um movimento com mais de 150 pessoas LGBTIs, para criar uma solução que prezasse a segurança e o bem-estar da comunidade, usando a tecnologia como aliada.

Quais as funcionalidades que os usuários terão acesso e o que eles podem fazer na plataforma?

A partir de um cadastro, a plataforma disponibiliza a funcionalidade do mapa, ranqueando os lugares amigáveis próximos e mobilizando o usuário LGBTI+ a avaliar. Quando a pessoa avalia, os lugares são inseridos no mapa. Nos locais que tiverem pelo menos 10 avaliações, é publicada uma média da nota. Além disso, é possível fazer comentários sobre os estabelecimentos, no primeiro momento, por questões de segurança, essas informações passarão por uma moderação antes de serem publicadas no site.

Para um lugar ser considerado amigável, ele terá que ser classificado com notas acima de 4 estrelas. Também os usuários podem filtrar locais de acordo com as letras da comunidade. Dessa forma, é possível filtrar lugares que são amigáveis às pessoas lésbicas, gays, bis, ou trans. Isso porque existem lugares que são gay friendly, entretanto são transfóbicos. As tags podem ser avaliadas pelos usuários incluindo os espaços que são LGBTIs+, Antirracistas e Trans Amigues que tenham um atendimento acolhedor, público respeitoso e um bom custo benefício. 

Nesse momento de pandemia, o objetivo da funcionalidade é mapear os lugares já conhecidos pelos usuários. A comunidade LGBTI+ pode participar dessa transformação sem sair de casa. O Mapa Lgbti+ está em construção e além de avaliar e ajudar nessa transformação social, as pessoas usuárias podem ganhar recompensas, com cupons exclusivos. E assim que o isolamento acabar, a funcionalidade poderá impactar na decisão da escolha na busca por lugares amigáveis. 

Ilustração: Divulgação / Nohs Somos

Qualquer lugar do país pode participar?

O mapa pode ser utilizado em todos os lugares do Brasil, já que usa sua tecnologia utiliza API do google maps. Assim que uma pessoa usuária procura um local, esse lugar passa a ser inserido no mapa amigável. Contudo, só será possível gerar uma nota, com o mínimo de 10 avaliações.

Como estão sendo estas primeiras semanas de divulgação e trabalho? Quais são os desafios que estão enfrentando?

Estamos muito contentes com o desempenho do projeto, desde o lançamento, no último dia 14, já estamos em mais de 233 cidades ao redor do país, com mais de 700 avaliações de lugares amigáveis. Contudo, ainda temos muito trabalho pela frente. A Nohs Somos é uma startup lgbti de impacto social, não temos divisão de lucro e nosso objetivo é ser um marketplace que aproxima o mercado amigável da comunidade LGBTI+, alinhado a valores. Com isso, o principal desafio é continuar o trabalho de marketing, para popularizar a plataforma, angariar recursos e dar sequência no desenvolvimento das outras funcionalidades, como o aplicativo com rotas seguras, funcionalidade de denúncia entre outras. 

Como vocês veem o papel da tecnologia neste contexto atual? Qual desafio enquanto organização vocês enfrentaram neste setor? 

A tecnologia é neutra: ou seja, há pessoas por trás que tomam a decisão de como essa ferramenta impactará na vida das pessoas que a utilizarão. A Nohs Somos é um bigdata lgbti, que  organiza os dados da comunidade LGBTI+ com objetivo de informar de maneira segura e confiável, promovendo o bem estar da comunidade lgbti+. Em relação aos desafios, o principal vai de encontro ao mercado: segundo o relatório da Brasscom, seriam necessárias 70mil pessoas com perfil tecnológico por ano, contudo, o Brasil só forma 46mil. E hoje a Nohs Somos conta com parte do seu trabalho de apoios voluntários, o que torna a competitividade de mercado ainda mais difícil. 

O projeto foi desenvolvido em Software Livre e esta aberto para a colaboração de pessoas da área de desenvolvimento?

Infelizmente o projeto ainda não está com o código aberto, contudo é um dos objetivos da Nohs Somos e esperamos em breve poder abrir. 

Vocês realizaram várias parcerias para a criação da Plataforma. Quantas pessoas estão envolvidas no projeto e como foi feita a mobilização, tanto para o desenvolvimento quanto para a divulgação?

Atualmente contamos com uma rede de mais de 50 parceiros, entre organizações e pessoas, sendo 90% pessoas LGBTIs+, 30% pessoas negras, 15% pessoas com deficiência e 40% mulheres cis e trans, espalhades pelo país, que apoiam produzindo para o projeto principalmente nas áreas de Marketing e Mídias, Produto e desenvolvimento, Administrativo e Jurídico. 

Clique aqui para acessar o mapa!

 

 

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