Por Hyader Epaminondas

A maior vantagem das franquias novas está na liberdade criativa que elas têm para se destacar em meio a tantas produções semelhantes. Mas é quando ganham uma continuação que o verdadeiro teste acontece, pois é nesse momento que a ideia original precisa provar que tem força suficiente para se sustentar, e a dupla de diretores Tyler Gillett e Matt Bettinelli-Olpin consegue passar dentro da média com essa sequência.

O primeiro “Casamento Sangrento”, apesar de partir de uma premissa que, à primeira vista, parecia tão genérica, conseguiu me surpreender na época por esbanjar criatividade dentro do já bastante explorado subgênero “eat the rich”, ao colocar uma noiva no centro de um confronto sangrento que transforma o ritual do casamento em uma metáfora brutal da luta de classes. Obviamente, o tom pastelão já se sobressaía à crítica social que ficava contida na premissa.

A sequência em “A Viúva” amplia o universo do primeiro filme ao começar exatamente de onde a história anterior termina, mas a maneira como revisita os acontecimentos do longa original acaba se tornando um de seus pontos mais fracos. Agora que a família Le Domas não existe mais, o vácuo de poder se instala, e o filme apresenta quatro famílias para disputar o trono que ficou vago, ao deslocar o conflito para um imaginário mais globalizado da riqueza, reunindo um elenco plural de diversas nacionalidades.

O longa vai na lógica de preservação do poder não pertencer apenas a uma linhagem específica, mas a uma rede maior de elites que atravessa fronteiras para manipular os rumos da sociedade, enquanto brinca com a fantasia dos pactos como teia que une todas essas teorias da conspiração.

Para sustentar essa ampliação de escala, o cenário se expande ao mesmo tempo em que perde sua originalidade ao ser ambientado dentro de um resort de luxo, com extensos campos de golfe, salões de festas decorados e uma lavanderia que supera qualquer expectativa, mas o roteiro dobra a aposta no componente satanista que estrutura essa tradição familiar. A explicação pode soar absurda, mas funciona justamente porque o filme confia no seu próprio humor macabro e transforma o exagero em parte essencial da sua comédia sangrenta.

Nessa nova ambientação, o filme aposta em mais violência, humor ácido e em uma dinâmica renovada entre sobreviventes. Mesmo com um início arrastado e relativamente morno, a narrativa encontra seu ritmo quando assume de vez o tom de comédia, transformando o caos em situações genuinamente engraçadas, principalmente as que envolvem o personagem de Elijah Wood, com suas caras e bocas já características.

A continuação parece mais consciente do próprio tom do que o primeiro capítulo. A violência é mais exagerada, as mortes são mais elaboradas e o humor ácido aparece de maneira mais explícita. Em vez de tentar reproduzir a tensão do original, o filme prefere amplificar o absurdo da situação e transformar o massacre em um espetáculo de caos controlado em um resort luxuoso.

Foto: 20th Century Studios

Sobrevivendo em família

Samara Weaving retorna propositalmente mais cansada como Grace e já começa o filme de saco cheio de toda a palhaçada vivida no filme anterior, e a produção entende que repetir exatamente a mesma estrutura narrativa seria um erro, por isso encontra um novo eixo ao aproximar a personagem de uma nova personagem, vivida por Kathryn Newton como a irmã mais nova. A relação entre as duas vai se desenvolvendo conforme a trama avança, criando uma dinâmica de parceria que mistura desconfiança, sarcasmo e instinto de sobrevivência.

É justamente aí que Weaving salva o filme mais uma vez: sua performance continua transitando entre o desespero genuíno e um sarcasmo quase catártico, lembrando constantemente que a personagem já não é mais apenas uma vítima. Kathryn Newton funciona como contraponto energético, trazendo impulsividade e um senso de humor que ajuda a renovar o ritmo da história. Quando as duas dividem a cena, o filme encontra sua melhor forma, menos interessado em apenas repetir um jogo de caça e mais focado na recuperação do relacionamento das irmãs.

“Casamento Sangrento: A Viúva” tem plena consciência de que sequências raramente conseguem recriar o impacto do original. O que o filme faz é triplicar a aposta na carnificina e no humor, transformando o terror embalado numa comédia genuinamente engraçada em um espetáculo ainda mais caótico.

Pode não ter a mesma criatividade do primeiro, mas a dupla principal prova que ainda há bastante sangue e diversão neste jogo de pega-pega mortal.