Morrer de tiro ou de vírus, são essas as opções para a favela? Vi essa frase triste e poderosa num cartaz que circulou nas redes sociais da Mídia Ninja em alusão ao momento dramático que vive a maior parte da população brasileira, negra e pobre, sujeita a morrer afetada pela covid-19 – devido às precárias condições de vida – ou atingida por uma bala – que é o destino de milhares de pessoas, sobretudo jovens, vítimas da falaciosa “guerra às drogas”, ano após ano.

Há quase três meses o Brasil atravessa a sua pior crise sanitária, com a chegada do coronavírus e seu efeito devastador. Já perdemos mais de 30 mil vidas desde março, e registram-se mais de 500 mil infectados. Desde 22 de maio, o país é o segundo com mais casos confirmados da covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos, que tinham mais de 1,7 milhão de casos no dia 31 de maio, e o quarto em número de mortos pela doença, atrás de EUA, Reino Unido e Itália.

Em meio à pandemia, a violência policial não deu trégua, e assistimos estarrecidos a um sem-número de assassinatos de jovens em favelas e periferias das grandes cidades. A Anistia Internacional alerta que a cada 23 minutos um jovem negro morre em nosso país. O caso mais rumoroso das últimas semanas foi o do menino João Pedro, em São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro, fuzilado pelas costas, no quintal de casa, numa operação das polícias federal e civil, no dia 18 de maio. Depois dele já houve outros. No dia 30, o mototaxista Matheus Oliveira, de 23, foi baleado na cabeça, na altura do Morro do Borel. Na véspera, outro mototaxista havia sido assassinado com um tiro nas costas, no Complexo do Chapadão. E os casos se repetem. Como o do adolescente Marcos Vinicius, em 2018, no Complexo da Maré, a menina Ágatha Félix, em 2019, no Complexo do Alemão, e tantos outros. Junto, “morrem” o pai, a mãe, irmãos, tios. Famílias inteiras dilaceradas pela política de extermínio adotada na segurança pública.

Seja no Rio de Janeiro ou em outros estados, as tragédias vão se avolumando. Não são casos isolados, são prática policial. No estado de São Paulo, conforme levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado na segunda-feira 1º de junho, a quantidade de mortes cometidas pela polícia aumentou 31% entre janeiro e abril de 2020. O mesmo estudo aponta que no somente no mês de abril, período de quarentena, a letalidade policial aumentou 53% no comparativo com o registrado em 2019. Como isso é possível? Que argumento pode justificar esses crimes se não a prática de matar?

Lembremos que, nos Estados Unidos, o assassinato do homem negro George Floyd, cometido por um policial branco, foi o estopim para um levante que há muito não se via naquele país, onde a segregação racial é causa de conflitos antigos e recorrentes, principalmente em Minneapolis, onde ocorreu o crime. Dezenas de cidades norte-americanas estão há uma semana em protestos incisivos nas ruas, com apoio e participação de artistas, atletas, modelos, juristas, políticos e personalidades de todo o país e do exterior. As pessoas estão correndo riscos em meio à pandemia porque a situação se tornou insuportável. São anos de violência represada que vieram à tona no momento em que o governo trata com desdém a vida dos cidadãos, seja a vida das vítimas da covid-19, seja a das vítimas da violência policial. Trump é defensor das armas, um racista notório, desdenhou do perigo do coronavírus no início da doença.

Aqui, não por coincidência, o cenário é semelhante. O racismo também é secular, estrutural e institucional, herança do passado escravocrata que perdura até hoje, intrinsecamente associado à desigualdade social. Essas duas condições que pesam sobre a maioria da nossa população sobrevieram mais uma vez durante a crise sanitária e econômica que nos atinge profundamente em 2020. De acordo com a prefeitura de São Paulo, a mortalidade pelo novo coronavírus na capital é até dez vezes maior em bairros com piores condições socioeconômicas (favelas, cortiços e outros aglomerados habitacionais), e os pretos têm 62% mais riscos de morrer pela epidemia do que os brancos. Sem falar que, nas periferias, onde a pobreza predomina, o risco de morrer pelo vírus é maior para todas as faixas etárias acima de 30 anos. Ou seja, a morte tem cor e classe social, está muito mais próxima dos pobres e negros.

No Brasil, também, o homem que ocupa o lugar de presidente é um negacionista, racista, armamentista e truculento, embora com uma substancial diferença: o mandatário daqui é bajulador do de lá, que se comporta como senhor do destino da humanidade e trata a subserviência bolsonarista com o desprezo que ela merece. O daqui afronta a Constituição, despedaça a ordem democrática, espezinha as instituições, desdenha os riscos do vírus, sabota o combate à doença, menospreza o sofrimento da população desprotegida e desrespeita a dor das famílias que perderam seus entes queridos. Nenhuma palavra de conforto às vítimas. Ao contrário, ele incensa as milícias fascistas e “governa” à base do ódio, do extremismo e das mentiras.

O país está à deriva, e a população já não suporta mais esse governo da morte, a instabilidade política, a crise econômica, a prepotência e o desarranjo verbal do presidente. Há um caldeirão de angústias e revoltas pronto para explodir. Ainda que a contragosto – porque defendem e praticam o isolamento social –, muitas pessoas e movimentos estão se vendo impelidos a ir para a rua protestar contra o governo Bolsonaro, conforme se viu no domingo dia 31 em diversas cidades brasileiras, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro, que lideram os casos de violência e da pandemia. O episódio desencadeador dos protestos foram os assassinatos dos jovens negros, mas o cardápio é variado e realça a defesa da democracia e a luta contra o fascismo e pela vida dos brasileiros.

Os motivos, que se acumulam há tempos, de certo modo vinham sendo extravasados nos panelaços que eclodiram a partir de março. Apesar das dificuldades, neste período de isolamento ocorreram muitas articulações à distância, entre personalidades, segmentos, organizações e partidos, com o propósito de galvanizar o descontentamento crescente em quase todos os setores da sociedade brasileira. Mais recentemente, manifestos de distintos matizes e origens apontam para a formação de uma ampla frente em defesa da Constituição e do Estado Democrático de Direito. Isso é urgente e imprescindível, e precisa estar calcado na força das ruas para o impulso certeiro que resulte na derrota das forças neofascistas, racistas, supremacistas. Não fosse a restrição motivada pela quarentena, as ruas já estariam tomadas há mais tempo, porque a urgência das pautas justifica as manifestações públicas.

A escalada autoritária é um perigo iminente, e os atos fascistas, sob a conivência e proteção de forças policiais e com estímulo e presença do chefe do Executivo e de outros integrantes do governo central, se tornaram rotina. Mais que nunca, é preciso enfrentar o autoritarismo e o arbítrio no mesmo terreno. Não podemos deixar as ruas para a extrema-direita.

Acredito que defender a democracia é uma emergência, requer ação coletiva e deve ser encarado como um serviço essencial neste momento terrível que o Brasil atravessa. Por isso, é legítimo o sentimento de quem irá retornar às ruas neste próximo domingo, de forma organizada, com os devidos cuidados de saúde, uso de máscaras, luvas e álcool em gel, distância de 2 metros entre as pessoas e retorno para casa após as manifestações. E desde já orientando as pessoas de grupos de risco a não comparecerem. É pela democracia, para frear a radicalização política das bases bolsonaristas e barrar os intentos antidemocráticos e genocidas do presidente. Pelas vidas negras, que importam, pela saúde das pessoas infectadas pelo vírus e pela sobrevivência dos cidadãos vitimados pela miséria. Fora, Bolsonaro!

Carina Vitral
Pré-candidata a vereadora em São Paulo pela Bancada Feminista
https://carinavitral.com.br/

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