Por Chris Zelglia

O Carnaval é visto frequentemente como um dos principais propulsores da economia criativa do Brasil. Ele movimenta bilhões, fomenta o turismo, dinamiza os serviços, cria empregos provisórios e promove as cidades no exterior. No entanto, a questão que devemos fazer é menos sobre a festa e mais sobre a estrutura: quem realmente se beneficia de forma duradoura com essa máquina?

A economia carnavalesca é vasta e abrange diversos setores: hotéis, transporte, alimentação, produção cultural, audiovisual, moda, publicidade, etc. Apesar disso, enquanto os números totais são geralmente divulgados, a distribuição dessa receita raramente é analisada com a mesma profundidade.

A maior parte da mão de obra que mantém o Carnaval funcionando trabalha em regimes temporários, informais ou com pouca proteção social. Costureiras, montadores, músicos, vendedores ambulantes, técnicos e produtores trabalham em condições que garantem renda imediata, mas nem sempre a estabilidade ao longo do ano. A economia criativa se torna ativa por alguns meses e depois diminui.

Isso não quer dizer que o Carnaval não tenha um impacto positivo. Ele tem um impacto considerável. O problema está na durabilidade dessa geração de renda e na falta de políticas estruturais que transformem o potencial sazonal em desenvolvimento constante.

Outro ponto crucial é a concentração de lucros. Grandes patrocinadores, redes de hotéis e setores empresariais tendem a obter fatias maiores e mais estáveis dos lucros. Já os agentes culturais de base dependem de editais incertos, contratos temporários e negociações frágeis.

Existe também a questão territorial: municípios mais famosos recebem mais investimentos, enquanto áreas periféricas ou do interior geralmente operam com poucos recursos. A lógica da economia criativa, quando não é orientada por políticas redistributivas, pode reproduzir desigualdades já existentes.

Questionar para quem o Carnaval é duradouro é mudar o foco do faturamento bruto para as condições de trabalho, proteção social e continuidade de renda.

Se o Carnaval é um ativo econômico importante, ele precisa ser tratado como tal: com planejamento, investimento contínuo e políticas que garantam a estabilidade dos trabalhadores culturais e não apenas do espetáculo.

Reconhecer o Carnaval como economia criativa é fundamental, mas reconhecer quem continua em situação de vulnerabilidade dentro dessa economia é indispensável.

A festa acaba. A estrutura que sustenta seus trabalhadores deveria continuar.