Brazil Conferente 2026 leva a Flori.tech para revolucionar a logística reversa
Iniciativa tecnológica busca aliar a rastreabilidade à reciclagem de resíduos através de pontos de coleta gamificados
Por Jhessyka Fernandes
O Brasil perde, anualmente, cerca de R$ 14 bilhões por não reciclar corretamente os 82 milhões de toneladas de resíduos que produz. Segundo a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente, a taxa de reciclagem no país varia entre 4% e 8%, a depender do tipo de material coletado. Esse déficit também impede a geração de empregos e renda para famílias de catadores. A falta de valorização dos resíduos, decorrente de uma educação ambiental que deixa a desejar e da ausência de incentivos ao consumidor, faz com que o meio ambiente seja, acima de tudo, o maior prejudicado.
No coração da economia circular brasileira, uma startup vem chamando a atenção não apenas por sua capacidade de inovação tecnológica, mas por sua habilidade em enfrentar um dos problemas mais urgentes do século XXI: o lixo. A Flori.tech, uma deep tech focada em logística reversa inteligente, consolidou-se como um elo vital entre grandes corporações, consumidores conscientes e a preservação ambiental.

Criada em um hackathon por Thaís Guerra e Gabriel Bastos, a equipe buscou encontrar uma solução para o descarte inadequado de resíduos no Rio de Janeiro. Sem enxergar grande impacto na ideia inicial, os fundadores desenvolveram uma máquina de coleta inteligente com uma solução simples, eficiente e gamificada. Thaís e Gabriel perceberam que o Brasil, apesar de ser um dos maiores produtores de resíduos eletrônicos do mundo, carecia de um sistema capilarizado e eficiente para coletar e processar esses materiais.
Muitas empresas demonstravam o desejo de cumprir a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), mas esbarravam nos altos custos logísticos. Foi nesse cenário que o projeto decidiu “cortar gastos” e investir em eficiência operacional. Em vez de frotas gigantescas e armazéns ociosos, a startup apostou na inteligência de dados e em parcerias estratégicas para criar pontos de coleta inteligentes e sistemas de rastreabilidade que garantem que o descarte chegue ao destino correto com o menor custo possível.
O grande diferencial da Flori.tech reside em sua plataforma. Não se trata apenas de “coleta de lixo”, mas de uma gestão sofisticada de ativos. Ao acessar o ecossistema da startup, empresas e usuários podem monitorar o ciclo de vida dos produtos, desde a entrega no ponto de coleta até a reciclagem final ou o reuso de componentes. Assim, a tecnologia permite o que eles chamam de “rastreabilidade total”. Isso significa que cada grama de metal precioso ou plástico recuperado é contabilizado, gerando créditos de logística reversa com valor real no mercado corporativo. Essa abordagem transforma o descarte — anteriormente visto como um passivo ambiental e financeiro — em um ativo estratégico para empresas que buscam se alinhar a práticas mais sustentáveis.

Impacto Social e a Economia do Futuro
Além da questão ambiental, a Flori.tech desempenha um papel social fundamental. A logística reversa operada pela plataforma muitas vezes integra cooperativas de catadores e centros de triagem, profissionalizando o trabalho de milhares de pessoas que antes atuavam na informalidade. Ao conectar esses agentes à cadeia formal de suprimentos de grandes indústrias, a Flori promove a distribuição de renda e a valorização do trabalho ambiental.
A visão da empresa para os próximos anos é ambiciosa. Com a crescente digitalização da sociedade, a produção de dispositivos eletrônicos tende apenas a aumentar. A startup se posiciona não apenas como uma prestadora de serviços, mas como a infraestrutura necessária para que a “mineração urbana” se torne a principal fonte de matéria-prima para a indústria tecnológica.
Outro ponto fundamental desta história é a sua filosofia de gestão. Em um mercado de tecnologia muitas vezes marcado por gastos excessivos e pela busca por aportes astronômicos de capital de risco, a Flori trilhou um caminho de eficiência extrema: ao cortar gastos desnecessários no início da operação e focar no desenvolvimento de um produto que realmente resolvesse o problema do cliente, a empresa conseguiu crescer de forma orgânica e sustentável.
Essa mentalidade permitiu que a startup sobrevivesse a períodos de instabilidade econômica e emergisse como uma solução de baixo custo e alto impacto para o mercado brasileiro. O impacto do modelo de negócio da Flori.tech ultrapassou os balanços financeiros e alcançou reconhecimento público. A indicação como finalista no Prêmio Impactos Positivos 2025, na categoria voltada a Ecossistemas de Impacto, reforça o papel da empresa como uma das protagonistas da nova economia brasileira.
O prêmio, que celebra iniciativas que contribuem para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, destacou a empresa por sua capacidade de escala. Ao simplificar o processo de descarte para o cidadão comum e oferecer uma solução robusta para o B2B, a startup ajuda a reduzir a extração de novos recursos minerais, economizando energia e evitando a contaminação de solos e lençóis freáticos por metais pesados. Neste ano, o projeto venceu o Programa Hack Brazil 2026, promovido pela 12ª edição do Brazil Conference, que acontece em Cambridge, Massachusetts, e vai até domingo (29).
Apesar do sucesso, os desafios são proporcionais à ambição da empresa. O Brasil ainda enfrenta barreiras culturais no descarte correto e uma complexidade tributária que, muitas vezes, penaliza a economia circular. Com presença constante em fóruns de inovação e destaque recente em premiações nacionais, a Flori.tech demonstra que a tecnologia brasileira está pronta para liderar a agenda climática global. Para a empresa, o fim do ciclo de um produto é, na verdade, apenas o começo de uma nova história.



