Por Carina Vitral e Raquel Leal

Desastres ambientais, como o rompimento da barragem em Mariana e em Brumadinho, as queimadas na floresta Amazônica. A máquina misógina desenfreada contra o governo Dilma. O assassinato de Marielle Franco sem respostas a quase dois anos. A crescente violência policial, juntamente com o governo miliciano, que incita o ódio contra grupos menos favorecidos, como as mulheres, os negros, os periféricos, os homossexuais, as transsexuais. Além da terrível realidade que enfrentamos com a pandemia de covid-19 e seus  inúmeros desafios jamais vividos por nós, tanto no âmbito pessoal quanto no coletivo. E se não bastasse esse cenário que, por si só já é aterrorizante, ainda é seguido por inúmeros problemas que permeiam o campo político socioeconômico do nosso país, nos deixando ainda mais desamparados em meio a uma crise sanitária. 

Tudo isso que vem acontecendo são mostras claras que o sistema vigente não contempla a grande maioria da população, os menos favorecidos, não é segredo para ninguém. Mas, então será que podemos afirmar que o sistema capitalista patriarcal branco e heteronormativo está em colapso? Uma pergunta para se refletir, sem a pretensão de respondê-la  no presente texto, que por sua vez tem como intuito aflorar questionamentos dirigidos ao paradigma patriarcal. 

O psicanalista Carlos Plastino destaca, em uma aula dada no canal Café Filosófico, a importância de desnaturalizar o paradigma, afinal aquilo que é naturalizado se isenta da crítica. A crise do paradigma só vem quando começamos a colocar em questão as crenças postas por este. 

E por que a relevância de desnaturalizá-lo? Bom, o paradigma patriarcal apresenta a pretensão de ser a “descoberta de verdades”, sendo que, na realidade, todo paradigma é uma construção do imaginário humano. Nós somos seres de criação, criamos nossas convicções e fundamentados nessas concepções criamos nossas sociedades e nossas civilizações, que por sua vez influenciam diretamente a nossa relação com o outro (o diferente), com a natureza e com nossas emoções e nossa corporeidade.  Ao compreendermos esse processo, o paradigma é deslocado para o lugar de construção histórica, e assim temos a oportunidade de não tratá-lo como uma verdade absoluta que impera desde sempre. 

As afirmações iniciais feitas no patriarcado são: “o ser é” e “o único conhecimento válido é o racional”, ou seja a ideia de essência e dominação. Além de carregar uma visão dualista, linear e hierarquizada que impossibilita as interconexões entre as partes, trazendo então a noção de dominador e dominado.

Vemos a ideia de dominação e segregação quando a cultura subjuga a natureza, a razão a intuição, a consciência o corpo, e (principalmente na consolidação do patriarcado) o homem subjugando a mulher. A partir daí as segregações apresentam-se por aquilo que é atribuído ao feminino. Então, o feminino torna-se o depositário do ódio, da castração, do mal, e do menos valor. 

A natureza, a mulher, o corpo e as emoções são desvalorizados e postos como aquilo que precisa de ser controlado e dominado. Mas, será mesmo que esse é o papel da emoção, da mulher, da natureza (a natureza externa e a natureza humana)? Ser dominado e controlado? Ou isso é uma produção do paradigma? 

Aqui retomo uma das afirmações centrais do patriarcado: “o ser é”. A ideia de essência (tratada nesse contexto) e a determinação são categorias centrais da dominação. A “essência da mulher”, a “essência do escravo”, a “essência do artista”, etc. Não é de se surpreender que a mulher passa a pertencer ao campo da natureza colocando como natural em si, o instinto materno. E os homens “dotados de razão” residem ao campo cultural e histórico. “As mulheres não são agentes na história, elas são colocadas na história. Os homens são a cultura e a história e as mulheres estão na cultura e na história” como a filósofa Marilena Chaui afirma. Contudo, é importante ressaltar que o  patriarcado não é só a dominação do homem sobre a mulher. O patriarcado é um modelo de dominação sobre o outro, sobre àqueles que não fazem parte do poder. 

Estamos diante de um momento que, indícios de crise de várias ordens, indicam que precisamos criar um novo modelo sem a dinâmica de “dominadores versus dominados”, com relações mais solidárias e com valores mais igualitários.   Mas, qual é o parâmetro para dizer qual paradigma é melhor?  Boaventura de Souza Santos diz “precisamos de um paradigma prudente para uma vida decente”.

E para uma vida mais digna, faz necessário um modelo que seja marcado pela responsabilidade com nós mesmo, com o outro e com a natureza. Um modelo guiado pelo conhecimento do percurso histórico e não pelo determinismo. Um modelo que privilegia a vida e não só a produção e o lucro, que leve em consideração o coletivo, mas que também dá espaço a singularidade que, diferente do individualismo, é mais profundo e fecundo.  Em última instância precisamos de um paradigma que reconhece o feminino, contempla a emoção como fonte de conhecimento, o meio ambiente como parte fundamental, o corpo como um símbolo de expressão e liberdade e a mulher como uma agente da história e da cultura. 

REFERÊNCIA: 

PLASTINO, C. 1 vídeo (51:43). Reflexões sobre uma concepção antropológica do patriarcado. Publicado pelo canal no youtube Café filosófico, 2018. Disponível em: <https://youtu.be/t7ELmSUWZ9I> Acesso em: 15 jun 2020.

CHAUI, Marilena de Souza.  Afinal, o que querem as mulheres. São Paulo; CASA DO SABER, 2019.

*Coluna escrita em Raquel Leal, escritora e graduada em psicologia, dedica-se a estudos e pesquisas sobre o psiquismo da mulher contemporânea.

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